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Sob a regência de Oxum

Ialorixá devotada à orixá das águas doces, Beth de Oxum atua em várias frentes para defender a comunidade em que vive e as manifestações culturais de matriz afro-brasileira

TEXTO EDUARDO MONTENEGRO
FOTOS MARCELO SOARES

01 de Julho de 2018

Mãe Beth de Oxum, no terreiro que lidera, em Guadalupe, Olinda

Mãe Beth de Oxum, no terreiro que lidera, em Guadalupe, Olinda

FOTO Marcelo Soares

Ela nasceu no ano do golpe militar, talvez, como um prenúncio do destino, como se os orixás estivessem dizendo que aquela menininha, nascida já em berço do candomblé, nos ventres de Guadalupe, em Olinda, usaria sua voz, seu corpo e seu axé pela cultura de seus ancestrais e de sua gente, contra as violações e a injustiça. Foi parida, também, no mesmo dia em que Olinda e Recife fazem aniversário. Oxum, entidade africana relacionada às águas doces, desde seu primeiro choro, já a havia escolhido para si: seria sua sacerdotisa, uma ialorixá que ergueria um terreiro em homenagem à orixá representada pelo amarelo da abundância e da beleza.

Um terreiro que, logo na entrada, sugere uma atmosfera de paz característica das águas doces. Daquelas que acolhem mesmo. Assim é Mãe Beth de Oxum (nascida Maria Elizabeth Santiago de Oliveira), de 54 anos, artista, compositora, mãe de santo, ativista cultural e coordenadora do Ponto de Cultura Coco de Umbigada, que funciona a poucos passos da Igreja Nossa Senhora de Guadalupe, no Beco da Macaíba, Cidade Alta de Olinda.



Na casa de dois andares pintada de amarelo, para todo canto que se olhe existe a presença de Oxum, de objetos a imagens, tudo ali remete à orixá. A casa abriga um ponto de cultura, a Rádio Amnésia, o terreiro, os cômodos da família e, no último andar, um restaurante. O portão já enferrujado nunca está trancado, a única coisa que Mãe Beth exige é que se tirem os sapatos ou sandálias para pisar no terreiro. É terra sagrada, explica, mostrando com orgulho a cultura afro-brasileira que defende e na qual milita.

“Quando é que você sabe que é de um orixá? Abre o Ifá, a mãe de santo, o pai de santo, o babalorixá, a ialorixá, abre. Diz-se o seu nome completo, data de nascimento e, naquele jogo, com aquela caída, o orixá fala. Naquela caída, Oxum falou. Eu sou de Oxum, até muito antes disso, porque nosso orixá é nosso ancestral. Eu sou de Oxum desde o tempo da água, quanto não tinha gente, a humanidade não tinha chegado, eram os elementos da natureza. O nosso ancestral mais longínquo é o elemento, é o fogo, a água, a terra e, no meu caso, são as águas doces”, ensina a ialorixá, sentada numa cadeira feita de palha em seu terreiro, em frente a um estandarte com sua mãe Oxum pendurado na parede.


           
 
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