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Matéria Corrida

Darel 2/6

TEXTO José Cláudio

05 de Julho de 2019

Ilustração de Darel para

Ilustração de Darel para "A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes" de Fiódor Dostoiévski, Editora 34.

Imagem: Reprodução

Quero prevenir o leitor sobre, mesmo em tão poucas páginas, a minha prolixidade; ainda por cima falando de mim, quando o assunto é Darel; de mim e de outros. Mas ia dizendo — estávamos em Catende —; eu era auxiliar de desenhista na Sudene, e sofrível, porque de outra formação. Tinha estudado em Roma, na Accademia di Belle Arti. E justamente em Roma conheci Darel pessoalmente, ele em gozo de prêmio, embora o trabalho já conhecesse e até, no meu desenho, grandemente influenciado pelo tracejar metódico de Arnaldo Pedroso d’Horta, houvesse uma parte de dramaticidade, de saturação nos negros, proveniente das ilustrações de Darel. Quando entrei no circuito das artes aqui no Recife, se é que entrei, ou em outras palavras, quando caí na vida, Darel já tinha ido embora, para o Rio. Eu invejava Ionaldo, Marius Lauritzen e outros da minha idade que o haviam conhecido. Uma irmã dele morava na Rua Velha, a mesma rua do nosso Atelier Coletivo. Via-a passar, querendo, por ela, tirar Darel, que não conhecia nem de fotografia. Do Recife fui para a Bahia, depois São Paulo e finalmente Roma. Nessa época, década de 50, desenho e gravura estavam em alta. Mercado quase não existia nem para os grandes, Goeldi, Lívio Abramo, Marcelo Grassmann. Talvez Aldemir já ganhasse alguma coisa; às vezes Arnaldo vendia algum. Não conhecia de perto Mário Gruber. Mas havia grande respeito por ele nas cúpulas, que em São Paulo significavam Bienal e Museu de Arte Moderna. Carybé, apesar de considerado grande desenhista, talvez vivesse mais de murais na Bahia, embora também vendesse óleos, desenhos e monotipias. Eu não estava a par da vida do pessoal do Rio de Janeiro, como Darel ou Augusto Rodrigues — este, caricaturista renomado, sempre com espaço nos jornais (como Hilde Weber n’ “O Estado de S. Paulo”) —. Quem me falou uma vez de Darel foi Marcelo Grassmann. Darel lhe perguntara o que é que há de novo em São Paulo, tendo-lhe Marcelo, por saber que eu era de Pernambuco, falado de mim, ao que Darel respondeu: “Cuidado com ele, que esses pernambucanos são muito furões.” Furão significava o que chega antes, como na linguagem de jornal “dar um furo” (dar a notícia primeiro), hoje significando também o que erra a bola ao chutar, que na época se dizia “cheirão”, o que “cheirava” a bola, na linguagem do futebol.



IMAGEM: Reprodução

Aqui volto aos meus alfarrábios. Em Roma, fins de 1957 ou início de 58, conheci também Ramiro Martins, primeiro do que Darel. A filha de Ramiro Martins era uma moça linda, graúda, e devia estar com uns dezesseis anos: jantamos numa cantina, eu, ele, a mulher e a filha (é possível que tenha ido alguém mais, a convite de Ramiro). Também conheci, na Espanha, eu já de volta pro Brasil, em Madri, 1958, João Cabral de Melo Neto, com quem Darel participou da feitura de um livro, entrando o poeta como tipógrafo. E abro alas para mais uma rodada de divagação e retrospecto.

Darel tinha pegado um emprego de paginador no Última Hora, jornal importante na época. Sem saber nada de paginação de jornal — confessa —. Mas foi ficando no trabalho (com que também já quebrei o galho, iniciando-me no O Estado de S. Paulo, quando voltei da Europa). Não sei se ele pegou esse trabalho depois de uma desavença com Augusto Rodrigues, que certo dia lhe arranjou o serviço de professor de litografia numa escola, garantindo-lhe cama e mesa. Darel aceitou e, estando no Vermelhinho — restaurante muito frequentado pelos comunistas e daí o nome, pelo que me contaram — uma noite com Augusto Rodrigues e outros amigos da roda de Augusto, e vendo que todos sentavam à mesa para jantar, e como Augusto lhe tinha prometido cama e mesa, sentou-se também à mesa para jantar, embora viesse, normalmente, fazendo as refeições em casa de Augusto. Então vira-se Augusto para Darel e diz: “Darel, se você quiser ser Van Gogh vá ser na puta que o pariu.”

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