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Crítica

Quem foi V. S. Naipaul?

Um comentário à obra do escritor de origem indiana, nascido na ex-colônia Trinidad e Tobago e Prêmio Nobel de 2001, que encontrou milhares de fãs pelo mundo, mas também a crítica de pares

TEXTO KELVIN FALCÃO KLEIN

01 de Novembro de 2018

A insistência inicial de Naipaul de se tornar escritor era quase uma superstição, um elemento mágico, algo que estará presente em toda sua obra e em todas suas declarações

A insistência inicial de Naipaul de se tornar escritor era quase uma superstição, um elemento mágico, algo que estará presente em toda sua obra e em todas suas declarações

Foto Ulf Andersen/AURIMAGES/AFP/ Divulgação

[conteúdo exclusivo para assinantes | ed. 215 | novembro de 2018]

I
É inegável que
o mundo se transformou depois da Segunda Guerra Mundial, tanto em aspectos materiais quanto em aspectos intangíveis. A destruição da Europa durante o conflito gerou como resposta o esforço de reconstrução desse espaço, o que, por outro lado, gerou um surto de progresso material nos Estados Unidos da América, por exemplo. Esses anos posteriores à guerra geraram também um movimento global de renovação histórica, especialmente nas nações coloniais – e o caso da Argélia é paradigmático. A Revolução Argelina começou em 1954 e durou até 1962, quando o país africano declarou sua independência da França. Poucos anos depois, esse movimento alcançaria também as nações africanas lusófonas, por exemplo, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Angola e Moçambique.

O ano de 1962 marca também a independência de Trinidad e Tobago, dessa vez da Inglaterra. Foi nesse pequeno país insular no Mar do Caribe que nasceu Vidiadhar Surajprasad Naipaul, mais conhecido como V. S. Naipaul, em agosto de 1932. Seus avós chegaram ao país emigrando da Índia no final do século XIX, também uma possessão britânica na época. Naipaul cresceu bilíngue, falando híndi e inglês, até que, em 1948, ganha uma bolsa de estudos oferecida pelo governo de Trinidad. A bolsa oferece a possibilidade de estudar em qualquer universidade ou instituição de ensino superior na Comunidade Britânica, na área escolhida pelo contemplado. Naipaul escolhe Oxford e parte para a Inglaterra em 1950, com o intuito de se formar em inglês e se tornar escritor.

Em um ensaio autobiográfico intitulado Ler e escrever (presente no livro de mesmo nome, Editora Âyiné, 2017), Naipaul escreve que sua escolha não era nem por Oxford, nem pelo curso de inglês, mas “principalmente para fugir para o mundo mais amplo e para me dar tempo de dedicar-me à minha fantasia de ser escritor”. A escrita, contudo, não chegava, não se apresentava a ele, e Naipaul sofreu por anos essa defasagem entre sua vontade e a capacidade de realizá-la. “Um dia, do fundo da depressão em que eu estava me afundando”, continua ele no mesmo ensaio, “comecei a ver qual poderia ser minha matéria-prima: a rua de cuja vida urbana nós nos mantivemos afastados, e a vida no campo antes disso, com os modos e os costumes de uma Índia relembrada”. Vivendo na Inglaterra – no centro do império, por assim dizer – e lutando para se estabelecer como escritor, Naipaul se dá conta, abruptamente, de que precisava retornar ao começo, retornar a Trinidad, à família e ao contexto colonial de forma geral. “Para começar como escritor”, conclui ele, “eu tinha precisado voltar ao começo, e retraçar meu caminho – esquecendo Oxford e Londres – até as primeiras experiências literárias, algumas delas nunca compartilhadas por mais ninguém, que tinham me dado minha própria visão do que me afligia”.

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