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Entremez

Manobras de arte

TEXTO Ronaldo Correia de Brito

02 de Abril de 2020

As manobras de arte de Mateus, neto do colunista

As manobras de arte de Mateus, neto do colunista

Imagem Arquivo pessoal do autor

A ilustração desta página é do meu neto Mateus, que tem apenas três anos e nove meses. Ele cria suas instalações com brinquedos, bonecos, legos, almofadas, cadeiras, cordas, carros, velocípedes, objetos decorativos, móveis, o que estiver ao alcance, nada escapando à sua imaginação. Em casa, esbarramos nessas “manobras de arte”, nome com que ele batizou os inventos. Sentimos escrúpulo em desmanchar as criações, acompanhamos o processo e o tempo gasto, sabemos o que custam. Mas a casa precisa funcionar, a cadeira tem de cumprir seu papel de cadeira e a maçaneta da porta abrir a porta.

Mateus não difere das crianças com a mesma idade. Quase todas são igualmente inteligentes e talentosas. O que falta à maioria é espaço, cuidado, amor, atenção, comida, respeito. Alguns gênios, a quem faltou tudo isso, puderam crescer e brilhar, tornar-se pessoas célebres, mas representam exceções. Quando penso na minha história, reconheço a importância de muitas pessoas, plantadas no caminho que percorri, como sombra e guia.

Hoje, conto os meus dias de reclusão e eles chegam a dezesseis. Não é muito tempo, o escritor se habitua a viver sozinho, na companhia de personagens ou na ausência deles. Creio ter ficado até dois meses em exílios voluntários. Mas havia a liberdade de sair a qualquer instante, o sentimento de que a solidão significava uma escolha. Não é o caso de agora. Não escolhi ficar dentro de casa. O zelo pela saúde das pessoas, por minha própria saúde, e medidas sanitárias me trouxeram a isso. Tenho me segurado bem, mas suspeito que os sintomas da loucura irão se manifestar, de muitas formas, e não me considero imune a ela. Qualquer dia sou capaz de transpor as grades do prédio e correr pela rua, como os doidos de minha cidade. 

Nada é tão doloroso como a separação dos netos, eles vivem pela nossa casa. Logo cedo, por volta das sete ou oito horas, chegam Ana e Sara, as filhas de minha filha. É como se mais luz irradiasse o apartamento tão iluminado. Ana, de quatro anos e cinco meses, traz livros novos ou brinquedos. Sara, de um ano e sete meses, é desconfiada, demora a ocupar a cena, mas logo se espalha com gritos e sorrisos. Sou eu que preparo as tapiocas, os ovos fritos, corto as frutas e sento para servir a refeição e contar histórias. O repertório é extenso, inesgotável. Passei a infância escutando narradores ambulantes e pessoas da família. Tudo no mundo rural era pretexto para se narrar. Ana possui o talento de ouvinte e de leitora. Sara segue o mesmo caminho. A avó assume para os netos o lugar de leitora de livros, mais trabalhoso e didático do que o meu.  

Não ouso afirmar como o escritor grego Nikos Kazantzákis que nada temo e nada espero. Não temo a morte, mas a doença me aterroriza. Gosto de sentir-me vivo e com saúde: “... Me dói despedir-me da vida, essa coisa tão de sempre, tão doce e tão conhecida”.* Uma das vontades que me retém por aqui é a de ver os netos crescerem, elaborarem a memória do avô. Não importa que as pessoas me esqueçam, desejo que os netos se lembrem de mim. Talvez porque conheci apenas uma avó. Quando nasci, os outros avôs já haviam partido e carreguei essa falta com grande pesar. Mesmo reconhecendo que eles continuavam em gestos e hábitos, nas casas e nos descendentes, isso não me bastava.

A pandemia do coronavírus obrigou muita gente a parar em casa, a ficar quieta e pensar na morte. Pensar na morte não é ruim, é um bom modo de afirmar a vida. Minha avó não temia morrer, talvez por isso viveu tanto. Ela, alguns tios e meu pai nos comunicaram que iam morrer, com a mesma serenidade que se fala vou beber um copo d’água. Morreram ao lado dos familiares e em casa. Apenas meu pai morreu num hospital, contra sua vontade. Os enfermos dessa pandemia são separados da família, morrem sozinhos, sem rituais nem despedidas. Não veem os que amam, nem são vistos por eles. Acho isso terrível. Levados anônimos em caminhões, são cremados como nos fornos de Auschwitz.

A bênção urbi et orbi, do Papa Francisco, para a praça vazia do Vaticano, foi muito deprimente. Quando leu a homilia com a voz claudicante, Francisco parecia destroçado. Não quero que ninguém ache o meu texto deprimente, com som de matracas, bacalhau magro, ervas amargas e panos roxos da quaresma. Nossa avó nos obrigava a ficar compungidos e tristes na Semana Santa. Ninguém podia se pentear, assoviar, cantar e tomar banho nos dias da Paixão. Nós fazíamos tudo escondido e o sabor de alegria era redobrado.

Precisamos cometer algumas transgressões durante o retiro de quaresma, desculpem, de coronavírus. Quase todas as noites, por volta das 20 horas, saímos à janela e batemos panelas. Gosto de comunhão e resistência.

Sempre converso com as netas e o neto pelo Face Time e WhatsApp.  A irmã de Mateus, Cecília, com apenas nove meses, já fica de pé sem ajuda. Por esses dias caminha.

As crianças parecem perplexas com o isolamento. Estou preparando um mapa de tesouros, com vinte caixas escondidas em vários pontos da casa. Vai ser uma festa quando eles chegarem de volta e revirarem tudo. Penso na bagunça, sinto falta dela, quase nunca me queixo. Não faz mal que as crianças atrapalhem minhas leituras, a escrita, a arrumação do escritório. Já li bastante e escrevi além da conta. Começo a me importar menos com a ordem da casa. Será um sintoma de velhice? Não sei. Divirto-me com as manobras de arte, os shows e teatros. Não fui uma criança diferente. Minha avó franqueava a casa para eu fazer as minhas manobras. Só não podíamos tocar na mesa do Coração de Jesus, na toalha, castiçais, jarros e flores da renovação. O resto era nosso.

No Elogio da sombra, Borges escreveu que a velhice pode ser o nosso tempo de ventura. Que o animal morreu ou quase morreu e restam o homem e a alma. E que em breve saberemos quem somos.

Sim, saberemos.

*Jorge Luis Borges

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

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