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Arco-íris com águia

TEXTO Karina Buhr

16 de Junho de 2020

Ilustração Karina Buhr

Assim atônita. Catatônica. Sem reação ou vontade. Mente paralisada. Meus olhos estão meio perdidos olhando pra um além bem pertinho, ali na parede da frente da sala estreita, entre metro e meio e dois metros de mim, medida também conhecida como distância segura. A televisão está no modo abajur, sem som, só colorida e se mexendo, dando notícia ruim o dia inteiro.

Olhando fundo com olho no além, que nem quando eu era pequena reparava que faziam minha mãe, minha avó e minhas tias enquanto bebiam café. Todo dia de manhã eu flagrava cada fuga dessa que elas davam e sempre perguntava “por que vocês ficam com o olho assim quando bebem café?”. Eu tinha uns 10 anos. Elas riam. Eu rio agora fazendo o mesmo, gole de café quente e o olho em outra dimensão, como se controlasse o tempo.

O cheiro do café incensou a casa inteira, agora sim, já posso pensar, ler desgraça no celular, ficar triste demais, passar, ficar paralisada de novo. 

Faz de conta que é domingo, domingo é esse olhar perdido em forma de dia da semana. É chamado de fim de semana, mas ele é o primeiro dia, só que ninguém liga pra essa informação.

Dia do sol não faz nenhum sentido, nessa época não tem sol em São Paulo. Como falei naquela música Falta de sorte, “acordei tarde no dia seguinte aí olhei prum poste pensando que era a lua”. 

As torcidas de futebol estão bonitas aos domingos na Paulista. Tem bem poucas mulheres lá, penso em onde estão na hora dos gritos de democracia e fico devaneando nas possibilidades. 

Dois mil e vinte é um ano difícil pro futebol feminino no Brasil. 

Minha mãe está falando agora que uma águia passou voando hoje de manhã na frente da varanda da casa dela. Uma águia “inómi”, disse meu sobrinho. 

No céu em cima da nação Xambá amanheceu um arco-íris “de todas as cores do mundo, vindas do Orum”, contou agorinha Guitinho da Xambá, que também é do Bongar.

Lembrando que o nome da avenida já deu de ser Presidente Kennedy, é Avenida Xambá! Se não entendeu, procure saber.

Enquanto isso, vou guardar essas duas notícias dos céus de Recife e Olinda pra me manter no dia de hoje: arco-íris com águia.

Dormi tarde ontem, acordei hoje de tarde. Cuscuz com café atônito de novo. Se eu não pegar Covid, a vacina com certeza está na farinha de milho flocão transgênica. Olho fundo na parede e queimo a língua, o olho infinito faz isso. Tento ler as notícias no celular, mas vou passando e passando o dedo, já tem uma bolinha no pulso de repetição de movimento e não paro em nada de notícia, tudo me interessa, nada me faz parar o dedo que escorrega cada vez mais rápido, infinito, não interessa aprofundar, é só aqui no raso mesmo e olhe lá, agradeça, graças a deus que tem esse café cheiroso e quente. 

Obrigada.

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

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