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Matéria Corrida

Darel 5/6

TEXTO José Cláudio

02 de Outubro de 2019

Capa do romance 'Crônica da casa assassinada', de Lúcio Cardoso

Capa do romance 'Crônica da casa assassinada', de Lúcio Cardoso

Imagem Reprodução

Há em Darel um ingrediente que criou essa predisposição à dramaticidade, como preparação mais remota: o medo. O medo irracional, do menino a quem contam histórias de lobisomem, e racional também, de ser assassinado com toda a família, por circunstância verdadeira de adulto que não nos cabe relatar. “Pernambucano gosta de contar essas coisas a crianças” — lembra ele inda hoje aos 60. Do pouco tempo — três anos — em que ficou no Recife (depois de ter substituído, na Usina Catende, o desenhista Augusto Reinaldo no desenho de máquinas), o folclore de que se lembra é a lenda de um cidadão que ficava à noite na Ponte Buarque de Macedo e pedia, ao passante eventual, fósforo; e, no que ia acender o cigarro, abria o capote e era — em que era possível reconhecer — um morto de quatro dias de enterrado. Darel até hoje recusa-se a ilustrar livros em que não sinta ligação consigo próprio — como recusou-se a ilustrar as obras de José Lins do Rego. O primeiro livro que ilustrou foi um de Hermilo Borba Filho, outro seu conterrâneo de Palmares, sobre o macobeba, uma espécie de lobisomem. Meio estragado, mas dando ainda para ver, tenho aqui em casa um dos seus mais autênticos desenhos, na capa de uma edição mais antiga do romance de Lúcio Cardoso Crônica da casa assassinada. A morte — deve notar o leitor — ronda o espetáculo. O assassino de carne e osso será o agente, mas o grande assunto é a morte, que nenhum artifício consegue burlar, nem ciência, nem droga, nem regime político. Somos o emparedado, o enterrado vivo, a quem só é dado ver a luz através de frestas, tampado por todo tipo de repressões de fora e de dentro, a principal delas a consciência da morte, morte materialista sem consolos eternos. Nem castigos eternos, o que só serve para garantir a impunidade do mal. Parece que estou falando de babaquice e sei que o leitor já terá pensado isso páginas atrás. Mas é que escamoteamos o assunto: não resolvido se tirarmos da jogada essa coisa inventada, Deus. Ou resolvido, mas se aceitarmos a barbárie total. Mas a barbárie total não existe enquanto não a aceitamos dentro de nós: e aí nos deparamos de novo com o indivíduo. E quem fala em indivíduo fala em Deus. Veja esse trecho (Darel/a presença da vida, Wilson Coutinho, Jornal do Brasil, março de 1985): “Houve uma época em que névoas de culpas faziam uma densa cerração em sua cabeça. Tinha um pouco mais de 50 anos e raciocinava com a seguinte e improvável dialética. Darel começou a cismar que já que não havia Juízo Final alguém deveria pagar o pato pela bomba lançada em Hiroshima ou pelo massacre dos judeus. O presidente Truman (o raciocínio era metódico e impecável) que autorizara o lançamento da bomba morrera velho e satisfeito e até hoje caçam os que fizeram atrocidades aos judeus./Provavelmente, Darel imaginava que ele é que deveria ser crucificado. Vinha com estes pensamentos dirigindo seu carro, na estrada de Petrópolis quando deu carona para uma garota de 21 anos. E para adensar mais as suas nuvens de culpa fez uma pergunta à moça. ‘Imagine um tipo que entre na sua casa, mate você, seu filho, seu marido e depois morra aos 80 anos feliz e rico em Manaus.’ A pergunta era completamente disparatada, mas entrava na sua lógica. E depois indagou da moça. ‘Quando ele morrer o que ele vai sentir?’ A moca enrolou um cigarro considerado não industrializado, baforou e respondeu: ‘Ele vai curtir o maior barato’”.

Talvez para aprender a enxergar por essa nova ótica: “A moça morava na Baixada Fluminense e Darel passou a conviver com seus moradores. Não era difícil encontrá-lo numa escada pintando letreiros de escolas ou desenhando em torno de seus amigos que diziam que ele já tinha nascido com a ‘doidera’. Não precisava de nenhum estímulo extra. Ainda procurou salvar uma prostituta procurando-lhe um emprego. Recebeu outra bolacha. ‘Darel — disse a moça — se a gente está a fim de piranhar, a gente pode ter dez empregos que continua piranhando’”.

É de se notar, nos artigos sobre Darel, a ausência de referências a artistas ou movimentos de arte, em que os críticos são tão pródigos quando falam de outros artistas, quase uma norma (embora os artistas queiram ser sempre reis momos primeiros e únicos e sem terem nascido de ninguém). Não condeno quem faz esse cotejo como esclarecimento, até ao próprio artista que, empolgado com a sua obra, e sendo ela filha de tantos pais, termina não sabendo de onde ela veio nem o que transparece de suas origens. No caso de Darel, prefiro seguir o conselho de Corot aos estudantes, de nos submetermos à primeira impressão, impressão essa que os mais de trinta anos somente vieram corroborar. Não faz sentido saber, nos trabalhos de Darel, do traço, com o de quem se parece, das formas organizadas na superfície, onde é mais quadrado ou mais redondo. Assim como o homem por ele abordado não é o de um lugar ou época determinados também será mais por ressonância espiritual que o poderemos enquadrar numa “escola”, que vá de Rembrandt a Poty, passando por Goya, Goeldi e não sei quem mais, sempre por causa do patético, do claro-escuro dramático, disso que foi batizado em 1911 de expressionismo, mas que engloba tanta coisa, tanto quanto a não-escola de Darel, e que pode estar — o expressionismo — tanto na pincelada impressionista de um auto-retrato de Van Gogh como no cubismo de um Feininger, em outras palavras num sentimento mais do que no estilo visual. Mas, estilo, sentimento, como começou toda essa história, esse — como Darel às vezes se refere ao que vem fazendo ultimamente — “cineminha”?

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