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Entremez

Ode à revista Continente

TEXTO Ronaldo Correia de Brito

05 de Agosto de 2019

Ilustração para a coluna 'Entremez' na 2ª edição da Continente, em janeiro de 2001. O desenho foi para o texto 'Sobre memória e bytes'

Ilustração para a coluna 'Entremez' na 2ª edição da Continente, em janeiro de 2001. O desenho foi para o texto 'Sobre memória e bytes'

Ilustração Lin/Arquivo Continente

Assis Lima e eu tínhamos escrito o roteiro para um curta-metragem na bitola Super-8: Cavaleiro Reisado. Isso fazia tempo, quase 30 anos. O roteiro poderia facilmente se transformar numa peça de teatro. Em parceria com Everardo Norões, levamos o projeto adiante. O espetáculo se chamou Auto das Portas do Céu, uma cantata cênica para atores cantores e pequena orquestra. A peça estreou no Teatro Hermilo Borba Filho, onde ficou quase seis meses em cartaz, viajou a São Paulo, a cidades da Mata Norte de Pernambuco, e foi representada no Pátio de São Pedro. Um sucesso.

O que essa história tem a ver com a Continente? Tudo. Durante os sete meses em que foi ensaiada a peça, Mario Helio, Alexandre Bandeira, Luiz Arrais e eu preparávamos uma revista editada pela Cepe, cuja matéria de capa seria o Auto das Portas do Céu. Deu chabu. A Continente – que na época carregava o epíteto de Multicultural – demorou a sair, ficando o número zero para dezembro. Nosso espetáculo entrou em cartaz no mês de agosto e o gancho caducou. Por consolo, nos ofereceram as páginas do suplemento do Diário Oficial, esse que mais tarde veio a ser o Pernambuco.

Ganhei uma coluna na revista com duas páginas – Entremez –, a primeira na minha carreira de escritor. Levei a sério o papel de cronista. Inexperiente, passava quase um mês rascunhando e escrevendo o texto. Um aprendizado. Quando me tornei colunista semanal da Terra Magazine, no portal Terra, decidi escrever mais rápido, textos leves, falando diretamente ao leitor. Um formato diferente da revista, onde eu buscava o ensaio, assuntos sérios, reflexões sobre filosofia e cultura. Minha ficção modificou-se bastante com o exercício do jornalismo, abriu-se a novos experimentos com a linguagem e temas abordados.

Eu adorava o ambiente da revista, passava toda semana para ver os amigos, conversar, saber notícias do mundo. Não vivi o agito das redações, pois não trabalhei em jornais. Minhas colaborações sempre aconteceram por encomenda. A Continente era a chance de realizar antigas fantasias jornalísticas. Apesar da vibração, nunca dormi na Cepe como o jovem Alexandre Bandeira, no furor de lançar o primeiro número. Torcia pelo êxito da edição, nas minhas conferências e viagens levava exemplares comigo para mostrar às pessoas, orgulhoso do nosso êxito.

Quando publiquei a crônica Cristo nasceu em Macugê, relatando a experiência de arte-educador no pequeno distrito de Aliança, me dei mal. Tentei chamar atenção sobre as mazelas do lugar, o sofrimento da população sufocada pela cana, cercada de fogo durante os cortes, coberta por uma chuva negra de fuligem, sem direito ao rio envenenado pelo vinhoto. Os moradores do lugar fizeram uma leitura errada do subtexto da crônica, me ameaçaram, fui denunciado ao Promata e demitido do emprego. O relato traumático está no livro Crônicas para ler na escola, editado pela Objetiva. Descobri o poder virulento das palavras.

Meus textos mais próximos do ensaio davam corpo à minha literatura. A crônica O sertão fica em Marte é o embrião do romance Galileia. Porém o mais enigmático ainda estava por acontecer. Poucos dias depois de publicar A saga de Claudiney Silva, um quase morto, fui demitido. Jamais soube o motivo real, pois ninguém me explicou. Depois de quase oito anos como colaborador, justo quando eu passara a escrever nos principais jornais e revistas do país, fui despejado. Nada a lamentar, nada a comemorar, diria um bom taoista:

Exatamente como você inspira e expira,
há um tempo para estar à frente
e um tempo para estar atrás;
um tempo para estar em movimento
e um tempo para estar em repouso;
um tempo para estar revigorado
e um tempo para estar extenuado;
um tempo para estar seguro
e um tempo para estar em perigo.

A saga transformou-se no conto Homem folheia álbum de retratos imorais, publicado no livro Retratos imorais. A história real de um paciente internado na enfermaria de um hospital público virou crônica e depois conto. Claudiney, nome fictício, recebeu um balaço na medula vertebral, ficou paraplégico, cheio de escaras infectadas e condenado a morrer com 22 anos. Sua única chance de vida seria submeter-se a uma desarticulação, ou seja, ter arrancado do seu corpo os dois membros inferiores. Uma cirurgia brutal. Antes desse procedimento, faria uma colostomia, para evitar mais infecção. Desnutrido, anêmico, acuado, Claudiney passava o dia folheando um pequeno álbum de retratos, que eu sempre evitava olhar com temor de sofrer compaixão. Um dia, não resisti e olhei o tal álbum, sucessão temporal de fotografias, parecendo um relato de vida, história em quadrinhos. Aí escrevi a crônica e carreguei nas cores. Foi a última dessa primeira fase, antes do meu retorno à revista, algum tempo depois.

Passei anos tentando transformar a crônica de Claudiney em conto. Não conseguia. Faltavam as imagens para desencadear o processo narrativo. Um dia, me aparece em casa a fotógrafa Bárbara Wagner para um ensaio do Pernambuco, encomendado por Schneider Carpegiani. Ela me trazia de presente um livro de fotografias que acabara de lançar, junto com uma exposição: Brasília Teimosa. Folheio o livro e reencontro o universo de Claudiney. O conto ficou pronto em poucos dias.

Existe o mundo da lembrança, mais próximo e fustigante, e o da memória, remoto, deflagrado através de centelhas. Eu havia esquecido esses pequenos acontecimentos, até me propor escrever sobre o passado de uma revista de cultura que se mantém há anos, procurando elevar seu padrão de qualidade. Penso nas centenas de outras histórias em torno desses 224 exemplares da Continente. Vale a pena contá-las? Juro que não sei responder. Sei apenas que contei uma das minhas histórias.

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