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"Não se chega mais a 50 pontos no Ibope"

Coordenadora do Centro de Estudos de Telenovela da USP, Maria Immacolata Lopes conversa fala sobre a evolução dos folhetins no Brasil e como esse "produto nacional" foi ganhando identidade própria

TEXTO Daniel Buarque

01 de Junho de 2011

Maria Immacolata Lopes

Maria Immacolata Lopes

Foto Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 126 | junho 2011]

A nação brasileira deve,
 em ampla medida, sua consolidação na contemporaneidade à existência da telenovela. É ela, segundo Maria Immacolata Vassallo de Lopes – uma das mais importantes estudiosas da ficção televisiva no Brasil –, que melhor representa o país e sua sociedade, ajudando ainda a criar um imaginário comum em todo o país. Coordenadora do Centro de Estudos de Telenovela da USP, no qual é professora titular da Escola de Comunicações e Artes, Lopes é doutora em Ciências da Comunicação pela mesma universidade e tem pós-doutorado pela Università degli Studi di Firenze (UFIT), Itália. Segundo ela, há uma enorme qualidade e inovação na telenovela do país, mesmo que sejam frequentes as opiniões de esgotamento. Nesta entrevista, ela fala sobre a evolução dos folhetins na TV, o abrasileiramento das produções, o surgimento do “padrão Globo de qualidade” e a importância do gênero na atualidade.

CONTINENTE Por que a telenovela é um gênero tão forte no Brasil?
MARIA IMMACOLATA As novelas vêm do desejo e da necessidade de o homem ouvir e contar histórias. As narrativas estão por aí em todos os formatos, mas sempre houve contos, romances; livros, rádio, filmes e televisão. O melodrama aparece como uma matriz popular da narrativa. Isso vem desde circos da Idade Média, grupos de teatro nômades, com espetáculos populares para rir, para mostrar a sociedade de forma crítica. Do melodrama, evoluímos e chegamos aos folhetins no século 19, às narrativas por capítulos impressos, seriados. Do folhetim fomos à fotonovela, à radionovela, até chegar à telenovela. Isso,sempre com preconceito contra o melodrama, contra formas populares, em que os críticos não veem qualidade. A estética popular é sempre alvo de preconceito.

CONTINENTE Existe alguma característica especificamente brasileira nessa evolução?
MARIA IMMACOLATA Nos anos 1950, com a instalação da TV no Brasil, tivemos os primeiros programas de ficção divulgados desta forma. Já se seguiam paradigmas internacionais, como a soap opera dos Estados Unidos. Tivemos também influência direta de Cuba, onde o folhetim já era forte. Entretanto, não podíamos falar ainda de telenovela, mas em seriados, com conteúdo absolutamente exógeno, adaptações e cópias de romances de fora do país. Daí chegamos a 1968, ao que nós, estudiosos da televisão, chamamos de marco: Beto Rockefeller, de Braulio Pedroso. Foi um momento de nacionalização do gênero, o abrasileiramento da novela. É a partir dali que temos a nossa marca, com gravações externas, linguagem coloquial e, principalmente, a identificação com o homem comum do Brasil. Jesús Martín-Barbero explica que quem escrevia essas novelas eram autores de teatro, de tendência de esquerda (em pleno regime militar). Autores que, em função de questões sociais e históricas, viram na televisão uma forma de trabalhar, já que o teatro estava censurado e controlado pelos militares. Foram eles que ajudaram a desenvolver o trabalho que se diferenciou da abordagem que havia até então. A partir de 1968, há uma progressiva ascensão da Rede Globo e do formato que conhecemos hoje, em capítulos diários.

CONTINENTE De que forma a novela reflete a sociedade brasileira e como essa sociedade é representada no folhetim?
MARIA IMMACOLATA Desenvolvo uma linha de pesquisa na qual a telenovela é uma narrativa da nação. Essa ideia é de Benedict Anderson, que fala da nação como uma comunidade imaginada. Ele mostra que, no século 19, o jornal criava um imaginário comum da Inglaterra, fazendo com que pessoas que não se conheciam lessem as mesmas coisas. Trago esse conceito para a telenovela e identifico nela algo que o cinema brasileiro não conseguiu, a imprensa não conseguiu. Ela é o produto audiovisual que representa a nação. A especificidade da novela brasileira é ser uma peça de ficção, mas que serve para as pessoas se informarem. Além de ficção e realidade, temos um binômio complicado de público e privado. A telenovela sempre levou coisas do público para o privado e vice-versa. Vale tudo, por exemplo, foi uma representação típica do país no fim da ditadura. Desde Beto Rockefeller, coloca-se o cotidiano brasileiro nessas histórias, mostrando os valores, os imaginários da população. A telenovela brasileira rompeu muitas convenções sobre vilões e mocinhos. Desde Beto Rockefeller ninguém é totalmente bom ou mau nas novelas. Há uma representação do brasileiro, mesmo que um ou outro tipo não seja representado com tanta frequência, como o goiano, ou o gaúcho. Cobra-se que as novelas mostrem o Brasil todo, mas isso é um exagero de expectativas.

CONTINENTE Os críticos costumam ser duros com as telenovelas, e chegam a falar do esgotamento do gênero. Isso pode ocorrer de fato?
MARIA IMMACOLATA Sempre se fala em esgotamento do formato de telenovelas, do elogio de novos formatos de séries, com a incorporação da ideia de temporadas. Mas, mesmo com tantos formatos inovadores de ficção na televisão, a novela continua sendo o produto mais caro da TV brasileira, responsável pela indústria televisiva como um todo no país, mais importante do que o jornalismo ou qualquer outro gênero. As pessoas elogiam séries americanas e muitas vezes esquecem a qualidade da ficção brasileira. E essa qualidade não é só técnica. Costumamos nos prender muito em autores, mas o ambiente de produção é o que há de mais importante. Fazer uma novela funcionar em uma produção cotidiana, diária, não é algo que exista com qualidade nem nos Estados Unidos. As séries americanas têm outro ritmo de produção, mais lento. Não é uma obra aberta de 200 capítulos, como acontece com as novelas brasileiras. Isso é a carpintaria da teledramaturgia, reconhecida mundialmente.

CONTINENTE Como podemos explicar o sucesso da transmissão de novelas antigas, como Vale tudo Vamp, na TV a cabo?
MARIA IMMACOLATA O que vemos agora com o canal Viva é uma memória histórica e afetiva da telenovela brasileira. Como é uma narrativa que trabalha com emoção e razão, não podemos deixar de lado os aspectos afetivos. É assim que Vale tudo reaparece. Isso vai muito além do “Vale a pena ver de novo” e traz memória e história. Estamos falando de novelas da década de 1980, que voltam a fazer sucesso. O mesmo acontece com o DVD, formato em que é possível encontrar novelas clássicas inteiras, como Roque SanteiroIrmãos coragem. Cada vez mais, elas seguem o modelo de séries, e as pessoas podem ter em casa, guardar para sempre. Com a tecnologia e a modernidade, passamos a ter uma multiplicidade de maneiras de assistir.

CONTINENTE A senhora acredita que existe preconceito contra a telenovela no Brasil?
MARIA IMMACOLATA Tanto a telenovela quanto os programas de auditório e tudo o que há na televisão, a não ser o jornalismo, sofriam historicamente muito preconceito. A telenovela realmente é uma história muito estereotipada sobre as paixões, dirigida especialmente para as mulheres, e sofre preconceito como objeto de estudo. A USP estuda o gênero desde os anos 1990, no Centro de Estudos de Telenovela da Escola de Comunicação e Artes. Isso começou criando celeuma intelectual, devido a pesquisadores não verem importância na pesquisa desse objeto. Mas há uma progressiva legitimidade, uma conquista dos estudos da televisão, que sempre foi considerado um veículo menor em comparação com os livros e o cinema – e, dentro da televisão, especialmente a ficção, a telenovela. Hoje, temos grupos de pesquisa por todo o Brasil que estudam a teleficção.

CONTINENTE A crítica acadêmica e jornalística também costuma ser dura com a liderança da Globo em relação à concorrência. O que a senhora acha disso?
MARIA IMMACOLATA No Brasil, existe o chamado “padrão Globo de qualidade”, que realmente traz um diferencial, já que a empresa investe em fazer um produto bem-feito. E o brasileiro se acostumou a ver isso, a comparar as novelas da Globo com as de outros canais. Ele vê o que é bem-produzido aqui. Chegamos a um patamar em que a concorrência mudou de foco, fazendo uma produção “mexicanizada” para tentar concorrer com a Globo. Essa emissora consolidou o gênero e foi a que mais cuidou historicamente da qualidade das tramas contadas. A ficção da Globo é 100% nacional, comremake de autores nacionais. O SBT, a Record e a Bandeirantes não seguem isso. A Record, por exemplo, está fazendo remake de Rebelde, buscando histórias não originais, adaptadas, algo que segue o que vem de fora. O que a Record tem feito de melhor é trazer novos autores. Ela ainda está abrindo e criando, e não se sabe o que vai acontecer.

CONTINENTE Não há crise na telenovela brasileira, então?
MARIA IMMACOLATA Fala-se que a audiência está caindo, o que é verdade, mas isso é normal. Há novas plataformas, faz sentido que a recepção se fragmente. Não temos mais a família que assiste à novela reunida na sala. São novos formatos que não chegam mais a 50 pontos de Ibope, como acontecia no passado. Há uma diversificação da audiência, e as pessoas podem assistir a novelas depois, na internet, no celular, no DVD. A novela não morreu e não vai morrer, mesmo que haja uma ou outra mais bem-sucedida, ou não. 

DANIEL BUARQUE, jornalista e autor do livro Por um fio – O mundo explicado pelo telefone.

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