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Cobertura

Agnes Nunes, uma revelação que vem da Paraíba

O que diz a jovem cantora e compositora que, aos 17 anos, é fenômeno na internet e estreou no palco ao lado de Chico César, durante o ‘Festival de Arte Negra’ de BH

TEXTO LENNE FERREIRA, DE BELO HORIZONTE*

21 de Novembro de 2019

A menina, que conquistou o país com seu canto, tem mais de dois milhões de seguidores

A menina, que conquistou o país com seu canto, tem mais de dois milhões de seguidores

Foto Nádia Nicolau/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Sob um guarda-chuva largo e preto, a cantora e compositora Agnes Nunes – um desses fenômenos jovens da internet – andava abraçada com a mãe, Cida Nunes, pela Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte (MG). Depois de um suco de laranja e muita salada, as duas seguiram juntas para o hotel onde estavam hospedadas à convite do Festival de Arte Negra (FAN), cuja décima edição vai até domingo (24/11), com realização da Fundação Municipal de Cultura da capital mineira. 

Era a primeira vez de Agnes e Cida em Minas Gerais e elas aproveitaram para conhecer um pouco a região antes da estreia da jovem artista paraibana ao lado do seu conterrâneo Chico César, que arrebatou o público com o show O amor é um ato revolucionário, no teatro do Sesc Palladium. Cida acompanha Agnes sempre que possível. Ser mãe de um ícone da atual geração de likes tem sido uma tarefa desafiadora, mas que a professora universitária, formada em Assistência Social, tenta auxiliar sem deixar de lado os compromissos. Agnes, aliás, faz questão de dizer: “Não quero que a minha mãe deixe a própria vida por causa da minha”. 

A menina, que conquistou o país com seu canto, tem mais de dois milhões de seguidores e caiu nas graças de Chico César, um dos mais importantes nomes da Música Popular Brasileira. Ele a conheceu pelo perfil de Baco Exu do Blues no Instagram. Agnes agora é uma das vozes que participaram do novo trabalho de Chico, já programado para estrear no Recife: no dia 25 de janeiro, o show de lançamento do álbum desembarca na capital pernambucana, embora ainda sem local definido. “Quando a conheci, achei interessantíssimo ver uma jovem cantora que, para mim, lembrava uma Billie Holiday. Quando entrei no perfil, vi que era paraibana de bem perto da minha cidade natal, que cantava com piano e que ela mesma se resolvia porque canta, toca e filma. Escrevi para ela e soube que a mãe colocava minhas músicas para ela ouvir na infância”, disse à Continente Chico César.

Depois de algumas conversas, Agnes foi escalada para cantar De peito aberto, uma das faixas do disco interpretada por ela ao vivo, pela primeira vez, em Minas Gerais. “Pensei que essa canção precisava ser apresentada junto com uma nova voz dessa geração de mulheres negras. Foi incrível porque a música ganhou muita personalidade na voz dela”, avaliou o cantor no seu camarim, após um show contagiante e, ao mesmo tempo, político, que reflete sobre a atual conjuntura brasileira.

Chico César e Agnes Nunes no Festival de Arte Negra de BH
Agnes Nunes e Chico César no Festival de Arte Negra (FAN), em Belo Horizonte. Foto: Nádia Nicolau/Divulgação

Filha de uma terra que também revelou nomes como Jackson do Pandeiro, Elba e Zé Ramalho, Agnes representa uma geração negra mais consciente de seus direitos e de sua identidade. Seus vídeos alcançam milhões de seguidores e revelam uma artista potente, que acabou de concluir o ensino médio e dialoga com gente tão jovem quanto ela sobre temas como racismo, do qual foi vítima e ainda hoje é. “Desde que ela começou a ingressar nas redes sociais e divulgar o trabalho dela, eu sempre falei o que falo todos os dias: ter os pés no chão e força para enfrentar os processos que vêm por causa da fama, as coisas boas e ruins também, como os comentários racistas que surgem mandando ela amarrar o cabelo ou diminuir o sotaque. Como mãe, tento ajudá-la a enfrentar essas situações de racismo e, ao mesmo tempo, empoderá-la para que ela não fique devastada psicologicamente.”

No palco, com seu vestido de lantejoula prateada, a menina revelou uma maturidade artística impressionante. Além da canção que gravou com Chico, Agnes também interpretou clássicos do cantor, como Mama África e À primeira vista, encerrando o show com ele. Do canto do palco, Cida assistia a tudo enquanto tentava registrar o show com a câmera do celular da filha. Ao falar com a nossa reportagem, após o show, não conseguiu segurar a emoção: “Sendo mãe, me sinto muito feliz em tê-la como a minha menina, a minha cantora, a irmã amável e sempre me emociono muito por tanta sensibilidade e por ela já levantar a bandeira da luta de direitos e questões libertárias do povo preto. Eu só tenho a agradecer a todos os deuses e deusas por ela ser desse jeito. Que o mundo a receba da melhor forma”.

Em conversa exclusiva para a Continente, durante nossa cobertura, Agnes falou um pouco sobre sua rotina, planos para o futuro, racismo e a referência feminina que a influenciou a se tornar a queridinha das redes sociais. De BH, ela seguiu para a Angola, na África. Leia a seguir.

CONTINENTE A internet tem ajudado a projetar o trabalho de muitos artistas negros nacionalmente. Você acha que um cantora paraibana do Nordeste brasileiro conseguiria tanta visibilidade assim no passado?
AGNES NUNES Se fosse antigamente, seria muito difícil por conta de todo o processo de racismo e a falta de acesso. Não era algo fácil gravar um vídeo, várias pessoas assistirem e saber quem você é. Tudo era mais complicado porque só tinha TV, rádio e jornal. A internet tem me ajudado muito. Talvez, se não fosse ela, eu não tava nem aqui. Talvez até tivesse, mas demoraria mais para chegar até onde eu tô chegando. 

CONTINENTE Além de cantora, você também é compositora. Como é teu processo de trabalho? 
AGNES NUNES Toda hora eu tô fazendo música. Minha arte não é limitada, não. Faço música sem pretensão, às vezes querendo lançar, às vezes não. Tem coisa que eu componho e guardo para mim porque era só um sentimento que eu precisava colocar para fora. O que eu acho que é legal e interessante de as pessoas ouvirem, eu publico para todo mundo sofrer do coração, ou ficar muito feliz, ou só querer sair cantando por aí. 

CONTINENTE Qual foi o referencial que te levou para o universo da música?
AGNES NUNES Quando eu era pequena, minha mãe sempre ouvia muita coisa legal como Elis Regina, Chico César e Chico Buarque. Eu sempre falo que a música é o sangue que corre nas minha veias e meu coração é a arte. A música me escolheu e eu escolhi ela de volta, porque não, né? Essa junção deu mais que bom. Sou muita agradecida, principalmente, à minha mãe, porque ela já cantou na noite para ajudar na minha criação. A minha mãe foi o princípio de tudo. 

CONTINENTE Como foi para você tocar ao lado de Chico César, um ícone nacional da música brasileira?
AGNES NUNES A arte um do outro se encontrou e se somou. Chico César é uma lenda viva e eu creio que vai ser incrível todas as vezes em que a gente estiver juntos, assim como foi incrível o nosso primeiro encontro, lá no Rio de Janeiro, quando fui gravar a música com ele. 

CONTINENTE Depois de um ano com tantas emoções e projeção, como você está pensando 2020?
AGNES NUNES Em 2020, tem muito trabalho vindo por aí e muita parceria legal e, principalmente, muito trabalho solo. Tenho muita música guardada. Vou tentar selecionar as melhores para colocar e botar dentro de um disco e continuar fazendo sempre mais porque minha arte não tem limite, né?! Eu só faço e só vou. 

CONTINENTE Você costuma postar muitos vídeos interpretados cantores nordestinos e nacionais também. O que tu ouve na tua playlist?
AGNES NUNES Eu amo interpretar músicas de outros cantores e compositores. Tenho ouvido muito R&B, blues, jazz e gosto muito de rap, que foi muito importante na minha formação. Eu amo rap, escuto muito. Gosto muito de cantores novos da minha geração, como Xamã, Djonga, Felipe Ret, mas também muito Nina Simone e outras cantoras negras que me inspiram.

CONTINENTE Com tanta repercussão e uma agenda tão corrida, você ainda consegue gerenciar suas redes?
AGNES NUNES Hoje, eu tenho ajuda da minha gravadora (Baguá Records), que é do Rio de Janeiro, para gerenciar as minhas redes. É uma equipe maravilhosa que me ajuda muito com muito carinho e com muito amor. Mas eu gosto muito de tá perto, continuo postando meus vídeos. A rotina é a mesma, mas eles me auxiliam mais para responder coisas sobre convites de trabalho.

CONTINENTE Sua mãe passou o show todo com celular na mão, colada no palco vibrando com tua apresentação. Ela sempre te acompanha?
AGNES NUNES Minha mãe é professora de uma universidade e não acho legal que ela deixe de viver a vida dela. A gente vai conciliando, onde cabe ela viajar, ela viaja. Quando não, viajo com as minhas produtoras ou empresários. Somos uma família e temos uma relação de muita confiança, que é o que faz a minha mãe ficar mais tranquila quando não consegue me acompanhar. 

CONTINENTE O racismo age muito perversamente na vida de meninas negras e, com você, não deve ter sido diferente. Como você lidou e lida com isso?
AGNES NUNES Eu morava numa cidade pequena chamada Souza e eu ia para escola sozinha. Minha fia, eu sofri tanto, era horrível. Racismo e bullying devasta qualquer um. Aprendi a ser muito forte desde pequena. Eu passava na calçada e escutava gente xingar meu cabelo, perguntavam o que eu escondia dentro, algumas pessoas me chamavam de “cabelo de abacaxi” quando eu amarrava e ficava o volume pra cima, várias coisas horrorosas. Até hoje, eu escuto e leio na internet também e a gente tem que aprender a lidar. E, por mais que na hora a gente tenha que ser forte, é chato e triste também. 

CONTINENTE Estamos na semana da Consciência Negra, uma data super importante para a luta pela igualdade racial. Qual mensagem você quer mandar para os jovens que acompanham seu trabalho?
AGNES NUNES Eu sempre digo para meus seguidores que eles têm o direito de ser o que eles quiserem. Temos que viver nossa liberdade. Solta o seu cabelo, que nossas raízes são maravilhosas, usa do jeito que quiser, seus dentes são lindos. Você é perfeito e perfeita. E, se precisar de ajuda nesse processo, pode contar comigo. 

LENNE FERREIRA, jornalista, feminista negra e produtora cultural.

*A jornalista viajou a convite do festival.

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