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Uma química que ainda funciona

Coquetel Molotov comemora uma década com incrementos, apesar da crise que afeta a área cultural

TEXTO Débora Nascimento

01 de Outubro de 2013

Ana Garcia e Jarmeson de Lima estão à frente do evento anual

Ana Garcia e Jarmeson de Lima estão à frente do evento anual

Foto Flora Pimentel/Divulgação

Em meados de setembro, o assunto relativo à música que mais circulou na imprensa, nas TVs e nas redes sociais foi o Rock in Rio. Abordado através de notícias, imagens, críticas, postagens, era difícil imaginar alguém no Brasil que não soubesse da existência do evento. Mas não é todo festival de música que tem esse poder, que desfruta dessa fama. No país, há dezenas de outras realizações voltadas para a área que não dispõem de 1% do apelo do Rock in Rio, mas, mesmo assim, são peças importantes para a nutrição da cadeia produtiva da música brasileira, principalmente a chamada “independente”, desatrelada de grandes produtoras e gravadoras.

Parte desse desconhecimento do grande público se deve ao fato de que esses festivais ainda são jovens, como é o caso do No Ar Coquetel Molotov, que, neste 2013, completa 10 anos. Mas principalmente porque esses eventos trazem em sua programação exatamente o investimento em artistas novatos, ainda desconhecidos ou cujos estilos não são tão massificados. O Coquetel Molotov, quando surgiu, passou a abarcar um gênero que não tinha muito espaço na mídia, o chamado indie rock ou – para ser mais justo com a realidade – o polêmico termo indie rock, que quer dizer independente, mas que, ao mesmo tempo, abrange uma variedade de bandas de subgêneros variados (noise rock, garage rock, new prog...), como Pixies, Sonic Youth, Pavement e Teenage Fanclub – esta que foi a atração principal da primeira edição, causando um impacto positivo e estabelecendo também um alto padrão para a iniciativa.

Ana Garcia, a “mãe do festival”, atesta o golpe de sorte que tiveram com a escalação da banda escocesa. Naquele ano de 2004, ela, junto ao coletivo Coquetel Molotov, conseguiu fazer as primeiras captações para o futuro evento, que ainda não tinha um modelo definitivo. A produtora, que é filha do maestro Rafael Garcia e da pianista Ana Lúcia Altino, diretora-geral do festival de música erudita Virtuosi, já estava acostumada a ver os pais trabalhando em produção de evento, quando decidiu também promover um. “Quando foi aprovado na Lei Rouanet, achamos que tínhamos o mundo nas nossas mãos e não tínhamos ideia de como era difícil captar. Coincidiu que, na mesma época do Coquetel Molotov, ia rolar o Curitiba Rock Festival e conseguimos vender o Teenage Fanclub para eles e três noites no Sesc Pompeia”, lembra.

Hoje, o Teenage Fanclub é uma das muitas atrações que se destacam na recente história do festival; e os produtores do evento já contam com diversos momentos memoráveis. “A edição de 2010 foi bem especial. Fizemos uma turnê incrível com o Dinosaur Jr. e eu nunca irei esquecer isso, como a banda é tão talentosa e tão humilde. Foi um prazer trabalhar com eles”, diz Ana Garcia. “Gosto muito da edição de 2006, quando o festival começou realmente a engrenar na cidade. Tivemos o CocoRosie, Tortoise, Móveis Coloniais de Acaju, em sua primeira vez no Recife, e ainda a vinda de gente como a Trama Virtual, que fez a melhor cobertura do evento já vista. Foram dois programas com reportagens sobre o festival que, apesar de não ter lotado, estava com um ótimo astral e ajudou a superar o trauma do ano anterior, quando tudo parecia que ia dar errado”, recorda o produtor Jarmeson de Lima.

Todo ano, os realizadores enfrentam o processo da montagem da grade, que nem sempre atende às ideias iniciais de trazer um ou outro nome. Os critérios são sempre os mesmos, mas o resultado pode ser imprevisível. “Sempre digo que é uma equação, em que a gente considera: gosto pessoal, ineditismo na cidade, qualidade de execução ao vivo, custos de produção e cachê. Quando tudo isso se acerta, é ótimo. Já em outras vezes, é difícil abrir mão de uma banda porque o cachê é caro ou porque tocou recentemente no Recife”, conta Jarmeson. Uma das atrações mais caras do evento foi o grupo norte-americano Beirut, cujo cachê ficou em R$ 90 mil, fora os custos com a estadia dos integrantes no Rio de Janeiro durante uma semana. Já a aclamada banda australiana Tame Impala, cujo pagamento ficaria bem abaixo daquele, foi convidada para tocar agora nesta edição de aniversário, mas não aceitou o convite, alegando a apertada agenda de shows na América Latina. Nesses 10 anos, já ficaram de fora nomes como Wilco, Joanna Newsom, Sonic Youth, Mogwai, Caetano Veloso...

Além dos artistas que são contatados, há também o caminho inverso, que é a procura dos músicos para tocar no festival. Por ano, recebem material de todas as formas (por correio, e-mails, Facebook) e de vários lugares do mundo. “Geralmente, viajamos e entramos em contato com outros produtores e vemos muitos shows, meio que já sabemos o que poderíamos ou não chamar. Mas, ainda assim, mesmo sem abrir ‘inscrições’ para as bandas, o público costuma fazer campanhas pra pedir atrações alguns meses antes do evento chegar”, conta Jarmeson.

Apesar de se defrontarem com vários entraves em cada edição, os produtores afirmam que a questão financeira é sempre o maior calo para a realização do evento. “Está cada vez mais difícil captar. Tivemos um boom de 2008 a 2011 e, agora, os festivais estão sofrendo uma queda gigante. As empresas estão cada vez com menos lucro, os editais acabando... Foi uma grata surpresa conseguir o incentivo do Funcultura este ano e é uma pena que a maioria dos festivais pelo Brasil não possam ter esse tipo de apoio no seu estado”, avalia Ana. “Com essa crise, os festivais estão acabando. Teve uma redução enorme de dois anos pra cá e é uma pena que isso esteja acontecendo.”

Segundo a produtora, embora o Coquetel Molotov tenha se firmado nessa primeira década, a captação de recursos continua sendo um processo difícil. “O setor empresarial ainda não consegue apoiar com afinco esse e outros projetos culturais. Seja por conta do desconhecimento das leis de incentivo ou por falta de verba para investir em eventos musicais”, avalia.

Apesar disso, o festival cresceu. Começou com uma noite e quatro shows, hoje possui diversas prévias, mostra de cinema, debates e duas noites com oito shows por dia. Ana Garcia já pensa na década seguinte: “Vamos sair do Teatro da UFPE, que deve passar por uma grande reforma nos próximos dois anos. Isso vai ser um incentivo para tomarmos o passo que queremos e fazermos algo maior com o festival. Vamos trabalhar nisso”. 

DÉBORA NASCIMENTO, repórter especial da revista Continente.

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