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Crítica

Final de GoT: libelo pela democracia

Último episódio da série 'Game of Thrones', fenômeno da TV mundial, surpreendeu os espectadores com desfecho inesperado

TEXTO Débora Nascimento

20 de Maio de 2019

Arya, Bran e Sansa na cena da reunião do conselho, em que foi escolhido o novo rei

Arya, Bran e Sansa na cena da reunião do conselho, em que foi escolhido o novo rei

Foto Divulgação

The queen is dead. A frase do antimonarquista Morrissey, que intitulou o álbum dos Smiths de 1986, poderia resumir o final de Game of Thrones. A Rainha está morta. Ou melhor, as rainhas estão mortas. Nos dois últimos episódios, Cersei e Daenerys, as soberanas que protagonizaram a história, foram descartadas do jogo dos tronos. Cada uma delas abraçada a seu amante. A primeira sucumbiu, junto a Jaime Lannister, sob os escombros do castelo de King's Landing. A segunda foi assassinada, no que restou do mesmo castelo, com uma punhalada desferida por Jon Snow, em meio a um beijo, como numa tragédia grega.

Jon, o guerreiro bastardo, que, na última temporada da série, revelou ser o verdadeiro herdeiro do trono, matou a sua amada no intuito de deter futuras guerras e salvar suas irmãs, Arya e Sansa, pois elas não se curvariam à nova monarca impiedosa. O assassinato também tinha um potencial suicida, pois certamente traria amargas consequências.

Ao assumir o trono dos Sete Reinos, Daenerys ordenara a execução de soldados rendidos, em imagem que se assemelha às mortes promovidas pelo Estado Islâmico, e deixou claro que apenas admitiria ao seu lado quem concordasse com suas ações. Ao tomar King's Landing, proferiu discurso de tom raivoso, cuja plateia não era a população, massacrada na última batalha, mas o exército que veio arregimentando desde o começo da série. Ao final da fala, convocou os soldados a continuar a guerra pela libertação de povos de outras regiões.

O autor George R.R. Martin resolveu colocar uma dúvida na cabeça do espectador: que libertação é essa? Libertar para dominar? Na história da vida real, o mundo sempre esteve repleto de déspotas em busca de seguidores. E é justamente o poder da história, das narrativas, que Tyrion evoca, como réu, na defesa de sua vida e de Westeros, quando se apresentou ao conselho formado pelos principais personagens sobreviventes da batalha final (dentre eles, Arya, Bran, Brienne, Sir Davos, Broon e Sansa, que virou a Rainha do Norte, independente). Diante dessa junta, Tyrion, assim como Sherazade d'As Mil e uma noites, usou o poder da palavra para salvar a sua pele e os Sete Reinos.

Em vez de contar histórias, ele, algemado (porque havia traído Daenerys, ao libertar o irmão Jaime Lannister), tece argumentos. Para Tyrion, as guerras não vão parar nunca enquanto continuar o círculo da monarquia e da tirania. Antes aliado de Daenerys, por considerá-la mais justa do que sua irmã Cersei, constatou, na última batalha, que a nova rainha seria mais uma governante autoritária. Logo após o discurso de posse dela, ele abdicou de sua posição de Mão da Rainha e jogou seu distintivo no chão, como um sinal de desprezo.

Com a morte de Daenerys e a vaga do reinado em aberto, Tyrion sugere ao conselho o nome do novo governante para ser votado pelos membros do grupo. De acordo com ele, Bran Stark teria o perfil ideal. O filho de Ned e Catelyn Stark seria a pessoa a assumir o cargo, porque detinha o conhecimento do passado, do presente e do futuro. “Ele é a nossa memória. O detentor de todas as nossas histórias: as guerras, casamentos, nascimentos, massacres, fomes, nossos triunfos e derrotas”.

Com mais essa reviravolta surpreendente na série, George R.R. Martin subverte a lógica de sua narrativa. Em vez de os Sete Reinos ficarem à própria sorte, submetidos a qualquer tipo de governante imposto pela hereditariedade ou pela força de um exército, Tyrion indica um pacifista e de uma família que não está na linha sucessória do trono. É perguntado ao caçula dos Starks se ele aceitaria o cargo. Ele responde que chegou até ali por isso — é bom lembrar que, no quarto episódio da última temporada, o Rei da Noite havia avançado sobre o exército de Daenerys com o propósito de matar Bran.

A quebra simbólica da monarquia no último episódio, intitulado The Iron Throne, decepcionou muitos fãs da série, pois durante todos esses anos, os espectadores estiveram acostumados à disputa sangrenta pela coroa e convencidos de que ela deveria ser assim. Acompanharam toda a jornada de Daenerys, que, ladeada pelos três dragões, havia arrebanhado, por onde passou, um exército para a tão aguardada batalha final em que derrotaria Cersei Lannister.

Daenerys foi uma das mulheres que protagonizaram, de forma inédita na TV, uma série de aventura e fantasia envolvendo batalhas, como está abordado no texto da coluna Mirante deste mês. É uma pena que, quando uma mulher assume finalmente um papel como esse, torna-se, de repente, uma vilã que precisa ser descartada e a humanidade acabe sendo salva por homens. No caso, Jon Snow, Tyrion Lannister e Bran Stark.

Como destacou o jornalista Diogo Monteiro, em seu texto publicado no dia 16 de maio, no site da Continente, a personagem, no livro, demonstrava ser, desde o começo, ambiciosa e perigosamente empenhada em seu propósito de ser rainha. A consciência social e o espírito libertador foram características acrescentadas na série. Por isso, faz sentido ela ter se tornado uma tirana. No entanto, essa transformação radical e brusca acelerou demais o arco da personagem. De um episódio para o outro, ela passou de heroína a vilã. Na vida real, a mudança de pseudos libertadores em déspotas costuma demorar um pouquinho mais.

Diante de Daenerys morta, Drogon, o único dos três dragões sobreviventes, encarou Jon Snow com um olhar furioso. E lançou suas chamas. Mas não sobre o assassino de sua mãe, talvez por instintivamente saber que Jon também era um Targaryen e, logo, não seria queimado. Drogon incinera o trono de ferro – o objeto de desejo da disputa que motivou todas as batalhas, provocou todas as mortes. Símbolo de poder, o trono agora representava o mal. Daenerys é levada por seu dragão. O animal vai embora e desaparece nas nuvens, para permanecer apenas na mitologia.

No primeiro episódio da série, Bran, ao brincar no castelo de King's Landing, descobriu o incesto de Cersei e Jaime Lannister. Mas foi empurrado da janela, porque a revelação do segredo abalaria o trono (quantos segredos e estratégias a Família Real da Inglaterra não vem engendrando para manter-se no poder?). Sete temporadas depois, Bran termina como Rei. Paralítico desde a queda, não precisaria do trono de ferro, por conta da cadeira de rodas. A história que, do começo ao fim, deu lugar de destaque a um anão, Tyrion Lannister, interpretado pelo premiado ator Peter Dinklage, no seu final, designou como governante um paraplégico – mais um ponto para George R.R. Martin.

No último episódio, aparece também o conceito de Justiça: Jon Snow não foi morto na regra do “olho por olho, dente por dente”, mas recebeu uma pena por ter assassinado a Rainha Daenerys. Em um dos seus poucos, mas determinantes gestos de rebeldia, Jon, agora um regicida como Jaime Lannister, não cumpre sua sentença, ser confinado a Castle Black. Parte do lugar, liderando os selvagens – grupo onde ele conheceu Ygritte, seu primeiro amor (na vida real, o ator Kit Harington se casou com a atriz Rose Leslie, que interpretou o papel). Durante o trajeto, o lugar está cinza, devastado pela guerra. Mas, no horizonte, é possível avistar, por entre as árvores, uma luz dourada. E assim termina Game of Thrones.

Mesmo com diálogos clichês, pontos frágeis no roteiro e cenas que fracassaram em seu potencial de se tornarem memoráveis, o encerramento de Game of Thrones pode ser encarado como um libelo pela democracia – durante a reunião do conselho, Sam Tarly foi satirizado pelos membros, mas deu uma ideia visionária: e se todos puderem escolher o seu governante? George R.R. Martin não somente quebrou a lógica da monarquia e das guerras pela conquista e manutenção do poder, como apresentou novos conceitos para a época narrada: república, parlamentarismo e a importância da história – é bem representativa disso a cena em que Brienne de Tarth não deixa Jaime Lannister ficar registrado no livro apenas como regicida.

Nesse enredo que abordou, com um certo nível de complexidade (para a TV), temas tão diversos (ambição, família, desejo, poder, amor, irmandade, traição, lealdade, crueldade, castigo, aprendizado e amadurecimento), Martin baseou sua saga best seller e blockbuster na Guerra das Rosas, uma disputa pelo trono da Inglaterra, ocorrida no crepúsculo da Idade Média. No desfecho da ficção, o autor destruiu o reinado, que levaria ao imperialismo, como aconteceu de fato na vida real, com o Império Britânico tornando colônias suas vários países antes independentes. Daenerys, em seu discurso de posse, proferiu que queria libertar outros povos, mas, no fundo, ela ansiava conquistar novos territórios e ampliar o seu poder. Simbolicamente, Martin acabou com o mal pela raiz. Na sexta temporada, a Igreja, que pretendia dominar a monarquia, já havia sido destruída. Na última temporada, foi a vez da monarquia. The queen is dead.

Foi um final ideal? Não. O último episódio repercutiu muito mal entre os fãs da série — as redes sociais e a internet são um termômetro disso. Mais de um milhão de pessoas assinaram uma petição pedindo que a última temporada seja refeita. “David Benioff e D.B. Weiss (os criadores da série) provaram ser roteiristas incompetentes quando não têm material fonte (ou seja, os livros) para se apoiar”, diz um trecho do abaixo-assinado.

Sim, essa temporada teve seus problemas (e o episódio escuro e o copo do Starbucks foram os menores dos problemas). Sim, todos nós queríamos ver Daenerys ou Jon Snow ou ambos assumindo o posto de governantes — mas não é assim também na vida real, principalmente em certos países... Alguns fãs quiseram até que Cersei (adorada por parte dos espectadores da série) e Jamie tivessem conseguido fugir de King's Landing num barco... Mas, lá no longínquo 2011, também não havia sido um começo ideal de série. Quem superou o susto da morte de Ned Stark?

 

 

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