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Diásporas: Os enraizados e os que partiram

Reencontro de pai e filha em 'Te sigo' sintetiza a realidade para muitos cubanos na deflagração da Revolução, em que famílias foram separadas

TEXTO Samarone Lima

01 de Junho de 2015

'Te sigo' trata do reencontro de pai e filha, tendo atores cubanos no elenco

'Te sigo' trata do reencontro de pai e filha, tendo atores cubanos no elenco

Foto Daniel Rozowykwiat/Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem especial | ed. 174 | jun 2015]

"Minha mulher, Lucía, começou a chorar com a notícia.
Lucía nasceu em dezembro de 1959. Seu pai emigrou para os EUA quando ela era jovem demais para guardar uma lembrança dele. E Lucía não voltou a vê-lo.”

Assim, num parágrafo curto, que circulou pelo mundo, o jornalista e escritor cubano Leonardo Padura descreveu o dia 17 de dezembro de 2014, quando, pela primeira vez, em 53 anos de hostilidades, os governos dos EUA e de Cuba retomaram relações diplomáticas.

O drama de Lucía é semelhante ao de milhões de cubanos que vivem uma diáspora perpétua, que atravessa gerações. Há aproximadamente dois milhões de cubanos só nos Estados Unidos.

Lucía não lembra seu pai porque ele nunca retornou a Cuba, naqueles anos 1960 e 1970, de plena Guerra Fria. Quando ela conseguiu viajar aos Estados Unidos, somente nos anos 1990, ele tinha morrido.

“Lucía chorou hoje por seu pai perdido, por ela e seu amor encerrado em si mesmo, por tantas histórias tristes que vivemos. Mas chorou também pela ilusão de que, a partir de hoje, essas histórias nunca voltem a se repetir.”

Talvez seja por isso que o filme Te sigo, recentemente gravado em Pernambuco, com direção de Cecília Araújo, tenha se tornado uma espécie de sismógrafo do que vem acontecendo em Cuba. O cinema, ao longo de décadas, vai transformando em arte o que uma sociedade vive, sofre, projeta e sonha.

No longa, inspirado no último capítulo de Memórias do desenvolvimento, Sérgio, o personagem principal, já está velho, decadente, e veio terminar seus dias no Brasil. Deixou em Cuba uma mulher grávida (Caridad), que, a exemplo de Lucía, nasceu e cresceu sem a presença paterna.

O encontro de pai e filha, no começo, é difícil, quase hostil. O pai reluta em aceitá-la, até que ela diz o motivo de ter saído de tão longe para uma busca da própria alma: “Vim porque necessitava de algo meu, algo que de todo modo considerava impossível. Necessito de um pai”.

Eles vivem apenas 35 dias juntos, mas o suficiente para que todos os remendos fossem feitos, para que o amor fosse finalmente incorporado como algo real. Pai e filha se encontram, em outro país, e refazem os caminhos.

Nos diálogos, muitas vezes atravessados de silêncios, o pai explica à filha o motivo de nunca ter dito nada sobre seu plano de fuga. Tinha medo de que a mãe, ligada ao aparato repressivo cubano, o denunciasse.


Jornalista e escritor Leonardo Padura tem abordado a reaproximação entre Cuba e os EUA. Foto: Divulgação

Seu plano era aproveitar uma viagem à Bienal de Veneza e não voltar. Fez tudo em sigilo. Deixou tudo para trás. Conseguiu, mas arrastou uma espécie de “solidão cubana” por toda a vida, como se tivesse perdido o calor, a temperatura e os vínculos com sua terra.

Numa história paralela (que aparece com eloquência em Memórias do desenvolvimento), Sérgio precisa explicar à filha o que tem dentro de uma urna que está em sua casa. São as cinzas do irmão que morreu, também no exílio. A resposta à pergunta da filha é curta, ao contrário das grandes dores: “Pablo. Meu irmão”.

A única paixão de Pablo era o cinema. Seu primeiro documentário, intitulado A praia, enfocava as atividades de um dia, desde o amanhecer, até o pôr do sol. Foi denunciado como “contrarrevolucionário” e “escapista”, num momento em que a realidade social “exigia o compromisso consciente”. Além disso, era homossexual, um defeito grave para a Revolução, que criou inúmeras “granjas de reabilitação”.

Além de ter se negado a pedir desculpas ao Estado pelo “escapismo”, seu relacionamento com um homem casado também foi descoberto. “Pablo não podia suportar um regime que não tolerava os homossexuais, dizia que isso invalidava por completo a revolução”, conta Sérgio à filha.

“Ele se foi por medo, eu fiquei por ambição.” Os irmãos só se encontrariam 20 anos depois, em Veneza.

UMA SÓ ÁRVORE
No documentário sobre Edmundo Desnoes, de Cecília Araújo, uma das primeiras cenas enquadra o autor de Memórias do subdesenvolvimento falando sobre as qualidades de um charuto. Em seguida, passa a explicar a existência de “dois tipos de cubanos” – os que se foram para o exílio e os que ficaram.

“Os que ficaram estão enraizados. Os que se foram são os ramos e as folhas, que estão sujeitos às chuvas, às intempéries. O cubano é como a diáspora. Metade vive no país, metade vive no exterior”, diz.

Ele se define como a parte dos ramos e das folhas que, quando volta a Cuba, está novamente tocando as raízes. Por isso, ele acredita que deveria haver menos hostilidade entre os que ficaram e os que se foram – todos fazem parte da mesma árvore. Mas ele é um dos casos incomuns de cubanos que podem, por sua relevância cultural, entrar no país e sair dele, quando querem.

Desnoes pode até exagerar nos números (em Cuba, vivem 11,2 milhões de pessoas e, no exterior, estão dois milhões), mas a divisão que isso provoca, é brutal. E os desafios para o futuro serão imensos. Os que se foram têm muita raiva do que perderam (vínculos familiares, propriedades, parte de suas vidas em outro país). Os que ficaram, de certa forma, enfrentaram tempos duros, viveram grandes crises na economia, de abastecimento. A árvore passou por muitas podas.

Um exemplo desse confronto aconteceu na Cúpula das Américas, realizada no começo de abril. De um lado, o ministro de Comércio Exterior de Cuba, Rodrigo Malmierca Díaz, circulava com uma brochura colorida de 180 páginas, mostrando aos empresários as vantagens de investir em Cuba. Uma sinalização de que a árvore quer se desenraizar um pouco do socialismo e avançar no capitalismo.

Paralelo ao evento com as cúpulas dos governos, era realizado o Fórum da Sociedade Civil. Neste, dava para perceber o tamanho do desafio cubano para integrar as raízes e as folhas. Quatro oficinas foram suspensas por bate-bocas, gritos, socos, tapas, envolvendo apoiadores do regime e opositores, em pleno Parque Porras, na Cidade do Panamá.


Raúl Castro e Barack Obama em momento histórico, na Cúpula das Américas.
Foto: Divulgação

De um lado, os opositores ao regime gritavam “assassinos” contra os apoiadores do regime. De outro, uma palavra que ficou conhecida, em Cuba, para se referir aos que deixaram a ilha: gusanos. Tradução? Vermes.

Os dissidentes acusavam a Cúpula de ser “ambígua e complacente”, ao colocar Cuba no centro das atenções, enquanto as perseguições internas continuavam firmes. Um dos pontos do acordo inicial entre Obama e Raúl Castro previa a libertação de 53 presos políticos, que já foram soltos.

“TIO MIN”
Pouco tempo depois do histórico acordo entre os dois países, o escritor Leonardo Padura resgatou mais de sua história familiar. Lembrou do “Tio Min”, que se despediu da família, em Havana, numa tarde de 1968. Foi para o exterior, alimentar a diáspora.

“As pessoas que deixavam Cuba para viver nos Estados Unidos não poderiam voltar, pois perderiam tudo: seus bens, sua cidadania, sua pátria. Elas retornariam apátridas naquele momento, e o tio Min nunca voltou ao país”, diz o escritor, em um texto publicado no jornal Folha de S.Paulo.

No auge da Guerra Fria, na década de 1960, sair do país era uma ofensa. Ninguém deveria ter qualquer tipo de relacionamento com pai, mãe, irmão ou parentes de quem “ousava” partir. “O filho exilado era uma atitude contrária aos princípios revolucionários e, portanto, inadmissível.”

Ou seja – a decisão de partir implicava uma ruptura irreversível na família. Ela seria definitiva, até que o regime caísse. O regime seguiu firme e o tio Min nunca mais retornou.

Até hoje, quem permanece dois anos fora de Cuba é classificado como “imigrante” e condenado a perder os direitos de cidadania e nacionalidade.

Muitos processos da Revolução Cubana têm palavras ambíguas para explicar situações confusas. Os que foram embora, ao longo dessas décadas, os gusanos, agora podem voltar. Desde que tenham dinheiro para investir no país. Há um nome para isso: investidores.

Graças à “Lei de Investimento Estrangeiro”, aprovada pelo legislativo cubano, qualquer cidadão de origem cubana que vive no exterior pode retornar ao país para “investir, fazer negócios e obter lucros”. “A condição fundamental para fazê-lo é que tenham triunfado em alguma parte do mundo e disponham de capital suficiente”, informa Padura.

A contradição essencial, e essencialmente cubana, é que os que foram embora, batizados ferozmente de gusanos, agora têm um tratamento especial. Só podem se tornar “investidores” os cubanos que deixaram o país.

Padura toca num ponto crucial: a lei não dá espaço aos cubanos que permaneceram, apegados à sua terra e que resistiram a todas as adversidades de seu país. “O máximo a que podem aspirar os cubanos de Cuba é ter um restaurante, um táxi ou uma oficina para conserto de celulares”, completa.

A própria denominação – os cubanos de Cuba – mostra que refazer os laços destruídos pela diáspora vai ser uma tarefa de muitos anos, num país em que a passagem do tempo parece andar por outro relógio, outro calendário.

Os 90 quilômetros que separam Havana de Miami, na Flórida, onde se concentra a maior parte dos dois milhões de cubanos migrantes, se feitos de avião, duram 18 minutos. Quantos beijos, abraços e lágrimas estão à espera, há décadas, por esses poucos minutos? 

SAMARONE LIMA, jornalista.

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