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Qual o sentido das palavas de plástico?

TEXTO Nelly Carvalho

01 de Março de 2011

Colagem Karina Freitas

A língua materna é um bem pessoal, na medida em que é um bem coletivo, diz a romena Slama-Cazacu. Seguindo essa linha, Celso Luft dizia que a língua é vida, faz parte de toda a gama de comportamentos sociais, como comer, morar, vestir-se, não sendo algo postiço, nem uma realidade à parte. É um saber cultural, vital e expressivo, que faz parte da forma de ver o mundo. As palavras não são rótulos de objetos. Elas têm um sentido um tanto volátil que se modifica de acordo com a ocasião de uso, e constitui-se uma das formas de liberdade de expressão que o falante tem à sua disposição.

Em seu livro 1984, George Orwell conta que a ditadura do Grande Irmão (origem equivocada do Big Brother) proibia o uso das palavras polissêmicas, que pudessem ter várias referências, para ter o poder de aprisionar o pensamento dos cidadãos. Como o sentido múltiplo é regra geral nas línguas, cassava-lhes a liberdade de expressão. Nem a ditadura de 1964 no Brasil conseguiu esse feito. Ao contrário, propiciou que se compusessem obras-primas de sentidos múltiplos, como Cálice e muitas outras mais.

Há dois princípios contraditórios que, no momento, estão exercendo pressão sobre a atividade linguística falada ou escrita no Brasil. O primeiro seria o conceito – importado dos EUA – do politicamente correto (Será que tudo que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil?). Diz Cecília Meireles: “A liberdade das almas é frágil, frágil como um vidro”Assim, frágil, também é a liberdade de expressão, que periga no momento de ser cerceada.

Proibir usos linguísticos consagrados pelo povo, que fala, como diz Bandeira, a língua certa, o português gostoso do Brasil. Mais uma vez, procuramos, equivocadamente, copiar a cultura americana, na qual se desenvolveu esse conceito. As substituições eufêmicas se tornam inadequadas ou ridículas: muitas vezes, contaminam-se do sentido anterior.

Não deixa de ser falsidade ou hipocrisia refletida na linguagem. Por isso, T. Bolinger considera difícil estabelecer os limites entre eufemismo e engano ou mistificação. Nada se presta mais como instrumento paradoxal de libertação ou repressão do que a língua materna, cerne do nosso eu pensante.

O segundo princípio é o da substituição por termos generalizantes que não modificam nem acrescentam nada ao sujeito ou objeto renomeado, na maioria, vindos do inglês, para dar modernidade à fala e status ao que é citado. É a linguagem enquadrada que, nessa era de massificação e produtos em série em que vivemos, é constituída de clichês e chavões que procuram trazer uma conotação modernosa e tecnocrática, como “teto” e “piso” salarial. Alguns vêm do inglês: trade, stand by, taking off, delivery, upgrade.

O uso abusivo de termos equivocados para antigas profissões, como hair designer ou “arquiteto capilar” para cabeleireiro. Surgem ainda na fila outras, como designer gráfico, designer de sobrancelhas,designer publicitário. Em fevereiro, na TV, ouvimos o termo cake designer, para referir-se ao prosaico e antigo confeiteiro. Será que dá mais prestígio?

Personal entrou para ficar: personal trainner, personal stylist, personal teacher, personal chef, personal card, personal diet e até personal sex trainer (aconselhadoras sobre a arte do sexo para mulheres).

Um linguista alemão, Pörksen, denomina “palavras de plástico”, as que entram na moda com sentidos imprecisos, servindo para tudo. São expressões novas da linguagem midiática, que resultam de mudança de significado criadas por especialistas de diversas áreas e caem no gosto do falante comum, sem entender bem o significado, pelo teor de modernidade.

Outro alemão, Werner Ludger Heiderman, denominou-as palavras-chiclete, porque depois de muito usadas são jogadas fora. Ao perder o sabor de novidade, saem de uso.

A publicidade, a moda, o jornalismo social, constituem-se áreas em que as “palavras de plástico” são bem-vindas. O termo “plástico” é adotado pela capacidade que possui esse material de adaptar-se às variadas formas de que o homem necessita: como o plástico, o termo se torna elástico, mas perde sua capacidade de precisão denominativa.

Como o vocabulário reflete o cotidiano e modifica a visão de mundo, essas palavras e expressões penetram sorrateira ou repentinamente na língua e passam a ser insubstituíveis por algum tempo. Depois somem.

Atualmente, desenvolvimento, comunicação, sustentabilidade, responsabilidade social, adquiriram tons outros, simulando novidade. E, que dizer dos verbos em “izar”, ícones numa prosa informativa que se pretende atual? Agilizarsocializarotimizardisponibilizarpolitizarcustomizar. Culpar cedeu a vez a culpabilizar.

Outra palavra que se tornou plástica foi cidadania, outrora sem brilho e sem destaque, com bolor burocrático. Parece conquista recente, mas não fomos sempre todos cidadãos brasileiros?

Outras surgem na fila e vemos, à frente, sexualidade e desenvolvimento sustentável. O próprio termo sexo tornou-se uma palavra mágica, abrindo portas e trazendo sugestões. De tabu passou à banalização do uso.

Para Fairclough, linguista inglês, desenvolvimento sustentável é uma contradição em termos, um paradoxo, usado como panaceia para diferentes regiões do globo, parecendo ser a chave de todos os problemas, sem definir nem agente, nem beneficiado, nem como será possível.

Apreender, no sentido de prender (um menor) talvez seja uma palavra de plástico esdrúxula, pois, na língua portuguesa, apreendidas são coisas ou mercadorias. É mais ofensivo que prender.

As palavras de plástico desautorizam as demais. Ninguém fala mais em pobres, mas em população de baixa renda; em subúrbio, mas em periferia. Mocambo sumiu da língua sem sumir da realidade.

Por último, queremos lembrar uma dupla que não sabemos dizer a que veio: requalificarrequalificação. Não consta no Aurélio e, no Houaiss, é um pequeno verbete que significa mudar de qualidade: o termo é ambíguo. Pode ser para melhor ou para pior. Que se quer dizer, afinal, com requalificar em relação a um espaço público?

Palavras de plástico apagam os significados cristalizados, tornando-se agentes da globalização por colonizar a linguagem comum pela linguagem da técnica: mas, dentro em breve, muitas delas serão cuspidas como chicletes usados, quando perderem o frescor da novidade, por nada significar.

De acordo com Umberto Eco, as pessoas podem ser classificadas em apocalípticas e integradas, pela forma como aceitam ou não as mudanças sociais. Apocalípticos seriam os que não as aceitam e os integrados seriam os que aceitam sem questioná-las.

As mudanças na língua e na vida devem ser aceitas, mas o senso crítico pode funcionar também nas escolhas linguísticas para que não fiquemos repetindo termos inadequados, apenas por modismo. Língua e sociedade, língua e cultura, língua e vida, afinal, caminham juntas, sem que saibamos antecipadamente em que direção. Por isso, podem nos surpreender. 

NELLY CARVALHO, doutora em Linguística, professora da Universidade Federal de Pernambuco.

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