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Curtas

Boi da Macuca

Alegoria parte para seu 30º cortejo em Olinda

TEXTO VICTOR AUGUSTO TENÓRIO

03 de Fevereiro de 2020

Cortejo pré-Carnaval da Macuca em Olinda

Cortejo pré-Carnaval da Macuca em Olinda

Foto Kelvin Andrad/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 230 | fevereiro de 2020]

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Um boi vaidoso e avoador, como canta o Cordel do Fogo Encantado em Boi luzeiro. Um animal terreno, mas batizado com nome de pássaro. Decorado com chifres dourados e fitas azuis, vermelhas e amarelas, sobrevoa e guia as cabeças dos brincantes, seja no litoral ou interior, dançando um ritmo que mistura frevo, forró e música contemporânea. É assim que se pode descrever o Boi da Macuca e a própria agremiação nascida há mais de três décadas em Correntes, interior pernambucano. Neste ano, a figura do animal parte para o seu 30º cortejo carnavalesco em Olinda, o 31º da entidade cultural, promovendo uma folia que leva um pouco de São João ao Carnaval, e vice-versa.

O boi está presente com a Macuca desde 1991, quando houve a confecção do primeiro animal feito pelo artista plástico pernambucano Sávio Araújo. O nome Boi da Macuca e a ideia de trazer a figura à festa surgiram já no primeiro cortejo carnavalesco de Olinda, quando um morador de rua, embriagado, cantou: “Boi, boi, boi, boi/ Boi, boi, boi, boi/ Eu vou deixar minha burrinha/ E vou montado no meu boi”. A cantoria pinguça, junto com a Ciranda de maluco, de Otto, integra os hinos não oficiais da agremiação.

A história da Macuca teve início no sítio homônimo, que leva o nome de um pássaro que se encontra ameaçado de extinção, mas que já foi bastante comum nas regiões de mata e riachos. A entidade cultural nasceu em 1989, numa festa de aniversário do Capitão Zé da Macuca, que é celebrado no dia 18 de fevereiro. Foram dois dias de forró, comandados pelo sanfoneiro Benedito, que até hoje toca nas concentrações do cortejo. A partir daí começou-se a movimentação cultural em torno do sítio, que recebeu o Festival Macuca das Artes em 2019, com a presença de nomes como Chico César, Arnaldo Antunes, Luedji Luna e o coletivo Reverbo.

Capitão Zé da Macuca, alcunha de José Oliveira Rocha, recebeu esse apelido por vários motivos. Além de ter sido o criador e comandante do tradicional folguedo, ele vestia-se como o personagem do bumba meu boi. Em entrevista à Continente, Rudá Rocha, filho do criador, explicou como se deram as complexidades de uma agremiação que realiza atividades culturais singulares em diversos momentos do ano e chega ao Carnaval promovendo uma aproximação da festa com outras manifestações da cultura popular.


Cortejo no São João da Macuca, em Palmeirina. Foto: Kelvin Andrad/Divulgação

“A Macuca nasceu no interior, mas não por acaso nasceu em fevereiro. Essa mistura entre Carnaval e São João se deu, principalmente, por causa do meu pai, o Capitão Zé da Macuca. A paixão do folião do carnaval de Olinda e do admirador do São João sempre estiveram dentro dele, assim como a admiração por nomes como Luiz Gonzaga e Dominguinhos, além de todo o universo do forró e da sanfona. Havia a intenção de dar uma colaboração para o carnaval de Olinda trazendo algo da região dele. Então, trouxe o trio de forró (sanfona, zabumba e triângulo) e, depois, pífano, rabeca e outros instrumentos. Trouxe também o cortejo com o boi, pautado pelas músicas tradicionais da região da Macuca”, explica Rudá, que hoje faz parte da diretoria da agremiação.

Misturando as tradições juninas às carnavalescas, a Macuca deu início a uma quebra da sazonalidade imposta aos ritmos do forró e do frevo, limitados aos períodos de São João e Carnaval, respectivamente. Essa quebra, avalia Rudá, é o principal fruto da parceria da agremiação com a Orquestra do Maestro Oséas, que começou em 2015: “O mais comum é que as atividades das orquestras de frevo de rua comecem, quando cedo, em setembro e encerrem na quarta-feira de cinzas. Além disto, a maioria dos músicos de orquestra de rua não são profissionais da música. Então, esse músico acaba guardando o instrumento na quarta-feira e só volta a tocá-lo em setembro”.

O seu primeiro estandarte foi confeccionado em novembro de 1989, quando a entidade cultural ainda era chamada Movimento Anárquico Cultural da Macuca. Criado no ano da primeira eleição presidencial direta após a ditadura militar, o Boi da Macuca acompanhou as mudanças que aconteceram nas políticas culturais no Brasil: “Do ponto de vista carnavalesco, já passamos por diversas políticas públicas. Atualmente, vivemos sob uma restrição forte e evidente. O Carnaval e a cultura popular sempre tiveram a crítica social e política muito próximas, pois essa é uma maneira de se expressar e reivindicar dentro daquele ambiente lúdico. Como é uma manifestação do povo, muitos pleitos são bradados. Apesar do momento, vejo o carnaval de Olinda passando por uma fase interessante de revigoramento. Existe uma força de público grande em torno do carnaval tradicional da cidade. Muitos jovens querem participar e ingressar nas agremiações, fazendo o momento do carnaval de Olinda ser muito interessante, em descompasso com o momento da gestão pública cultural”, opina Rudá Rocha.

No carnaval deste ano, o cortejo parte na segunda-feira (24/2), da sede da troça Cariri Olindense, no bairro do Guadalupe. O local, de acordo com o filho do criador da agremiação, tem uma relação especial com a Macuca: “O bairro nos adotou, é de onde a gente prefere partir e, se não acontecer, sempre passamos por lá. Nos sentimos em casa, pois ali as pessoas vivem e discutem o Carnaval durante o ano inteiro”.

VICTOR AUGUSTO TENÓRIO é jornalista em formação pela Universidade Católica de Pernambuco e brincante do Carnaval de Olinda, da lama do começo do Sábado de Zé Pereira à noite da Terça Gorda.

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