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"Preguiça e ócio contradizem a lógica do acúmulo"

Professora de Filosofia da USP, Olgária Matos reflete sobre o uso desacelerado do tempo, e sua aparente incompatibilidade com a sociedade contemporânea

TEXTO Gianni Paula de Melo

01 de Março de 2012

Olgária Matos

Olgária Matos

Foto Lili Martins/Folhapress

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 135 | março 2012]

Muito se fala sobre a preguiça,
mas, como ocorre a vários verbetes, no uso cotidiano, nunca sabemos se estamos nos referindo ao mesmo conceito, partilhando a mesma ideia. Preguiça é não fazer nada, não produzir? Rende ou não rende frutos? Coincide com ócio? É benéfica ou é “pecado”? Em 2011, no evento Mutações, organizado por Adauto Novaes, a professora de Filosofia da Universidade de São Paulo, Olgária Matos, apresentou uma reflexão sobre o campo conceitual em que se inscreve a preguiça hoje. Olgária, que também assina o prefácio do livro O direito à preguiça, de Paul Lafargue, conversou com a revista Continente sobre a experiência e o uso desacelerado do tempo, e sua aparente incompatibilidade com a sociedade contemporânea.

CONTINENTE Na perspectiva filosófica, como diferenciaríamos preguiça de ócio?
OLGÁRIA MATOS A preguiça – a priguizia latina –, em seu sentido primordial, diz respeito ao tempo lento, contrário à pressa ou a urgências, como se o presente vivido coincidisse consigo mesmo, um tempo em que qualquer alteração significaria uma perda desse estado de plenitude já realizada. É um tempo também dos retardamentos e da não ação, mais próximo da contemplação, que é a forma suprema da atenção. O ócio, a scholé, era uma temporalidade dedicada “àquelas coisas que merecem que se dedique o tempo”. Por uma miraculosa evolução, veio a significar “escola”, o tempo voltado para a formação do espírito, para os “cuidados de si” com vistas à virtude e à felicidade, à busca da harmonia consigo mesmo e da concórdia na cidade. A preguiça como condenável só veio a ser comparada ao seu simétrico oposto, a atividade desmedida, com o advento da “ética protestante e do espírito do capitalismo” que, em sua fase atual, se realizou com a universalização da ética do novo-rico, para a qual “tempo é dinheiro”, entendido como valor supremo. O novo-rico é aquele que conhece o preço de todas as coisas, mas desconhece o seu valor. Preguiça e ócio, bem como seus corolários, que são todos os saberes não vinculados a resultados materiais – as “humanidades” –, são proscritos. Preguiça e ócio contradizem a lógica do acúmulo, acréscimo e reposição do capital e do mercado consumidor, ligados à aceleração e ao não pensamento.

CONTINENTE Em que aspectos a experiência do tédio se aproxima ou se afasta das duas citadas anteriormente?
OLGÁRIA MATOS O tédio – o ennui baudelairiano – é a experiência de um tempo que se arrasta, herdeiro da acídia medieval (a “tristeza do coração” ou o “coração pesado” e “maus pensamentos”), quando o anacoreta solitário, nos desertos de Alexandria, nos quais buscava a ascese até Deus, calcinava ao sol e o dia lhe parecia insuportavelmente longo. O tédio é o desgosto de existir, que traz consigo o sentimento da perda do sentido das coisas e do passado, dos valores estimados que fazem do presente um tempo de planura, prosaico e sem maravilhamento. Mas o tédio baudelairiano é, simultaneamente, um contato com a interioridade de um sujeito e a consciência de um mundo esvaziado de sentido, porém, que exige do spleenático criação contínua. Não por acaso, Baudelaire escreve um livro cujo título éSpleen et idéal. Pelo spleen (palavra inglesa que significa tédio), o sujeito fica prisioneiro do passado, experimentando um luto do impossível, pelo qual ele sonha o futuro, vivendo esse conflito de que nasce a criação.

CONTINENTE Em que sentido nós podemos entender o preguiçoso como um artesão do vazio?
OLGÁRIA MATOS O preguiçoso vive um tempo pleno de bem-estar e de conforto moral, enfrentando o vazio sem tédio, quer dizer, sem angústia, porque é um tecelão do tempo, exerce a autodeterminação, não espera que de acontecimentos externos, da indústria do entretenimento ao mundo do trabalho pelo trabalho, da ação pela ação, advenha o bem-estar. Um ceticismo mitigado — uma certa afasia, apatia e ataraxia — faz com que o mundo do preguiçoso seja um mundo antiviolência, descente do poder do ser humano de mudar totalmente o curso do mundo por sua simples vontade, mais afeito à “força das coisas”, a tudo que escapa ao poder do homem.

CONTINENTE Quais as principais dificuldades para o homem contemporâneo alcançar certa indiferença à duração?
OLGÁRIA MATOS A cultura contemporânea – a pop, se se pode dizer – é anti-intelectual, violenta e brutalista, além de ser cultura das novidades, associada ao fetiche das inovações, fazendo apologia ao curto prazo e o desejo de “economizar o tempo”. Mas quanto mais tecnologia se produz para isso, menos tempo se tem. De onde a antinomia de que o tempo não passa e, simultaneamente, a vida é por demais breve. Baudelaire caracterizava a modernidade como o “desaparecimento no mundo dos vestígios do pecado original”, com o que indicava a imersão total do homem na matéria, incapaz de transcendência, que se desconhece a si mesmo, que se procura no exterior, dispersando-se no mundo das coisas sem sentido para os fins do autoconhecimento, do autoaperfeiçoamento, para o reconhecimento de suas possíveis fontes de prazer e satisfação.

CONTINENTE Poderíamos dizer que vivemos num tempo de pouca sabedoria dos usos do tempo?
OLGÁRIA MATOS O tempo na sociedade de massa, do mercado e do espetáculo se caracteriza pela ilimitação e pela valorização do excesso: obesidade mórbida, anorexia, bulimia, esportes radicais etc. A temporalidade que subjaz a essa sociedade é patológica, porque incapaz de criar ou reconhecer valores, pois esses dependem da noção e da experiência do limite, do reconhecimento do permitido e do interdito, face ao qual haveria as transgressões. Na cultura da desinibição, desaparece a ideia de tabu, nada é realmente proibido e, no entanto, nada é realmente possível. Por isso a ação pela ação – o ativismo contemporâneo é uma das figuras da inação, porque movimento para nada, simples mobilização infinita. Todos os laços que necessitam do longo-prazo – relações de amor, amizade, entre pais e filhos, no trabalho etc. – tendem a desaparecer na mudança incessante e sem “objetivo final”. Essa temporalidade sem “sabedoria” é em tudo diversa da percepção humanista da brevidade da vida e, por isso, da necessidade de bem-viver, a que se dedicavam o pensamento e a ação. Metafísica da impermanência, da lei do efêmero, da vanidade de tudo e da grandeza do instante caracterizava a percepção do tempo como busca da sabedoria nos seus usos, porque viver não é senão uma certa maneira de usar o tempo. O “homem contemporâneo” é o resultado ou o agente de uma cultura da incuriosidade, incapaz de sublimação.

CONTINENTE Hoje, algumas empresas estabelecem espaço e tempo para o ócio e o descanso na rotina do empregado. Por outro lado, o tempo do lazer parece ter sido contaminado por uma lógica produtiva, pois tentamos estabelecer um “superaproveitamento” do tempo livre. Como você avalia esse diálogo entre preguiça e trabalho na contemporaneidade?
OLGÁRIA MATOS Com o fim da “longa duração”, as formas tradicionais do trabalho, fundadas no desenvolvimento de uma profissão, na valorização do mérito, da constância, da perseverança, foram substituídas pelo trabalho temporário, e o ócio converteu-se em otimização do tempo de trabalho, de um trabalho sem experiência, como Walter Benjamin o compreendeu na expressão “experiência da pobreza e pobreza da experiência”. É como o jogador que recomeça sempre do zero a jogada. Seu gesto é vazio, carente de recordação, repetitivo e sem sentido algum.

CONTINENTE A preguiça facilita ou dificulta os processos de dominação? Por quê?
OLGÁRIA MATOS A questão assim colocada é de difícil resposta porque põe, latente, a ideia de que o homem é um ser inteiramente social. Seria preciso lembrar que, além da vida pública, existe a dimensão da vida privada e da intimidade. A preguiça é tão constitutiva do homem como a exuberância. Lembre-se de que durante o Terror, na Revolução Francesa, o simples fato de não afetar entusiasmo pela revolução e seus métodos fazia do tímido, por exemplo, um “inimigo da República” e um suspeito punível pela guilhotina. O que se pode pensar é que a preguiça está mais ao lado da “resistência passiva”, do “pacifismo”, da não violência e da reflexão não apressada. Ela seria um “parar para pensar”, face a que o ativismo significaria “parar de pensar” para agir prontamente. Ambos são importantes para a vida social e para a vida do espírito, para o jogo entre a solidão da subjetividade e o rumor da praça pública. 

GIANNI PAULA DE MELO, repórter da Continente Online.

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