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Artigo

O impacto das TICs na temporalidade de nossas vidas

O uso intensivo das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs), que aparentemente nos ajudaria a poupar tempo, tem comprimido e acelerado o nosso presente

TEXTO VÉRONIQUE DONARD
ILUSTRAÇÕES LUÍSA VASCONCELOS 

08 de Abril de 2019

Ilustração Luísa Vasconcelos

[conteúdo na íntegra | ed. 220 | abril de 2019]

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Certo dia, me encontrava em um Uber a caminho do trabalho. De repente, o motorista, com quem até então vinha trocando banalidades, baixou a voz e comentou, com um tom preocupado: “A senhora por acaso já reparou que o tempo está ficando cada vez mais curto?”. Fiquei perplexa, pois eu mesma andava às voltas com a questão. De fato, já fazia algum tempo que tinha a impressão de que o solo temporal sobre o qual nos movemos e existimos vem diminuindo de forma exponencial.

Indaguei, de modo a me certificar que havíamos deixado o terreno das trivialidades:
– O senhor está me falando de uma experiência sua, ou é só um comentário, assim, geral?
– Quero dizer, respondeu, que, antes, cinco minutos duravam muito mais do que cinco minutos agora. Dava para fazer mais coisas. Agora, o tempo passa mais rápido, meia-hora dura menos do que meia-hora faz uns anos.

A pergunta do motorista apontava para sua percepção de que uma mesma unidade de tempo simplesmente parecia não ter o mesmo valor do que “antes”. Para tentarmos compreender esse fenômeno, que talvez o leitor tenha identificado em seu próprio cotidiano, começarei por recordar algumas noções sobre o tempo e o espaço, explicitadas há uma centena de anos, mas às quais não prestamos a mínima atenção em nosso dia a dia. Temos tendência a pensar que o que chamamos de “tempo” é o mesmo para todos, e que ele é mensurável de forma homogênea e estável. Não importa onde estejamos, um minuto será sempre um minuto. Da mesma forma, medimos o espaço a partir de nossas percepções e, por isso, pensamos comumente que ele é absoluto – ou seja, o mesmo para todos –, tal como Newton o havia afirmado no fim do século XVII, e que ele se mede em altura, largura e profundidade. Com essas certezas, vivemos até agora na maior tranquilidade, sem necessidade de mais critérios para nos organizarmos.

Eis aí a questão: o leitor talvez pense que o tempo, para ele, é o mesmo que para mim. Mas não é. De forma geral, nossos primeiros marcos temporais são inferidos a partir da percepção de nosso próprio corpo e de nosso ambiente bioclimático, essas duas realidades estando intimamente interligadas. Tais percepções nos permitem estabelecer noções de temporalidade que são imediatamente compreensíveis, assimiláveis e transmissíveis. Ancorada no espaço, nossa concepção do tempo se desenvolve então, instintivamente, a partir da representação mental do percurso de uma distância entre dois pontos. E como uma trajetória se inicia e finda, medimos o tempo em função de um começo e de um fim. O ciclo das estações, da vida e da morte, a alternância entre dia e noite, tudo o que se inicia e se acaba nos serve de marco para compreendermos a temporalidade de forma quantitativa e mensurável.

No entanto, no começo do século XX, Einstein e Minkowski demonstraram que existem variáveis susceptíveis de modificar essa mensuração temporal, sendo a primeira o fato de que o tempo de duração do trajeto de um ponto ao outro – e, portanto, a relação tempo-espaço – dependerá da velocidade de percurso, e, a segunda, a posição do observador. Isso significa que, em função da velocidade de percurso e da situação no espaço do observador, o instante temporal deste último nunca será o mesmo do que o daquele que se encontra realizando o trajeto. Onde pensamos haver simultaneidade, não há senão desfase e relatividade. Vemos então que as dimensões temporais e espaciais estão intrincadas de tal modo, que formam uma mesma realidade, que, por ser variável, descarta a possibilidade do absoluto. Alguns anos mais tarde, Einstein dará o golpe fatal à confortável teoria newtoniana, afirmando que o espaço-tempo sofre a influência da matéria, e que, portanto, não é linear, senão curvo, em movimento e em expansão. Um movimento caracterizado não apenas pela maleabilidade de sua forma, mas também pela velocidade que o anima.

Portanto, quando o motorista do Uber indagou se eu havia percebido que cinco minutos, hoje, duram menos do que cinco minutos “antes”, eu poderia ter respondido: “Veja, depende. Como tudo é relativo, talvez cinco minutos nunca durem cinco minutos”. No entanto, sabia que ele estava se referindo a uma experiência constante, inúmeras vezes verificada, e que lhe estava causando preocupação e angústia. Ou seja, uma experiência subjetivamente perceptível e mensurável.

De fato, existe outro aspecto a considerar. O tempo é uma abstração cognitiva que, além de ser tributária do espaço no qual ela se implanta, também é eminentemente subjetiva. Bergson (1968) explica que só temos acesso à temporalidade das coisas que nos rodeiam a partir de um “tempo interno”, no qual cada momento se encontra tecido pela memória do precedente, o que impede que ele não seja mais do que um instantâneo, e permite que a temporalidade própria se decline em uma continuidade de instantes que se prolongam nos seguintes.

Um filósofo contemporâneo, Hermann Lübbe, explica então que o presente consiste no “período de tempo em que coincidem o espaço da experiência e o horizonte da espera” (Lübbe, citado em Rosa, 2017. Tradução minha). Nosso presente é, portanto, diretamente tributário de nossas experiências passadas e de nossas expectativas e desejos. Compreendemos, então, a importância de que esse espaço-tempo que denominamos “presente” seja suficientemente estável e durável psiquicamente para que possamos aprender com o passado e nos projetarmos no futuro.

O sociólogo Hartmut Rosa sustenta que os países ocidentais, desde o início da industrialização, vêm lutando com um tríplice processo de aceleração, devido à crescente velocidade dos transportes e da comunicação: uma aceleração técnica, social e do ritmo de nossas vidas. Ele argumenta que, devido à pressão que a aceleração técnica e social exerce sobre nossos quotidianos, comprimindo nosso ritmo de vida, nossa percepção do tempo está se dissolvendo, o que vem causando em nós uma “fome temporal” (Rosa, 2017). Lübbe identifica, do mesmo modo, um fenômeno de “compressão” de nosso presente, que vem engendrando estresse e mal-estar. Assim mesmo, a aceleração tem um impacto direto em nossa percepção do espaço, que também se contrai (Rosa, 2017).

Portanto, entendemos que, se a velocidade tem um impacto direto sobre uma duração, ela imprime os mesmos efeitos sobre o espaço que corresponde a essa duração. Quanto mais velocidade, menos tempo e, portanto, menos espaço.



Com Rosa, podemos nos questionar: como é possível que o progresso tecnológico, que permite realizar ações mais rapidamente, em vez de ampliar nosso solo espaço-temporal, esteja restringindo-o? A resposta, diz-nos o autor, reside no fato de que a aceleração não é a consequência do progresso técnico: a tecnologia somente torna possível “o aumento do número de episódios de ação ou de experiência por unidade de tempo” (2017). Ou seja, o progresso somente possibilita o acelerar. Quem acelera é o ser humano.

Como dissemos, esse fenômeno teve início com a era industrial, marcada pelo aparecimento e o aperfeiçoamento de meios de transporte e de comunicação, que revolucionaram a economia e o quotidiano das populações. Trem, telégrafo, telefone, automóvel, avião… Somente enumerando esses poucos itens, temos a impressão de um movimento que se embala. Se estudos mostram que sintomas, tais como empobrecimento do vocabulário, agressividade e focalização sobre si próprio, exacerbados hoje pelo uso intensivo das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs), já constavam no começo do século XX como efeitos da aparição do telefone e da banalização de seu uso (Aronson; Moitessier, 1992), é inegável que as TICs acentuaram com força o que, então, apenas começava a se revelar.

Com respeito à temporalidade, as TICs modificaram dois fatores fundamentais de determinação das unidades temporais: em primeiro lugar, elas facilitaram de modo exponencial a multiplicação das ações em uma mesma unidade. Um exemplo simples: nos anos 1990 (época do incremento da comercialização do computador pessoal), para escrever uma carta, enviá-la e que a mesma fosse lida por seu destinatário, eram necessários vários dias, até mesmo semanas, dependendo das cidades ou dos países dos correspondentes. Em nossos dias, para realizar o mesmo processo com uma mensagem eletrônica, são necessários apenas alguns minutos. O que significa que, durante a mesma unidade de tempo que caracterizava a escrita e o recebimento de uma missiva por via postal há uns 30 anos, constatamos que é hoje possível redigir, enviar e receber centenas de missivas por via eletrônica. Paradoxalmente, a percepção do motorista era de que uma unidade de tempo lhe possibilitava realizar menos ações do que “antes”. Tal percepção é reveladora das consequências do processo de aceleração: ao tempo que podemos fazer mais coisas, não habitamos nossos atos, que se multiplicam e se automatizam, fugindo à nossa consciência. Resumindo: não conseguimos mais “ser” onde “fazemos”, e o ato não é assimilado como experiência.

Em segundo lugar, as TICs induziram em nossas comunicações uma experiência de aparente simultaneidade que torna extremamente difícil a representação mental do espaço que nos separa. Mencionamos acima o exemplo do telefone: o que dizer, hoje, de uma videoconferência com um interlocutor situado do outro lado do planeta? Como gerenciamos psiquicamente o fato de poder conversar desde o Recife, num sábado às 22h14, com alguém que está em Tóquio, sendo que, para nosso interlocutor, é dia de domingo e são 10h14 da manhã? Esbarramos com a teoria da relatividade, que não podemos mais ignorar. Aqui e agora, é sábado e é domingo. É de noite e é de dia. E, como vemos nosso correspondente, temos, do mesmo modo, que assimilar o fato de que ele esteja coberto de agasalhos, já que lá é inverno, enquanto que nós mesmos estamos de short e camiseta, colados ao ventilador. Constatamos então que não vivemos em um mesmo espaço-tempo, mas que existe uma temporalidade e uma espacialidade próprias à nossa comunicação, que não parece ser tributária da realidade imediata de cada um. Como poderíamos pensar um só segundo que isso não nos custa trabalho, do ponto de vista cognitivo? De fato, em nossa sociedade hiperconectada, somos obrigados a fornecer esse esforço adaptativo de modo contínuo. Investimos psiquicamente, de modo incessante, em espaços-tempos efêmeros, que duram o tempo de uma comunicação online e se desfazem instantaneamente ao desligar. Mesmo que, subjetivamente, o tempo do encontro, ligado aos afetos, possa perdurar.

Quando falamos da internet e das comunicações que nela se tecem, costumamos utilizar o termo de ciberespaço. Observamos, assim, que as TICs dão lugar a uma dimensão espaço-temporal distinta daquela na qual vivemos habitualmente. Mas, após o explicitado acima, vemos que não se trata de um espaço-tempo único, senão de um emaranhado de espaços-tempos. A teia de nossas comunicações é, na verdade, uma teia de espaços-tempos distintos e vertiginosamente multiplicados…

Agora, pensemos um segundo… quanto tempo por dia passamos comunicando, ou comunicados, seja por fone, redes sociais, mensagem, e-mail etc.? Se, por uma parte, compreendemos o fato de que cada comunicação inaugura uma espaço-temporalidade única, e, por outra, constatamos que nos comunicamos cada vez mais, com cada vez mais pessoas, em cada vez menos tempo, como podemos estranhar que essa aceleração esteja comprimindo nosso presente? E que esse fenômeno não seja unicamente subjetivo, mas real. Absolutamente real.

Temos, por consequência, menos tempo para assimilarmos os acontecimentos passados, e menos tempo para nos projetarmos no futuro. Ou seja: menos tempo para experimentarmos a continuidade de nosso próprio ser, vivência indispensável ao nosso equilíbrio psíquico, identificada por Winnicott como going-on-being (Winnicott, 1960a e 1960b). Parecemos, assim, ursos em uma banquisa que, por conta do aquecimento global, veem o solo embaixo suas patas se estreitar mais e mais. E essa banquisa, que se derrete, é o nosso presente. Assim, cinco minutos, hoje, abrem de fato uma possibilidade menor de experiência da continuidade de nosso ser, tecida pela memória do passado e pela perspectiva do futuro, do que no início dos anos 1990. Por isso, após refletir, terminei por responder ao motorista: “Sim, o Sr. tem razão. O tempo passa mais rápido hoje do que antes”. E acrescentei: “O Sr. se importa em diminuir a velocidade? Creio que perdi a pressa…”.

Referências
Aronson S. H., Moitessier A. (1992). Téléphone et société. In: Réseaux, vol. 10, n°55. Les usages du téléphone. P. 11-23. https://www.persee.fr/doc/reso_0751-7971_1992_num_10_55_2030
Bergson, H. (1968). Durée et simultanéité. À propos de la théorie d’Einstein. Paris: PUF.
Rosa, H. (2017). Aliénation et accélération Vers une théorie critique de la modernité tardive. Paris: La Découverte. Formato e-book.
Winnicott D.W. (1960a). Distorção do ego em termos de verdadeiro e falso self. in: Winnicott, D.W. (1983) O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed. p. 128-139.
Winnicott, D.W. (1960b). The theory of the parent-infant relationship. Int. J. Psycho-Anal., n°41. P. 585-595.

VÉRONIQUE DONARD é coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da Unicap.
LUÍSA VASCONCELOS é estudante de Design e ilustradora.

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