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Viagem narcísica e perturbadora

Em '676 aparições de Killoffer', autor francês narra a experiência de uma temporada em Quebec, a partir de uma abordagem surreal e escatológica

TEXTO Diogo Guedes

01 de Março de 2011

Com a ausência de quadros, Killoffer faz o leitor confundir o que é sequencial com o que é simultâneo na narrativa

Com a ausência de quadros, Killoffer faz o leitor confundir o que é sequencial com o que é simultâneo na narrativa

Imagem Reprodução

O título é provocativo: o autor Patrice Killoffer de fato aparece 676 vezes no seu livro? O que parece apenas um jogo com o leitor é, na verdade, uma narrativa angustiada sobre um homem fora de sua cidade obrigado a refletir sobre sua viagem. 676 aparições de Killoffer, obra de referência para a linguagem dos quadrinhos, ganhou tradução nacional e chega às livrarias depois de ter sido lançada na Rio Comic Con, no final do ano passado.

Um dos nomes mais experimentais da área, Killoffer não é importante para os quadrinhos contemporâneos apenas pela própria obra. O autor é um dos fundadores da editora francesa L’Association, marcada por sua atuação de vanguarda no mercado e responsável por publicar duas das mais elogiadas graphic novels dos últimos anos: Persépolis, da iraniana Marjane Satrapi, e Epilético, de David B., um dos principais lançamentos de 2010. Além dos dois autores, o selo também é o responsável por levar para a língua francesa obras de Chris Ware, um dos que mais inovam dentro das HQs.

Como os próprios autores que publica, Killoffer não está muito interessado em criar uma narrativa convencional. Com uma abordagem surreal, sua matéria-prima é a mesma de boa parte dos quadrinhos atuais: a própria experiência. O livro foi, na verdade, uma obra feita sob encomenda para uma bolsa de estudos, que exigia que o beneficiado morasse por um período no Canadá – o francês escolheu a francófona Quebec – e escrevesse um livro sobre a experiência. A narrativa angustiada e escatológica de Killoffer foi recusada, saindo em 2002 pela editora L’Association.

Isso porque ele rejeitou sua ideia inicial, a de fazer um diário de viagens, por achá-la entediante. “Na verdade, a repugnância pela autobiografia foi o que levou a esse resultado”, disse o autor ao jornal Estado de S.Paulo. O livro é centrado em si, mas se nega a ser uma mera junção de anotações e reflexões de uma passagem por um país diferente, com o olhar forçado de um estrangeiro que procura o pitoresco no que não é espelho.

A pequena quantidade de texto do livro – toda letreirada pelo autor para a versão em português – , concentrada nas primeiras páginas, questiona justamente a inutilidade de se pensar em diferenças entre os países e de contar “historinhas” sobre isso. “Eu me pergunto se eu não sirvo apenas para isso: defecar um pouco da França na América, digerir um pedaço do Quebec, para levar uma amostra para Paris em forma de merda”, escreve.

O enredo é surreal, mas sua premissa é simples. Killoffer foi para Quebec, deixando uma pendência em Paris: uma pia cheia de pratos, talheres e copos sujos. “Não tenho a consciência tranquila”, diz a primeira frase da obra, logo após o pesadelo em que o personagem-autor é atacado pela gosma que apodrece dentro da sua casa na França. O livro, todo ambientado no clima de um sonho ruim, é movido pela angústia de Killoffer, agravada pela obrigação de estar numa cidade desconhecida e simbolicamente insignificante para ele.


As louças sujas que deixou em Paris refletem o estado mental do personagem-autor. Imagem: Reprodução

O percurso do autor por Quebec parece desinteressado, mas seu estranhamento surge aos poucos. De repente, ao contrário de um Killoffer caminhando pela cidade, vê-se Killoffers, no plural, dividindo ações entre si. A pia suja, metáfora da incapacidade de esquecer e abandonar repentinamente sua Paris e sua vida, agora é um sintoma externo: a fragmentação (ou multiplicação) do eu.

SEM QUADROS
O nome em português brasileiro da nona arte – história em quadrinhos ou quadrinhos – é, sem dúvida, um dos mais precisos. A alcunha francesa band dessinè (ou banda desenhada, no português europeu), dando a mera ideia de coletivo de desenhos, só não é mais pobre que a expressão inglesa comics, marcada pela origem humorística dos quadrinhos.

O termo história em quadrinhos tem um significado próximo ao conceito de arte sequencial, cunhado por Will Eisner, concebendo justamente o que é definidor da linguagem: um conjunto de quadros que constitui uma narrativa. Killoffer, aparentemente insatisfeito com os limites da forma, ataca justamente esse aspecto dos quadrinhos. Com exceção de meia dúzia de páginas, a sua narrativa é construída sem diferenciação evidente entre os quadros.

A subversão do autor tem relação direta com a sua participação no OuBaPo, acrônimo em francês para Workshop de Quadrinhos em Potencial, o equivalente quadrinístico do OuLiPo, movimento literário de Raymond Queneau, François Le Lionnais e Georges Perec, baseado na criação de condições e limites para a produção de uma obra. Fã dos jogos de restrições característicos do grupo, Killoffer busca eliminar os quadros para propor uma narrativa sem a definição exata do movimento dos personagens – cabe ao leitor supor quando se encerra uma cena e quando começa outra.

O recurso se encaixa com maestria na história, porque ressalta o clima de dissolução sentido pelo próprio personagem, que passa a ocupar o mesmo local duas, três, oito vezes, nas grandes páginas de 25 x 37 cm do livro. O que era apenas a sucessão de cenas sem limites demarcados transforma-se no retrato de um evento simultâneo, caótico.

O Killoffer “original”, se é que há um, vê suas cópias encarnarem seus piores desejos e instintos. São eles que sujam a casa e a enchem de fumaça de cigarro para sair à noite atacando mulheres e brigando em bares, diante da expressão atônita, mas kafkiana, do personagem – que cozinha, arruma, lê, desenha e bebe conformadamente. Mas, se em Kafka a presença do absurdo é algo externo, em Killoffer ela é pessoal e intransferível, em sua forma física e psicológica.

Por fim, o egocentrismo da obra, cujo único personagem é o autor francês, impressiona. Ele aparece mesmo 676 vezes, em meio a alguns coadjuvantes sem nome, o que rende do próprio quadrinista uma brincadeira na dedicatória: “Para Killoffer, sem quem esse livro não seria possível”. Mergulhado em um narcisismo às avessas, Killoffer não tem outra saída senão combater a si mesmo de alguma forma, nem que seja transformando perturbação em quadrinhos. 

DIOGO GUEDES, repórter da Continente Online.

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