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Circuit breaker

TEXTO Karina Buhr

25 de Março de 2020

Ilustração Karina Buhr

Dias de pandemia, meus pontos viram vírgulas, frases meio soltas, meio asmáticas, para colar depois, sem tanta vontade, mas com prazo todo pois tudo cancelado no mundo dos meses à frente, a pessoa autônoma, pior seria se não fosse, pois obrigação de horários e rushs e aí querendo que cancelem o evento, mas era ainda meio dia, antes do meio de março, não haveria cancelamento, cancelei então minha ida e, na sequência tudo caiu. Comemorei com um grito, mas pensei nos boletos, eles não ficam de quarentena, porém que mesquinhez, que grandessíssima mesquinhez numa tarde pandêmica.

Quebramos tudo no Carnaval, todos quebrados na quaresma, uns bem mais que outros, outros mais ainda.

A bolsa de valores para o jogo pro dono da bola, pra torcida desorganizada jamais, que é isso, nos respeitem, vocês não entendem nada de valores. Eles, os que compraram as bolas, digo, nasceram com elas, as bolas da vez, começam a perder por alguns minutos, dia seguinte se o movimento de descida aumenta, eles se dão mais uma chancezinha, duas, sofrer que não dá pra chamar sofrer, mas sofrem por um par de dias, as perdas nem coçam, nem sopro fraco nos bolsos sopram. 

São bolsos lotados.

Minhas vírgulas viram pontos, pesados como as bolsas dos donos das bolas.

Vou lhe revalorizar, ponto, escuro ponto final, que os três juntos das reticências não alcançam no tom, profundo ponto final, redondinho à perfeição, como as moedas das casas das moedas, não as de esmola, mas aquelas que os donos congelam para salvar suas peles claras, resolver o que exatamente não sabemos, já que tudo está solucionado e o que não tem remédio remediado está, também pro dono da bolsa, da bola, da ola,– da vez.

Noites endêmicas, cobertas quentes, dependendo da cidade mais que a outra, a outra com o sistema garantido, que para garantia dela teve foi gente se destrambelhando antes em outros lugares, praquela ciclovia perfeita quantos doentes sem leito?

Deito nos trópicos, idosos de ouro e bronze com textos podres pelas bocas desfazem de milhares de futuros mortos. Quantos mortos-vivos-podres-de-ricos pesando na balança analógica antiga de duas cuias seus tesouros pesados como encharcados, tocando um lado na base da mesa e corpos favelados leves flutuando na outra bandeja. Naquela obsessão principesca veem os milhares de corpos leves como formigas que seus sapatos lustrados como prata pisam forte, esmagam, os donos das ricas patas.

Isso faz tempo, não é de agora não, tempos nada bons que foram, mas memória é uma coisa que se perde, no lugar que chamamos nosso a engrenagem é de uma forma perfeita que o acontecimento já chega meio defasado no momento da nascença dele, no minuto seguinte já é dúvida, mesmo visto bem profundamente pelo olho escancarado, arreganhado, bem olhado, dez minutos depois, ela é morta e depois talvez menos da metade se lembre.

Na mesma proporção acontece o inverso com a mentira, ela é tão verdadeira, talvez pela extrema necessidade de quem a inventa, que no segundo seguinte ela já é um quase e logo ali depois vira um possivelmente, principalmente que aqui uma característica de mais ou menos da metade da equipe é que ela é justa demais, digo meio cega, digo benevolente na teoria pois culpada, na prática chama-se culpa mesmo e a culpa, aqui mais uma vez, é a dona da câimbra da coletividade. 

Cada qual no seu celeiro, cercado, quadra, jaula, bairro, uma maravilha, condomínio, residencial, conjunto habitacional, profusões de palavras muito bem-ditas, as ações, como as da bolsa, talvez bem alheias à realidade posto o objetivo da manipulação, vizinhança solidária solitária.

O “caba” que mandou a população optar por home office acho que é primo do que disse, numa campanha contra o estupro: “Mulheres, evitem transporte público e não estacionem o carro em ruas desertas”. Que carro, “homi”? Que home?

Pandemia é só agora, mas essa é uma informação estranha, já não estávamos todos doentes?

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