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Resenha

Vampiros sorridentes ao sol

Jornalista, escritor, cantor e compositor paulista Cadão Volpato, líder da Fellini, banda 'cult' dos anos 1980, lança a autobiografia 'À sombra dos viadutos em flor'

TEXTO Renato Lins

08 de Abril de 2019

Foto Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 220 | abril de 2019]

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O título, de inegável sabor proustiano, já sinaliza para o leitor o que está à sua espera nas 137 páginas do novo livro do jornalista, escritor, cantor e compositor paulista Cadão Volpato. À sombra dos viadutos em flor, lançado no início de janeiro pela SESI-SP Editora, tem a ver com a memória. A do autor, por certo. E a de toda uma geração que hoje se aproxima dos 60 anos, carregando no corpo e na alma as aventuras, desditas e rotinas da vida brasileira. É uma pequena joia lapidada com o fino humor, a ironia delicada e o lirismo das melhores letras assinadas por ele à frente da Fellini, banda cult dos anos 1980 cujos fãs devem compor a maior parte dos futuros compradores dessa autobiografia.

Autobiografia, diga-se logo, concentrada apenas nos anos de formação do autor, que são, também, os de sua banda e de toda a cena rock brasileira de quase 40 anos. O livro se encerra com a chegada do disco de estreia do Fellini em meados dos 1980, seguido de uma coda que nos situa em relação ao destino de alguns dos personagens retratados. No lançamento de À sombra dos viadutos em flor, Cadão contou que trabalha numa série de continuações, dedicadas a cobrir as outras etapas de sua vida, sempre conectadas com o cenário cultural brasileiro, até por conta de suas múltiplas atividades profissionais, que incluem, além das citadas acima, a de desenhista e apresentador de TV.

Se o título escolhido por Cadão Volpato entrega de cara a importância da memória na narrativa assinada por ele, também nos dá pista do ambiente que nos envolverá durante a leitura: a geografia urbana de São Paulo, com seus vales de viadutos, seus prédios do tamanho de gigantes, suas chaminés, se projeta como um cenário quase apocalíptico que serve como pano de fundo para as peregrinações musicais, amorosas e profissionais, até mesmo roubando a cena para si. É uma paisagem às vezes tão desolada quanto à da Manchester daquele período, devastada pelo neoliberalismo de Margaret Thatcher, que tanto impactou no som e nas letras de nomes seminais do pop inglês como Joy Division e The Fall. Bandas de referência para Cadão e seus companheiros de geração, que, assim como os britânicos, seriam inspirados por uma arquitetura sombriamente instigante.

Naquele momento, início dos 1980, a capital paulista se reconhece como megalópole e se assume sem temer concorrência como centro hegemônico da cultura brasileira. Tamanha confiança é alimentada, principalmente, por duas fontes: a imprensa local, especialmente a Ilustrada, caderno cultural da Folha de S.Paulo, de repercussão nacional, liderando uma luta pela atualização do cenário artístico que, hoje, vista a distância, parece algo provinciana e colonizada. E o talento de seus músicos, sejam ligados às universidades (Arrigo Barnabé, Rumo e o pessoal da Lira Paulistana) ou surgidos nas periferias (o movimento punk) ou, ainda, frequentadores de casas noturnas alternativas, como os Titãs, o próprio Fellini e outros grupos.

Antes de mergulhar no caos urbano e artístico de São Paulo, no entanto, Cadão aproveita as páginas iniciais do livro para rememorar a infância. O nascimento no Bairro do Ipiranga, “o lugar do grito do imperador”, em 1956, “ano do Uivo, de Allen Ginsberg”, filho de um contramestre sempre mergulhado nos teares da fábrica vizinha à sua casa, e de mãe mineira, que lhe fez herdar um gosto pelas montanhas e um temor reverencial ao mar.

Anos felizes cortados, subitamente, na estrutura do livro, pela frase impactante que abre o segundo capítulo: “O resto é ditadura. Uma infância na ditadura, uma adolescência e uma universidade na ditadura”. Cambaleante, desgastado, mas ainda capaz de gerar paranoia em alto grau, o regime autoritário inaugurado em 1964 assombra os passos do nosso herói, o que não impede que ele participe de grupúsculos trotskistas nos tempos de estudante na ECA (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo). A interminável transição rumo à democracia, no entanto, responde por algumas das páginas mais amargas do livro, especialmente o fiasco das Diretas Já, em 1984, capaz de fazer Cadão vomitar as tripas no comício final da campanha, enojado com a conciliação já sinalizada pela proeminência do grupo ao redor de Tancredos Neves.

Se a ditadura cambaleava, a economia não ficava atrás. “Crise do petróleo”, “crise da dívida”, hecatombe após hecatombe esfacelavam os empregos e os salários. Jovem estudante de Jornalismo, Cadão, após sair de casa, ganha a vida como revisor nas redações dos jornais e revistas paulistas. Um mundo em vias de extinção, o do jornalismo impresso, aparece aqui em todo o seu vigor. Tiragens imensas. Redações quase do tamanho de fábricas. Centenas de máquinas de escrever dispostas lado a lado. Cheiro de tinta. É com os trocados obtidos aqui que Cadão banca o aluguel do apartamento que divide com dois amigos, futuros integrantes de bandas coirmãs da Fellini.

Situado na extremidade do Major Quedinho, um dos viadutos do tal vale do título, ele abrigou o autor durante boa parte desses anos de formação. É para lá que Cadão leva a primeira namorada séria. É de lá que ele parte em expedição com os amigos e amigas rumo às casas noturnas que marcaram a vida paulistana dos anos 1980, lugares míticos para os que viviam nas distantes províncias. Os nomes desfilam como as madeleines de Proust, despertando as recordações do autor e as nossas, leitores seus contemporâneos: Lira Paulistana, Napalm, Val Improviso, Madame Satã…

Desses, o Satã é quem merece as descrições mais calorosas de Cadão: “E no caminho do Satã ia nossa caravana de vampiros, a pé pelas ruas do Bixiga… de preto da cabeça aos pés, e se estivesse frio apareceria um sobretudo de Echo and the Bunnymen, Echo e os Homens-Coelhos… Naquele tempo, atraía uns tipos perdidos, atores desgarrados, gente da alta sociedade, punks de butique, gays, roqueiros recém-saídos do berço, meio new wave, meio pós-punks, todos misturados. Numa gaiola suspensa no teto, uma garota de cabelo platinado mastigava as folhas de um repolho. Era uma performance meio caipira, que não fazia mal a ninguém… as pessoas dançavam num estilo meio mecânico, num ritmo que, às vezes, acelerava e ficava quase frenético, às vezes, quase um salto como o de Syd Vicious que, dizem, pulara para enxergar melhor o palco e assim inventara o pogo… A noite terminava com um acordeom, com a canção do The The. Quem estivesse acordado àquela hora talvez dançasse a última valsa antes de ir embora para casa, ao nascer do Sol. O Sol derretia os vampiros”.

É no Madame Satã que o Fellini faria o show de lançamento do seu primeiro disco, ironicamente intitulado O adeus do Fellini. Cadão conta que o nome da banda, adotado, de início, como vaga homenagem ao cineasta italiano e a um disco do grupo punk inglês The Stranglers, intitulado Feline, ganhou, depois, outro significado “na cidade de imensa colônia italiana, no perfil romano do seu vocalista, no humor embutido em todas as coisas que fazíamos, até na autodepreciação que era a nossa marca”.



Qualquer um que tenha se aventurado em formar uma banda vai se identificar com os relatos de Cadão sobre os primeiros ensaios, o pânico na hora de subir ao palco no show de estreia, os sonhos e as decepções na hora de lidar com as gravadoras. Profundamente marcado pela ética do faça você mesmo do punk, o grupo sempre procurou controlar todos os aspectos de sua carreira, desde as fotos de divulgação, passando pelas capas dos discos, com desenhos do próprio Cadão, até a produção do material sonoro.

O Fellini, a partir especialmente do segundo álbum, Fellini só vive 2 vezes, também criou uma estética na contramão da dominante no rock brasileiro da época. Suas letras passavam distante da denúncia social abrasiva, privilegiando um viés irônico, distanciado. A parte instrumental evitava a grandiloquência, combinando de modo sutil influências da MPB com o pós-punk inglês, com Cadão cantando “com um pé nos cantores da bossa nova e outro pé nos barítonos do rock. Era essa a mistura”.

Combinadas, a ética do faça você mesmo e a estética peculiar dificultaram a trajetória comercial do Fellini. Distante das grandes gravadoras, o grupo construiu uma trajetória independente, com discos de pouca vendagem, mas cultuados por uma legião crescente de fãs que o colocava na linha de frente da música brasileira da época. Gente como Chico Science, que gravou Criança de domingo, uma composição de Cadão, no segundo disco do CSNZ, Afrociberdelia, e chegou a fazer shows paralelos só com o repertório felliniano. A paixão dos mangueboys representou um ponto de virada no reconhecimento da importância do grupo. As páginas finais do livro são dedicadas a essa revalorização tardia, sem, no entanto, tocar na conexão com a cena do Recife dos 1990, guardada, segundo o próprio Cadão, para o próximo volume.

DETALHES, DELICADEZAS
Os fãs de carteirinha do Fellini que percorrerem esses viadutos em flor serão agraciados com descrições de detalhes de capas de disco, anedotas por trás das letras e truques de gravação usados no disco de estreia – entre outras informações mais estritamente musicais. Como o próprio som do Fellini, no entanto, essas memórias de uma música de rock guardam suas peculiaridades: as drogas, por exemplo, fazem apenas uma breve aparição, com umas poucas linhas sobre o consumo de heroína na São Paulo da época. Não há, também, relatos de orgias com tietes ou relacionamentos glamourosos. Jovem dando seus primeiros passos no terreno do amor, Cadão se concentra principalmente no relacionamento com a primeira namorada firme, retratado nos seus altos e baixos com uma delicadeza que realça o gozo, mas não esconde traições e desgastes.

A mesma delicadeza, mas com ironia mais acentuada, surge na hora de retratar colegas músicos famosos. O apartamento do Major Quedinho serviu de abrigo para inúmeros roqueiros de outras paragens, principalmente de Brasília, em busca do sucesso na Pauliceia. Desses esboços, destaca-se o de Renato Russo. “Tinha a hiperatividade de uma criança no parque, o garoto fotografado por Diane Arbus com a granada de brinquedo, feio, barbudo, diferente de todo mundo que entrava e saía do nosso apartamento”, foi a primeira impressão deixada pelo líder da Legião Urbana.

Pouco depois, Cadão assistiu a um show dos brasilienses no Centro Cultural São Paulo: “Era um trio impressionante. Eles nem tocavam tão bem assim, mas quem é que tocava? Tinham carisma, com o Allen Ginsberg no baixo, o professor aloprado com o mesmo timbre de voz de Jerry Adriani”. Uma noite, lembra, “bêbado, completamente bêbado, ele me disse que, se não fossem os chatos, transaria comigo. Os chatos, os piolhos-do-púbis, segundo os portugueses. Bom saber”. O trecho sobre Renato Russo termina em tom levemente mordaz: “Sem ter nada a ver com o trio que tocara numa tarde de sábado no Centro Cultural, ele recuperou o antigo trovador, que agora dava bronca em estádios. Virou o rei dos acampamentos. Sempre elétrico, imagino, até o fim”.

Outra descrição saborosa, feita com o mesmo traço fino dos seus desenhos, é a de Nando Reis, dos Titãs. “Nando, ruivo como o diabo, tocava um violão que encantava as garotas”, conta Cadão. “Lembro que, certa noite, no Napalm, eu o vi trepar num banquinho e cantar o refrão de um reggae. Os punks ficaram loucos. Além de tudo, ele tinha aquela cabeleira vermelha e usava óculos de aro de tartaruga. Nada punk como o código do Napalm exigia”.

Também de Brasília, como Renato Russo, Dinho Ouro Preto aparece como vítima de uma piada felliniana: “Quando ficamos mais engraçados, eu nos apresentava como Capital Inicial. Não sei por quê. Dinho, o vocalista, ficou chateado. Conversamos a respeito muitos anos depois, no apartamento dele, na Avenida São Luís, e eu tive que explicar que era só uma piada surrealista fraca. Tive que explicar a piada. Éramos independentes do sucesso, eles, não. Mas continuei com ela até o último show”.

Além da música, outra paixão atravessa À sombra dos viadutos em flor de ponta a ponta: a literatura. Típico leitor contumaz, Cadão parece ter devorado livros desde a infância. Em encontro com o contista Caio Fernando Abreu, ele revela sua verdadeira ambição como artista: “Ele era alto, magro (magreza de faquir de uma história da Kafka), um pouco dentuço e educado. Tinha uma voz grave, profunda. Anos depois nos encontramos por acaso na Avenida Paulista e ele disse que admirava meu trabalho. Não sabia do que ele estava falando. ‘Qual trabalho, o de revisor?’, pensei, eu era de uma banda que só 30 pessoas conheciam. Queria ser escritor, não vocalista. O escritor nem existia”.


Os Fellini: Jair Marcos, Cadão Volpato, Thomas Pappon e Ricardo Salvagni.
Foto: Carlos Mancini/Divulgação

Hoje, três décadas depois, o Fellini tem fãs espalhados por todo o país. E Cadão virou um escritor renomado, com romances e livros infantis indicados para prêmios e feiras literárias. É com cuidado de artesão das palavras que constrói seu texto, ciente do poder das letras para evocar tempos perdidos. Conduzidos por sua voz literária, tão saborosa quanto a do cantor, mergulhamos nos desfiladeiros formados pelos viadutos em flor para reencontrar não apenas o passado, mas, também, o prazer proporcionado por toda escrita de excelência. Como a música do Fellini, essas memórias de Cadão também vão atravessar os anos fazendo a felicidade de seus leitores. Que, certamente, serão em número bem maior do que 30 bem-aventurados.

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Extra:
Leia trechos do livro

Páginas 28, 29 e 30
Obs.: momento em que Cadão conta sobre o nascimento da banda Fellini

Na mesma calçada, virando a esquina, ficava o bar do Árabe. Não sabíamos de onde ele tinha vindo, mas era um sujeito parrudo e simpático, um gênio de lâmpada. A balconista era uma morena alegre, apaixonada por ele. Parecia que tinham um caso. Era ali que costumávamos jantar um sanduíche gorduroso. Era ali que os moradores e os visitantes do apartamento paravam para tomar cerveja antes de seguir a pé até o Madame Satã. Eu, que não gostava de cerveja, bebericava o mesmo copo até todo mundo se levantar e ir embora.


Foi ali que nasceu o Fellini. O Thomas, que também era um amigo da ECA, o amigo alemão, já tocava em muitas bandas. Os Voluntários da Pátria estavam prestes a lançar um disco. O Smack ensaiava. Nessas bandas, ele era o baterista. Então comprou um baixo e queria montar um grupo só para poder tocar o instrumento. Uma noite, numa mesa do Árabe, ele me propôs o seguinte: nessa banda, eu cantaria e faria todas as letras.

Claro que eu topei. Assim, abria-se um mundo de possibilidades.

O Thomas sabia que eu havia tentado antes, numa banda com o Jair, que era nosso amigo. Tinha um quê de punk, chamava-se Toque de Recolher. Eu e o Jair nos encontrávamos na casa dele, na Mooca. Não lembro se ia de ônibus ou metrô. Passava pela rua dos Trilhos, a Mooca para mim era feita de fábricas e bondes extintos. Num dos ensaios, o último, briguei e fui embora. Isso de bater a porta e ir embora aconteceria mais algumas vezes na minha vida.

Naquela ocasião, Ricardo, o futuro baterista do Fellini, tinha aparecido com o seu professor de bateria, Vitor. Tudo para me ver ir embora bufando, e me dar uma carona no meio do caminho, quando já estava bem mais calmo, como se nada tivesse acontecido. Por isso, naquela mesa do Árabe, pensamos no Jair e no Ricardo para completar o Fellini. Por associação de ideias.

Fellini foi o primeiro e único nome que apareceu. Era esquisito para uma banda de rock.

Com o passar dos anos, esse nome que não queria dizer muita coisa, a não ser como vaga homenagem ao verdadeiro Fellini e a um disco dos Stranglers chamado Feline, e que ia na contramão de nomes mais combativos como Voluntários da Pátria, Ira!, Plebe Rude e Mercenárias, acabou encontrando um significado. Na cidade de imensa colônia italiana, no perfil romano do seu vocalista, no humor embutido em todas as coisas que fazíamos, até na autodepreciação que era a nossa marca.

Texto de quarta capa

Avancei para o microfone, tomei um choque. Escolhi um ponto no fundo do salão, acima da cabeça das trinta pessoas presentes, e comecei a cantar.


Arnaldo Baptista, dos Mutantes, estava sentado numa mesa sozinho, girando um copo com guaraná. Tudo já havia acontecido com ele, os ácidos, a tentativa de suicídio, então o seu olhar estava perdido no palco, e eu o capturei com o canto do olho.

Estava mesmo lá? As pessoas dizem que sim. Com o passar do tempo, ele foi ficando para sempre, sozinho na mesma mesa, girando o copo, sem entender nada. Talvez uma alucinação coletiva? A emoção de começar era tanta que não importava a presença de uma figura como ele num show como aquele, de iniciantes absolutos.

RENATO LINS, jornalista e DJ, sendo um dos propulsores do manguebeat.

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