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Confessional e autobiográfico

Nos romances e contos que escreveu a partir dos anos 1950 até sua morte, Hermilo Borba Filho realizou uma obra de resistência política e autoexposição

TEXTO Luiz Roberto Leite Farias

01 de Julho de 2017

O escritor e encenador Hermil Borba Filho

O escritor e encenador Hermil Borba Filho

Foto Acervo de família/cortesia

[conteúdo vinculado ao especial da edição 199 da Revista Continente | julho 2017]

Nos anos 1950, o pernambucano Hermilo Borba Filho, após um longo período dedicado a uma carreira bem-sucedida na dramaturgia, lança sua primeira obra de ficção literária, Os caminhos da solidão (1957), e só volta a publicar sete anos depois, Sol das almas (1964). Mas é a partir do lançamento de sua tetralogia, Um cavalheiro da segunda decadência (1966 –1972), que sua literatura alcança destaque da crítica em todo o Brasil e no exterior, recebendo também o prêmio Chevalier de L’Ordre des Arts et des Lettres do governo francês.

Os romances da tetralogia – Margem das lembranças (1966), A porteira do mundo (1967), O cavalo da noite (1968) e Deus no pasto (1972) – narram a vida do personagem Hermilo, em tom altamente confessional, ao longo do século XX, através de todas as convulsões políticas e guerras que atribularam o Brasil e o mundo. Dentre os dramas políticos vividos pelo protagonista, destaquem-se duas ditaduras, a de Getúlio Vargas, nos anos 1930 –1940, e a ditadura militar dos anos 1960 –1980. Esses momentos da história do Brasil marcariam consideravelmente a ação e o desenvolvimento dos personagens do autor pernambucano, sempre às voltas com a resistência em meio a um sangrento jogo de poder, especialmente em sua obra-prima, Agá (1974), último romance publicado em vida, e que vem a ser um verdadeiro memorial da tortura e dos abusos do poder de estados totalitários.

Quando Hermilo Borba Filho inicia sua tetralogia monumental – de aproximadamente mil páginas –, já na primeira página de Margem das lembranças, o narrador apresenta seu projeto de literatura: “Teço, neste papel, um passado real, às vezes, e, outras, puramente imaginado na esperança de que no fim Deus confunda o que vivi e o que inventei e me dê um saldo favorável para uma modesta pensão no Purgatório”. Esse projeto literário, e até ardiloso – ao tentar passar uma perna em Deus com as narrativas –, caracteriza bem o que foi boa parte da obra de ficção de Hermilo Borba Filho: uma literatura carregada no tom confessional e autobiográfico, uma literatura que se utiliza do romance como forma perfeita para seu objetivo, ou seja, dar conta de uma vida inteira, de uma totalidade da experiência ou, como diz ainda seu personagem: “Eu estou na balança. Todos os meus atos estão num dos pratos da balança. De um lado, os demais: muitos deles sou eu, metamorfoseado, irreconhecível, adulterado; do outro, eu mesmo, integral, de carne, as pernas penduradas no vazio. E me jogo numa longa viagem do útero à morte”.

Quando começou a publicação dos livros de Um cavalheiro da segunda decadência, Hermilo Borba Filho já havia lançado dois romances relativamente convencionais, mas, a partir do primeiro volume da tetralogia, Margem das lembranças, o autor — já perto dos 50 anos de idade — surge com um comando e renovação da linguagem surpreendentes, o que, no romance brasileiro, eram tarefas capitaneadas por Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Hermilo Borba Filho passa, então, a dominar uma linguagem fluida, às vezes levemente pontuada, lírica, onírica, de êxtase, e muitas vezes desesperadamente erótica. Em sua literatura, os narradores apresentam-se totalmente desnudados, com uma coragem tremenda em passar a limpo a vida, não sem certa reação, na vida real, de outros “coadjuvantes” que poderiam ser reconhecidos na biografia do autor pernambucano. Isso levou Borba Filho a se defender sobre o assunto, sobre a ambiguidade biográfica de seus romances (em entrevista publicada na revista Veja, em 1976, uma semana após sua morte): “(…) são escritos na primeira pessoa do singular, parecendo contar muita coisa da minha vida, escandalizando pela rudeza e pela nudez, a minha nudez e a dos outros, obsessivamente fiel à frase de James Joyce: ‘Não sei escrever sem ferir ninguém’. E à minha própria declaração: ‘Se não me poupo, como vou poupar os outros?’”. Certamente, a expressão “parecendo contar muita coisa da minha vida” é a deixa para a indecisão nesse tipo de literatura ficcional. Embora alguns prováveis inspiradores dos personagens tenham se queixado, nunca será possível saber, em detalhes, o que foi factual ou simplesmente inventado pelo autor.

ERÓTICA E MÍSTICA
Hermilo Borba Filho, de tanto escandalizar “pela rudeza e pela nudez”, acabou por ficar um pouco marcado pela fartura de sexo em suas páginas, e – diga-se de passagem – belas páginas. Isso levou o autor a falar diversas vezes sobre o assunto, como na entrevista à revista Ele e Ela, coletada pela escritora Sonia Maria Van Dijck Lima, em Hermilo Borba Filho: fisionomia e espírito de uma literatura (1986): “O que acontece é que eu considero o sexo uma coisa normal (o que é a anormalidade?), própria do homem, enorme, divina. As criaturas dos meus romances copulam tanto quanto qualquer criatura de carne e osso, tanto como se come, bebe, se dorme. Os mais requintados, os mais poetas, inventam coisas. Mas o exemplo já vem da Bíblia…”.

Além dessa espécie de sexo naturalista, quase animal, o aspecto divino – em relação ao sexo e o erotismo – não pode ser desprezado, assunto já tão discutido por George Bataille em O erotismo (2013). Olhando por esse viés, é possível ver que os personagens hermilianos, em geral, parecem, muitas vezes, perderem-se em vidas totalmente dissolutas. No entanto, com o desenvolver das narrativas do autor, é possível ver que a presença do sexo e do erotismo se afastam de uma ação por pura luxúria e lascívia, indo, portanto, em direção a uma busca por coisas relacionadas simbolicamente com o erotismo, no caso, com a própria ideia de Deus, o que sempre pareceu ser o propósito da longa tetralogia: uma purgação e uma busca de amadurecimento espiritual.

O sexo, assim, muitas vezes funciona como um gatilho para visões e devaneios, em vários momentos de sua literatura, nos quais Hermilo Borba Filho, do alto de sua forma estilística, imprime toda a carga poética a sua prosa, como na passagem do segundo volume, A porteira do mundo, em que ele se eleva em delírio aos céus do Recife, após uma noite tórrida com uma prostituta do Bairro do Recife Antigo: “E todas as luzes se extinguiram: do Sol, da Lua, das estrelas, dos postes, das casas, dos fifós, era uma treva asfixiante, minha barba crescia e formava uma escada por onde iam subindo os bêbados, as prostitutas, os pederastas, todos os cornos do mundo, padres simoníacos, políticos, ladrões e assassinos e, enquanto subiam, alcançando a minha boca eu os cuspia para o infinito e era engraçado de ver as cabriolas que davam, um olho para aqui, um culhão para ali, um baço acolá, todos os corações se reunindo num só, crescendo, ainda opaco, pouco a pouco iluminando-se e tornando-se rubro, cercado por estrelas de espinhos que se enterravam cada vez mais na carne, tudo isto porque, mais uma vez, eu encontrara Deus na merda”.

Além dos aspectos autobiográficos, confessionais e da forte presença do erotismo, a literatura de Hermilo Borba Filho é marcada pela sátira às relações de poder na sociedade. Seus romances não se calam na defesa da liberdade do homem e na luta contra os abusos do poder, contra a repressão e a tortura dos que se rebelam contra estados autoritários. Como diz ainda o autor, na entrevista à revista Veja, pouco antes de morrer: “Pertenço a uma ‘cultura de resistência’ e justamente porque a liberdade e a dignidade do homem estão em crise é que utilizo a única arma que tenho – minha ficção – para combater a intolerância sob qualquer aspecto em que se apresente”. Depois, mais à frente, ele dispara: “Não vejo como o artista possa ficar indiferente, com escapismos, à sua época. A literatura bem-comportada prefere desconhecer a cultura de resistência e se refugia em campos onde os valores do homem atual são relegados a um plano de masturbação intelectual. Não participa, não age, não se compromete, enfim, tem nojo das mazelas do homem. Como praticar uma literatura que se alheie totalmente das torturas, dos campos de concentração, da fome, das guerras, dos genocídios, dos cinismos políticos, da diplomacia econômico-financeira? Como burilar um verso de amor se a qualquer momento podemos, pela explosão, desaparecer? Amor é denunciar tudo isto. Esta é a nossa missão: gritar. É infelizmente a época para isso: para uma literatura de gritos, de protesto ou morte”.

O ROMANCE AGÁ
Ao fim dos anos 1960, apesar de toda a paixão de Hermilo Borba Filho pelo teatro e a cultura popular, sobre os quais escreveu inúmeras peças teatrais e textos teóricos, seus problemas cardíacos afastaram-no mais e mais dos palcos e das salas de aula. Ao final da vida, parecia estar feliz com o resultado de sua ação como escritor de romances e contos, como atesta a pesquisa sobre o pensamento teatral de Borba Filho, de Luís Augusto da Veiga Pessoa Reis, Fora de cena, no palco da modernidade: um estudo do pensamento teatral de Hermilo Borba Filho (2008). E é em 1974, quando o autor já tinha sua saúde e forças totalmente deterioradas, que ele publica seu último romance em vida, Agá, um insuspeitado tour de force para um coronário crônico e sobrevivente das pioneiras cirurgias do coração, no Brasil.

E já de saída, essa – aparentemente – inocente denominação de Agá como um “romance”, apresenta-se como problema para o leitor, porque a obra é narrada por uma dezena de personas, com a adição de alguma função ou papel: “Eu, embaixador”; “Eu, padre”; “Eu, guerrilheiro”, “Eu, hermafrodita” etc. Apesar dessa variedade, todos aparentam ter alguma unidade na personalidade, nas memórias da infância, no nome das companheiras – no caso, a quase onipresente Eva – sugerindo que todos realmente não passam de um “Eu, Agá”, ou um “Eu, ator”, que troca constantemente as máscaras ao longo da ação.

Há também o problema do “enredo” desse romance inusitado. Afinal, qual é a história ou aventura de Agá? Os diversos narradores vivem seus episódios em espaço e tempo ora diferentes, ora em momentos quase simultâneos. No entanto, mais uma vez, as narrativas sugerem uma constante, um fio espaçotemporal que os liga: todos os narradores vivem em estados dominados por um poder autoritário e opressor, com algumas indicações históricas ou topográficas que os situam no Brasil e na América Latina, entre os anos 1960 e o ano de 2005, sem falar na história em quadrinhos no centro do livro, que faz um apanhado histórico brasileiro de quase 500 anos do martírio e da aniquilação de rebeldes.

Em Agá, Hermilo Borba Filho testa todos os limites da forma do romance, pelo menos quanto à maneira pela qual o autor vinha desenvolvendo sua literatura. E, embora os elementos de confissão, erotismo e resistência se mantenham, o contexto brasileiro (no auge dos anos de chumbo) e da vida pessoal do autor – talvez pressentindo a própria morte – levam a narrativa às últimas consequências, ao acirramento de seu estilo, com o romance sendo fortemente assolado pelas revelações mais íntimas, muitas vezes imersas em franco estado de loucura. O romance é também impregnado do grotesco, ou seja, nas imagens do corpo e de seus fluidos, nas deformações, na monstruosidade e nas hipérboles das ações e da linguagem. Por tudo isso, as páginas de Agá são impregnadas de masturbadores, de hermafroditas em cópulas as mais variadas e em diversas combinações. Há também o dilaceramento e o despedaçamento de prisioneiros torturados, e que têm seus sacrifícios comparados ao de Cristo, em bela alegoria de uma Santa Ceia realizada nos porões da tortura.

Por fim, em Agá, os militares, ditadores e políticos que exercem o poder são representados nas situações mais grotescas, em meio a bizarrices sexuais com fezes de prostitutas e sendo seduzidos, em situações hilárias, pelo ardiloso Agá Hermafrodita, um dos melhores anti-heróis da literatura de Hermilo Borba Filho. Assim, em Agá, o poderoso é visto, se seguirmos uma concepção de Michel Foucault, em seu Os anormais (2010), como um poderoso bufão e grotesco – curiosamente atual. São ditadores e poderosos que se autorrebaixam e chocam todos aqueles que poderiam esperar ações superiores dos que estão no alto do poder. É um poderoso que se autodeprecia e se rebaixa em comportamentos circenses e animalizados, enquanto, ao mesmo tempo, mata e tortura com prazer sádico. Por essa compreensão dos poderosos bufões, Agá é uma obra que deveria ser, mais do que nunca, relida.

OS CONTOS
Hermilo Borba Filho, ainda no início dos anos 1970, também se dedica aos contos. Quanto a esses, Borba Filho foi ficcionista primoroso, e sua trilogia de contos atesta o nível de excelência ao qual o autor pernambucano chegou, embora ele não tenha mais experimentado tanto com a forma. Mas os livros de contos, O general está pintando, Sete dias a cavalo e As meninas do sobrado – que ele preferia chamar de novelas – são fruto de um controle total da técnica da escrita, do estilo literário e do conhecimento profundo da arte popular.

Os contos, fortemente inseridos no realismo mágico e nas narrativas populares do cordel, do teatro de marionetes, dos autos e mistérios, também são carregados do grotesco: nas bizarrices dos relacionamentos amorosos entre humanos e animais, em As meninas do sobrado; nas caracterizações monstruosas dos filhos de um latifundiário, em Sete dias a cavalo, que mais parecem ter saído de um quadro de Bosch e os sete pecados capitais; e também na força do corpo grotesco feminino, que atualiza, sobremaneira, a literatura de Hermilo Borba Filho, especialmente quanto às discussões sobre a normalização e o controle do corpo da mulher, como no belíssimo O arrevesado amor de Pirangi e Donzela ou o Morcego da meia-noite — em O general está pintando. Nesse conto, uma personagem marginal e pária da sociedade, Donzela, uma mendiga, consegue transtornar toda a estrutura social de uma cidade, ao seduzir o controlador das horas da comunidade, o vigia Pirangi, levando a pequena comunidade ao caos e a eventos escatológicos.

Por fim, no conto que dá o título ao livro O general está pintando, os militares surgem como pequenas marionetes mecânicas e cômicas, que realizam os preâmbulos para a realização de um hobby, uma tarde de pintura de um general. Este, depois de acenar para as madames e assoviar alguma cantiga, enquanto sorve uma bebida, só consegue o tom desejado de vermelho com o sangue de uma criança. Dessa forma, percebe-se que, mesmo nos contos – e sua linguagem altamente poética –, Borba Filho continuava sua empreitada de fustigar o regime militar, e assim o autor seguiu, em sua ficção, até o fim.

REDESCOBERTA
Em 2017, no ano do centenário de nascimento de Hermilo Borba Filho, ao olharmos para a sua literatura, desde sua última publicação – o pequeno romance póstumo Os ambulantes de Deus, em 1976 –, ainda é possível ver sua obra dialogando com temas e aspectos da literatura do século XXI, apesar de esta ter, aparentemente, se domesticado um pouco quanto a experimentos formais. O fato é que Borba Filho utilizou-se de todas as possibilidades que, desde James Joyce, até então, a forma do romance permitia, resultando – especialmente em Agá – numa obra de leitura desafiante, de sentido aberto, fragmentada, de enredo mínimo ou nenhum, com a forte presença da ironia e da metalinguagem, ou seja, quanto a esse último aspecto, uma literatura que dialoga consigo mesma, muitas vezes pela voz do narrador que discute seu próprio processo de criação artística e escrita.

No entanto, segundo a professora Leyla Perrone-Moisés, no recém-lançado Mutações da literatura no século XXI (2016), a literatura parece ter voltado a uma forma mais conservadora e de uso segundo as convenções realistas, algo do qual Hermilo Borba Filho vinha se afastando, quando faleceu. Ainda assim, seguindo Leyla Perrone-Moisés, se pudermos comparar a literatura de Borba Filho com algumas das tendências dos últimos anos, é possível fazer relações com os gêneros das distopias e, especialmente, com o gênero da autoficção. 

Quanto à autoficção – essa forma confessional ambígua –, a literatura de Hermilo Borba Filho pode ser relacionada com a obra de escritores como José Castello, Cristóvão Tezza, Sérgio Sant’Anna, Miguel Sanches Neto, entre outros, em que a ficção se confunde com a autobiografia e, muitas vezes, os narradores – como o personagem Hermilo – carregam os mesmos nomes dos autores.
Já quanto ao renovado interesse por distopias, como o 1984, de George Orwell, e em meio a recentes tentações fascistas e a disseminação da intolerância, da homofobia, da misoginia e da xenofobia, no Brasil e no mundo afora, a literatura de Hermilo Borba Filho soa mais do que nunca como advertência e reflexão, como no romance Agá. Nesta obra, um romance escrito sob a sombra de uma bomba nuclear e da tortura, o Brasil é representado como um país oprimido e privado de toda e qualquer liberdade do homem.

Por fim, há muito ainda o que se explorar ou se redescobrir na obra de ficção literária de Hermilo Borba Filho, uma arte que apresenta o que de melhor a literatura pode propiciar aos seus leitores: ela não só provoca um novo olhar sobre a realidade e a existência, mas, principalmente, nos encoraja sempre a nos colocarmos uns nos lugares dos outros. 

 

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