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Entrevista

"Eu posso usar meu trabalho para dar sentido ao caos"

Em seu filme 'O conto', disponível no Brasil no canal pago HBO, a diretora Jennifer Fox revive o abuso sexual que sofreu quando era adolescente

TEXTO MARIANE MORISAWA, DE ZURIQUE

08 de Outubro de 2018

A diretora Jennifer Fox

A diretora Jennifer Fox

Foto Divulgação

A discussão sobre assédio e abuso sexual, que está na ordem do dia desde o movimento Me Too, voltou a ferver nos últimos dias com o depoimento da dra. Christine Blasey Ford no Senado norte-americano. Ela relatou a tentativa de estupro que sofreu quando era adolescente por parte do hoje juiz Brett Kavanaugh, que no sábado (6/10) foi confirmado para ocupar uma vaga na Suprema Corte do país. Existem pelo menos outras duas mulheres que acusam Kavanaugh de má conduta.

A diretora Jennifer Fox sabe bem o que é isso. Em O conto, filme que está disponível no Brasil no canal pago HBO, ela revive o abuso sexual que sofreu quando era adolescente. Ao fazer um documentário em que entrevista vítimas de abuso sexual, Jennifer (Laura Dern) começa a reavaliar seu relacionamento com Bill (Jason Ritter), seu treinador de corrida, e a Sra. G (Elizabeth Debicki), sua instrutora de hipismo quando tinha 13 anos (fase em que a personagem é interpretada por Isabelle Nélisse). Vale ressaltar que durante as filmagens, a jovem atriz nunca contracenou com Ritter em cenas na cama ou participou de diálogos de cunho sexual.

Jennifer sempre achou que tinha namorado Bill, um adulto, e tem dificuldades de enfrentar a realidade. É uma abordagem realista, nuançada e corajosa do assunto. A diretora, que apresentou O conto no Festival de Zurique, estava atormentada pelo testemunho da dra. Ford quando conversou com a Continente sobre seu filme e abuso sexual.

CONTINENTE Como é trazer para a tela um aspecto tão doloroso da sua vida, algo que provavelmente você ainda está processando?
JENNIFER FOX Ainda estou processando, é verdade. Mas, quando você vai fazer uma história dessas, se compromete a fazer tudo, entrevistas inclusive. Não sou criança, então sabia o que significava. E era um músculo que eu já tinha desenvolvido, porque fiz uma série chamada Flying: Confessions of a free woman, da qual eu participava. Foi uma espécie de ensaio para aprender a falar de mim mesma publicamente. Eu deixei meu nome na personagem, não porque a história não pudesse ser contada com outro nome, mas porque temia que nesse tema-tabu de abuso sexual de crianças, pré-Me Too e Harvey Weinstein, as pessoas não acreditariam ou diriam que era impossível ter acontecido assim, que uma criança não amaria seu abusador. Tinha muito medo de ser censurada por causa das cenas sexuais. Achei que tinha de ser a primeira a dizer: "Esta é a minha história e, se você tiver questões, estou aqui para responder". E também faz parte do processo estar diante do público e ouvir seus testemunhos. A sessão aqui em Zurique foi emocionante, e olha que o povo suíço não é dos mais emotivos. Mas um homem se levantou e disse que foi estuprado aos 15 anos e que ainda estava processando. Ele me perguntou como eu lidava com o que tinha acontecido comigo. Para mim, é muito gratificante poder dizer para as pessoas: "Tudo bem sentir a dor. Mas saiba que, se eu posso tolerar a dor, você também vai poder".

CONTINENTE Mas houve quem duvidasse mesmo assim da sua história? Porque agora mesmo com as audiências no Senado sobre a indicação de Brett Kavanaugh à Suprema Corte, a dra. Christine Blasey Ford deu seu depoimento sobre o ataque sexual que sofreu na adolescência e tem gente duvidando.
JENNIFER FOX Eu tenho o grande privilégio de ser uma artista. Tenho sorte, passei minha vida inteira tentando compreender as coisas por meio do cinema e literalmente processando meus questionamentos humanos, seja com a minha história ou a de alguma outra pessoa. Eu posso usar meu trabalho para dar sentido ao caos. Fazer O conto foi um empreendimento criativo, mas também uma jornada de compreensão. Aqui, eu transformo minha história em algo para outras pessoas. Isso é muito poderoso, sinto como fosse meu papel no mundo. Foi minha escolha vir a público contar minha história. A dra. Ford não queria vir a público. Por isso o que está acontecendo agora é de cortar o coração. Temos uma mulher que só está fazendo isso, forçada, para nos salvar de uma seleção horrível para uma posição vitalícia na Suprema Corte. Eu fiquei tão, tão, tão enojada com o processo todo. Senti tanto orgulho dela, de ela ter feito isso, ter feito de maneira autêntica, não chorou, não fingiu. Mas ver um homem tentar calá-la, dizer que não é verdade... É a primeira vez que sinto vontade de fazer um motim nas ruas. Não sei o que vou fazer se ele for eleito para a Suprema Corte. Eu me sinto capaz de usar violência por causa de política nos Estados Unidos. Estou muito transtornada.

CONTINENTE E a reação do acusado, do homem, no caso, como aparece também no seu filme, é a resposta comum? Ser agressivo porque acha um absurdo que alguém tenha a pachorra de questionar o que vê como um direito seu?
JENNIFER FOX Não posso falar sobre os homens de todas as culturas, mas acho que é muito comum que o homem americano branco e privilegiado ter essa resposta: "Como você ousa questionar minha autoridade aqui?" E ele falando que não bebe é um absurdo. Porque a maior parte dos jovens americanos está bebendo enlouquecidamente no ensino médio e na universidade. Ele negar isso é como negar que bebe leite. Fui à África do Sul com o filme, e muitos homens vieram me dizer que tinham feito algo parecido e que sentiam muita vergonha, estavam horrorizados com seu próprio comportamento. E eles me perguntavam: "O que eu deveria fazer?". Fiquei emocionada de ver que o filme tinha feito com que tivessem essa atitude. O que Jason Ritter faz no papel de Bill no filme é mostrar que os abusadores são seres humanos complexos. Alguns são pessoas muito problemáticas. No meu caso, o Bill verdadeiro falava comigo como se eu fosse sua namorada. Que homem adulto leva uma menina de 13 anos num encontro público? E isso aconteceu.

CONTINENTE Mas aí muita gente diz: "Ah, mas eram os anos 1970", o que vira uma desculpa.
JENNIFER FOX É verdade que ninguém viu porque ninguém procurava abuso sexual infantil na época. Mas isso não explica por que acontecia. A causa naquela época é a mesma causa de hoje. É verdade que, naquela época, barreiras estavam sendo rompidas. Eu, com 13 anos, sabia que não queria casar ou ter filhos, não queria usar sutiã, não queria ser como minha mãe. Eu queria um modelo diferente. Eu estava correndo disso e acabei indo em direção ao abuso.

CONTINENTE Existe um grande debate sobre o que é abuso ou não.
JENNIFER FOX Sim, acho que um dos valores da minha história é mostrar como é um assunto complicado. Não é preto ou branco. É possível uma criança achar que ama um adulto, e ainda assim esse adulto ser um abusador. E isso é um tabu, porque se costuma pensar na pobre criança abusada e no adulto demoníaco. Não é tão simples assim. Uma criança vai se pendurar na perna de alguém se pensar que essa pessoa pode tirá-la de uma situação que ela acha ruim. Costumamos caracterizar crianças como seres puros e inocentes, e não é bem assim. Quando fui pesquisar a história e percebi que não sabia mais quem eu tinha sido quando garota, descobri que ela era inteligente, tinha pensamentos, valores, posições políticas. O que ela não tinha era experiência e conhecimento, então não conseguia ler direito o que os adultos estavam fazendo. Ela não conseguia enxergar a manipulação daquele homem, nem os limites sendo ultrapassados, não sabia que o sexo tinha consequências. Me lembro muito bem de pensar: "Vou dar isso para ele porque assim ele vai me amar, mesmo não querendo fazer". São nuances sobre as quais precisamos falar, para a sociedade tomar consciência e poder criar leis mais apropriadas.

CONTINENTE O confronto com "Bill", que é um nome fictício, aconteceu mesmo?
JENNIFER FOX Toda a parte no tempo presente aconteceu – até as conversas com a mãe são baseadas em transcrições de conversas com minha mãe. Mas as cenas, às vezes, foram mudadas e ficcionalizadas. Bill foi o único que não quis me encontrar, mas aceitou falar comigo no telefone. Sou da Pensilvânia, que parece ser a capital do abuso sexual do mundo, de Bill Cosby aos padres, incluindo a universidade Penn State. Ele tem consciência. Sempre dava desculpas, dizia que estava viajando – ele é muito famoso. Levou uns dois anos para ele me encontrar e, nesse meio tempo, eu fiquei com muita raiva. Foi a primeira vez que fiquei com raiva, e usei essa raiva para escrever a cena. Mas minha intenção sempre foi menos de “pegá-lo” do que de entender por quê. Queria saber por quê. Mas era impossível perguntar diretamente. Então tive de me perguntar por que um adulto se sente atraído por uma criança que se parece criança. E por que eu? E você ouve isso de sobreviventes o tempo todo: por quê?

CONTINENTE Uma das coisas que mais impressiona no filme é a sua negação do que tinha acontecido.
JENNIFER FOX A mim também! Imagine meu choque: descobrir que eu, que sou essa documentarista de pés no chão, acredito na verdade, me acho aberta e progressista, estive em negação por 35 anos. Foi um exercício de exploração da negação. O que aprendi é que a negação pode ser uma ferramenta positiva e poderosa de sobrevivência. No Ocidente, temos essa ideia de ter de encarar na hora. E a verdade é que cada um tem seu tempo. As pessoas só podem enfrentar certas coisas quando estiverem prontas. No meu caso, foi depois dos 45. Mas para algumas pessoas pode ser nunca. Se eu tivesse sido forçada a encarar aos 13 anos, como muitas crianças são, talvez tivesse ido parar num hospital psiquiátrico. Eu, criança, decidi que não ia contar aos adultos, que iam fazer daquilo uma confusão, e que ia lidar com aquilo sozinha. Basicamente, coloquei de lado o negativo e disse para mim que ia sobreviver. Uma das coisas do processo é ver onde está o trauma. Eu acredito que o trauma nunca é curado totalmente. É como uma ferida. Ela diminui, vira cicatriz, mas sempre está lá. Não apenas o trauma estará sempre em mim, como orienta minha vida. Quando falam comigo de sofrimento, eu sei o que significa, porque eu sofri. Seres humanos em geral sentem compaixão se passaram por algo parecido. Então este é o ponto positivo, mesmo sendo triste. Claro que não quero que ninguém passe por isso. Mas o evento me ensinou coisas boas.

MARIANE MORISAWA é uma jornalista apaixonada por cinema. Vive a duas quadras do Chinese Theater em Hollywood e cobre festivais. 

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