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De volta a Cuba

Num terceiro movimento, desta vez com um longa de Cecília Araújo, baseado no último capítulo do livro Memórias do desenvolvimento, de Eduardo Desnoes, o cinema aborda a história recente da “Il

TEXTO Samarone Lima

01 de Junho de 2015

Foto Reprodução

CENA 1. EXTERNA. CUBA, 1968
Em 1968, Memórias do subdesenvolvimento, um inovador filme dirigido pelo cubano Tomás Gutiérrez Alea surgiu no cenário mundial, tornando-se uma espécie de “divisor de águas no cinema latino-americano”. Inspirado no livro homônimo de Eduardo Desnoes, publicado três anos antes, o filme mostra a vida, sentimentos, reflexões existenciais e impasses de Sérgio, um acomodado locador de imóveis, em plena Havana, que especula sobre o conformismo e o subdesenvolvimento cultural.

“Todo o talento do cubano se gasta em adaptar-se ao momento”, diz.

O personagem escrevia nas horas livres e vagava pelas ruas de Havana, quase impassível à vertiginosa realidade, num mundo à parte. Parecia que a vitória ou fracasso da Revolução não alterariam sua vida. Não entende o sentido dela e, ao mesmo tempo, resolve ficar. Sua família segue a grande diáspora dos cubanos rumo aos Estados Unidos. No aeroporto de Havana, em meio aos acenos e lágrimas de dezenas de famílias que se separavam, ele parece sentir um alívio indiferente.

Em 2007, exilado nos Estados Unidos, Desnoes retoma sua narrativa, com a publicação de Memórias do desenvolvimento. O escritor Sérgio agora é professor, em Manhattan, e vive uma angústia mais intensa, tendo na figura de Fidel Castro parte de suas atenções. Numa de suas aulas, é questionado por alunos sobre o motivo de ter saído de Cuba.

“A razão foi porque estavam me dizendo o que fazer, o que escrever e quando fazê-lo. Não posso funcionar assim.”

Como já está mais velho e continua remoendo seus conflitos, Sérgio completa:

“Aqui estou. Tenho liberdade total para escrever o que quero, mas não importa a ninguém”.

O também cubano Miguel Coyula transformou seu romance em um filme, em 2009. Dessa vez, porém, o autor não ficou muito satisfeito com o resultado. O detalhe é que o epílogo do livro, intitulado Agora é minha vez, não foi incluído no roteiro, deixando no ar uma espécie de memória interminável.

A narradora é Natália, uma jovem cubana de 25 anos, que vai em busca de Edmundo, pai que nunca conheceu. O encontro de duas gerações vai expor os conflitos que começaram na década de 1960.

“O diário de Natália, filha de Edmundo, encarna a vida de um homem que viveu e desfrutou da intensidade intelectual e emocional de uma revolução no poder, e de uma mulher que sofreu o fracasso do projeto socialista de Cuba”, escreveu Desnoes, de Nova York, em 2009, na introdução da edição brasileira. Já tinham se passado 44 anos, desde a publicação do primeiro livro.


As filmagens de Te sigo duraram 21 dias, em Camaragibe. Foto: Filipe Oliveira/Divulgação

“O mais grotesco e absurdo é propor às novas gerações um modelo impossível de se alcançar: ser como Che – uma frase que repetem grotescamente os meninos e as meninas em todas as escolas da ilha”, completa.

CENA 2: 15 DE ABIRL de 2015
EXTERNA – ESTRADA, PERTO DE UM MATAGAL.
O sol está forte, o calor é intenso e há muita umidade. Estamos em um sítio a oito quilômetros do Recife. Uma equipe compacta e diligente se movimenta para a primeira gravação do dia, sob o olhar calmo e silencioso de Cecília Araújo, que dirige Te sigo, seu primeiro longa-metragem, uma adaptação de Agora é minha vez, com a participação de dois atores cubanos.

São produtores, figurinista, continuísta, assistentes, maquiador, que preparam todo o aparato técnico para levar a atriz cubana Claudia Buenaventura a um lugar ermo, de difícil acesso, onde tentará encontrar seu pai. No roteiro “abrasileirado”, Sérgio, de 70 anos, desistiu dos Estados Unidos e resolveu viver seus últimos dias no interior do Brasil. O ator escolhido foi o cubano Eduardo Rodriguez.

As gravações, com o apoio do Funcultura, duraram exatos 21 dias.

CENA 3 – INTERNA – CASA DE CECÍLIA. TARDE
Num dos raros dias livres, durante as três semanas de filmagem, Cecília Araújo, de 40 anos, encontra tempo e fôlego para me contar sobre os caminhos que a levaram a ser a responsável pelo último capítulo de uma trilogia de memórias que praticamente atravessa a história da Revolução Cubana.

É também uma história do envolvimento de profissionais do cinema pernambucano com a Escola Internacional de Cinema e TV (AICTV), que Gutiérrez Alea ajudou a fundar, em Santo Antonio de Los Baños (leia na matéria a seguir).

Cecília fez o curso regular, de 1999 a 2001, e especializou-se em produção. Foi lá que conheceu e estudou, com detalhes, o já clássico Memorias del subdesarrollo, que é usado na formação de novos profissionais de várias partes do mundo. Não imaginaria que, anos depois, se tornaria amiga do autor do livro, nem que faria um documentário sobre ele – muito menos que seria a responsável pelo encerramento de uma trilogia envolvendo literatura/cinema/Cuba.

Após retornar ao Recife, sedenta por “replicar” tudo o que aprendera, Cecília esbarrou em um cenário ainda difícil para a produção de cinema no estado. Tentou, sem sucesso, aprovar projetos nas leis de incentivo à cultura. Resolveu “dar um tempo”. Arrumou as malas e foi para São Paulo, onde trabalhou como continuísta para séries de TV. Depois, passou para a coordenação de produção da série Os latino-americanos, da Televisión América Latina (TAL).

Em 2008, soube que Edmundo Desnoes viria pela primeira vez ao Brasil. Seria homenageado em São Paulo, pelos 40 anos de Memórias do subdesenvolvimento. Sentiu que não poderia perder a oportunidade. Decidiu que faria um documentário sobre ele. Mandou e-mail informando sobre o projeto, e pediu para acompanhá-lo, desde a chegada ao aeroporto até seu retorno a Nova York. Ele, sem mais delongas, concordou. Ela contou com a ajuda do amigo roteirista Hilton Lacerda e de Juan Lopes.

Foi uma semana de filmagens. O resultado é o curta-metragem Bocanadas de memoria (Baforadas de memória), no qual o escritor faz reflexões sobre a diáspora cubana, a realização do filme, com Gutiérrez Alea, o ato de escrever, e a antiga paixão literária por Machado de Assis.


A diretora Cecília Araújo realizou documentário sobre Edmundo Desnoes.
Foto: Daniel Rozowykwiat/Divulgação

“Quando eu era adolescente, o único escritor que me interessava era Machado de Assis, com Memórias póstumas de Brás Cubas. Gosto muito da ironia do personagem principal de Machado”, diz. “Não é por acaso que meu livro se chama Memórias do subdesenvolvimento. Tem a palavra memória e o personagem que conta a sua vida em primeira pessoa. Fragmentos da realidade que são recolhidos através das lembranças e da opinião que as lembranças têm”, completa.

Edmundo gostou muito do documentário de Cecília, e ficaram amigos. Ele mesmo fez uma proposta à brasileira – adaptar o epílogo do seu último livro.

ENCERRAMENTO
Cecília convidou o amigo Hilton Lacerda, que já estava em outro projeto. Ele indicou Anna Carolina Francisco, que aceitou o desafio e fez o primeiro tratamento, bem fiel ao original. Depois, as duas viajaram para Nova York, onde se encontraram com Edmundo para ler e debater sobre o roteiro.

“Havia uma preocupação grande que Edmundo não se sentisse traindo sua obra. Essa etapa foi muito importante para entender esse personagem e fazer algumas adaptações referentes à realidade de Cuba na época”, conta Anna Carolina.

Outra preocupação era com a mudança de locação, já que o livro tem como cenário um chalé meio abandonado, nos Estados Unidos. O novo roteiro coloca pai e filha no interior do Brasil. Até o início das filmagens, as duas estavam em contato direto com o autor, dividindo as mudanças no roteiro e recebendo sugestões.

A interlocução com ele ajudou também a processar a ambiguidade do personagem desse burguês que, por um tempo, acreditou que a Revolução poderia ser um caminho, mas depois se decepcionou com os dois modelos: o socialismo e o capitalismo.

“O encontro dele com a filha, de certa forma, é também uma metáfora da relação de Edmundo com seu passado, com o resultado de suas utopias”, diz Carolina.

Te sigo nasce envolto em um certo fascínio. Inspirado em uma novela escrita por um cubano, com apenas dois atores (também cubanos), todo falado em espanhol, encerrando um ciclo histórico da ilha, e de memórias que seguem sendo reencenadas.

Como a história parece serpentear à procura de novas metáforas, uma doce ironia atravessou as filmagens. No dia 11 de abril, enquanto toda a equipe estava praticamente incomunicável, nas filmagens, houve o primeiro encontro entre os presidentes dos Estados Unidos e de Cuba, em mais de 50 anos. Na Cúpula das Américas, realizada na Cidade do Panamá, Barack Obama e Raúl Castro conversaram e deram as mãos.

“A guerra fria acabou”, disse Obama. Mas a história mostra, também, que guerras nem sempre acabam com decretos. 

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