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Paisagem: Um sertão intocado

'A história da eternidade', primeiro longa do diretor Camilo Cavalcante, foi o grande premiado este ano no Festival de Paulínia

TEXTO Luciana Veras

01 de Setembro de 2014

O chão rachado, as árvores secas e o horizonte têm papel central na trama

O chão rachado, as árvores secas e o horizonte têm papel central na trama

Foto Nicolas Hallet

Na noite de 27 de julho passado, na van que o transportava do Theatro Municipal Paulo Gracindo, sede do 6th Paulínia Film Festival, para Campinas, o cineasta pernambucano Camilo Cavalcante conversava com jornalistas e com parte do seu elenco e equipe enquanto fazia malabarismos para segurar um punhado de troféus. Um pouco antes de se despedir de todos, o veículo brecou e rolou pelo chão uma das estatuetas douradas (se alguém for se dedicar a um estudo, talvez a constatação seja a dificuldade em escapar à influência do Oscar). “Eita, segura”, disse Camilo, enquanto se esticava para resgatar o prêmio.

Seu primeiro longa-metragem, A história da eternidade, havia acabado de vencer quatro categorias na competição do festival cinematográfico realizado na cidade localizada a 120 km de São Paulo: melhor filme, diretor, ator – para o pernambucano Irandhir Santos, e atriz para as três mulheres que dão vida às sertanejas arquetípicas de Camilo: a cearense Débora Ingrid e as paraibanas Zezita Matos e Marcélia Cartaxo. O filme também ganhara o prêmio da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Ou seja, saíra como o grande campeão do encerramento do evento, cuja seleção incluía, entre outros, Sangue azul, do também pernambucano Lírio Ferreira, as novas produções de veteranos como Domingos de Oliveira e Murilo Salles e outros três primeiros longas – Casa-grande, de Fellipe Barbosa, Boa sorte, de Carolina Jabor, e Castanha, de Davi Pretto.

Dias depois, membros do júri relatariam na imprensa que os laureados já haviam sido discutidos e decididos até a derradeira noite de exibições no festival, que, neste ano, tinha retomado o formato de mostras competitivas de curtas e longas-metragens, ao contrário da apagada edição ocorrida em dezembro de 2013. Quando passou o filme de Camilo, 39 anos e uma prolífica carreira de realizador iniciada em 1995 com o curta Cálice, reconfigurou-se o mapa da distribuição de “meninas douradas” (o nome do troféu em Paulínia). Assim, lá estava o recifense com uma “menina dourada” na mão, tentando recuperar a outra que caíra com a freada. Ao reaver seu segundo troféu, a van parou e chegou a hora de Camilo descer. Seguiu-se uma outra rodada de congratulações e requisições de uma farra (só o prêmio de melhor filme lhe rendeu R$ 300 mil; o de melhor diretor, R$ 100 mil), e ele, que ainda encararia outros 100 km até o aeroporto de Guarulhos, para embarcar num voo da madrugada, despediu-se de todos confessando: “Só depois é que eu vou entender o que danado acabou de acontecer hoje”.

Em reportagem publicada na Continente de fevereiro de 2013, Camilo descrevia A história da eternidade, filmado entre outubro e dezembro de 2012, em Santa Fé, uma comunidade isolada a cerca de 60km de Petrolina, no sertão pernambucano. “São três improváveis histórias de amor que se cruzam no mesmo espaço, à beira do desespero”, disse o diretor, acrescentando que, para fazer um “cinema artesanal”, a equipe havia mergulhado junto “no tempo do local”. “Nada pode ser maior do que a emoção, que é o essencial”, resumiu à época. A julgar pelo ocorrido durante a sessão em Paulínia, pode-se afirmar que ele atingiu o objetivo de transmitir ao público essa emoção que tratou de incutir no elenco na temporada de imersão e filmagens. Em pelo menos dois momentos cruciais, palmas e lágrimas irromperam na plateia. E se o cineasta repetia que “a ficha não tinha caído” depois da premiação, ao menos sabia que ninguém ficara imune ao que se mostrava na tela.


Atriz interpreta uma vovó religiosa que vive novas experiências após a volta do neto para o Sertão. Foto: Divulgação

NORDESTE INTOCADO
Sua trama reúne, num povoado com meia dúzia de casebres, dois irmãos (Cláudio Jaborandy e Irandhir Santos) que mimetizam Caim e Abel, com a filha de um deles (Débora Ingrid) como foco de tensão e disputa de afeto; uma mulher (Marcélia Cartaxo) abandonada pelo marido e cortejada por um sanfoneiro cego e insistente (Leo França); e uma religiosa e solitária avó (Zezita Matos), que experimenta o frescor de sensações há muito esquecidas quando o neto (Maxwell Nascimento) retorna de São Paulo. A paisagem – chão rachado, árvores secas, vastidão de horizonte sem qualquer resquício de contemporaneidade – é personagem também.

“A pequena comunidade onde filmamos tem referências próprias de tempo e espaço. Lá, não pega celular e a única comunicação é através do orelhão que aparece no filme. É um Nordeste intocado, sem internet. É um sertão sem o desenvolvimento todo da Transnordestina, da transposição do São Francisco.” O sertão intacto, prossegue o diretor, foi “essencial para o processo da história que estávamos contando”. “Aquele sertão é uma perfeita metáfora da alma humana. Lá, as relações interpessoais acontecem de maneira mais honesta, mais direta, mais franca, ao contrário dos entornos urbanos, onde tudo fica escamoteado”, diz à Continente.

Camilo não trabalhou com preparador de elenco, como revelou em Paulínia, e submeteu seus atores a ensaios e leituras nas mesmas casas em que seus personagens viviam. “Eu escrevi o roteiro, mas não tinha nada fechado ou amarrado definitivamente. Juntos, fomos descobrindo aqueles personagens, estabelecendo um elo entre os atores e aquele lugar, uma relação de confiança mesmo. Foi um processo delicado, com muito respeito e cumplicidade, sempre na horizontal, nunca de cima para baixo. Era como se todos nós estivéssemos possuídos por uma energia maior, superior”, acrescenta o diretor. Para Zezita Matos, a criação foi enriquecida com essa vivência: “Fui criando a Das Dores durante esse tempo, convivendo com ela, conhecendo aquela mulher e tentando descobrir sua verdade”.

No caso de Débora Ingrid, por exemplo, Camilo a colocou para cozinhar e arrumar a casa tal qual Alfonsina faz. “Me senti à vontade para dar um mergulho na vida dela. Quando estávamos ali, era como se tivesse uma suspensão do tempo e da vida, como se fosse um lugar abstrato”, conta a atriz. À perspectiva de “abstração” do sertão, vinculam-se uma representação imagética com tons ocres – excelente trabalho de fotografia de Beto Martins, também estreando no formato do longa-metragem – e uma decupagem que maximiza a sensação do tempo que não se passa.

O primeiro movimento de câmera se dá aos 50 minutos, quando Joãozinho, o personagem de Irandhir Santos, veste-se num manto que ele mesmo coseu para dublar Fala, dos Secos & Molhados, ante uma plateia atônita. Na cena, a câmera o circula de modo ininterrupto. “A ideia era de que o espectador voasse junto, numa sensação libertária da criação artística, da vertigem da arte. Poesia, sonho, arte, rebeldia: a cena sai do plano material e entra um pouco no metafísico”, filosofa Camilo.

A história da eternidade tem trilha sonora original de Zbigniew Preisner, compositor de alguns filmes de Krzysztof Kieslowski (1941-1996), e arranjos para acordeon de Dominguinhos (1941-2013). São nomes de impacto na órbita do filme, que agora se prepara para percorrer outros festivais.

De certo modo, Camilo Cavalcante entende o que aconteceu naquela noite de julho. “Chegar ao Sudeste com o filme embaixo do braço, fazer essa primeira exibição pública, ter a possibilidade de dialogar com a imprensa e ainda ser premiado... Tudo isso foi bom demais. O resultado foi muito melhor do que eu poderia ter imaginado”, reconhece. Com suas “meninas douradas”, agora guardadas em casa, ele se prepara para viajar o Brasil, apresentando e discutindo o filme. De avião, de van, de carro, não importa como, mas sempre com seu sertão – bíblico, imutável, rígido como a pedra do poema de João Cabral de Melo Neto que ele declamou em Paulínia – dentro de si. 

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