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Cobertura

O XI Janela acabou, mas os afetos permanecem

Em suas últimas 10 edições, o festival atentou para a reunião de filmes que, a modo amplo, ecoam as urgências de seus respectivos anos

TEXTO Manu Falcão

12 de Novembro de 2018

Fila no São Luiz para assistir às sessões de sábado (10/11) à noite

Fila no São Luiz para assistir às sessões de sábado (10/11) à noite

Foto Victor Jucá/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online | nov 2018]

“Como é bom
estarmos todos juntos agora”, disse Kleber Mendonça Filho, diretor artístico deste XI Janela Internacional de Cinema do Recife, rodeado pela equipe do festival. A fala do crítico e cineasta introduziu a exibição do clássico Asas do desejo (dir. Win Wenders, 1987), o apagar das luzes do Janela 2018, que encerrou no domingo (11/11).

Do ponto de vista curatorial, o Janela atentou, em suas últimas 10 edições, para a reunião de obras que, a modo amplo, ecoam as urgências de seus respectivos anos. Nesta 11ª, com a enxuta programação, parecemos, enfim, ter chegado a um ponto culminante das discussões trazidas anteriormente. Mas o que se pode tirar dessa experiência hoje é que, por mais que o depois seja uma grande incógnita, reitera-se o lugar de trincheira que o Janela arraigou enquanto festival. Seus espectadores, também.

Na sessão de abertura, antes do curta-metragem Quantos eram pra tá? (dir. Vinícius Silva, 2018), seguido pelo maravilhoso Temporada (dir. André Novais de Oliveira, 2018), fui surpreendida ao me deparar com o hall abarrotado do Cine São Luiz. Rostos novos e velhos somavam na mais adversa das ocasiões, remetendo às habituais sextas-feiras que abriam o Janela – ainda que fosse quarta. Na sala do cinema, os vitrais acendem para a exibição da primeira vinheta de Matheus Farias. Nela, um homem assiste a um dos mais replicados “memes” das eleições presidenciais deste ano: o candidato Fernando Haddad dançando ao som do saxofone de Your latest trick, de Dire Straits, diante da frase “Boa tarde, meu democrata.” Naturalmente, a sala irrompe em risadas, quebrando qualquer tensão que pairasse ali.

Lembro-me, então, da exibição de Assunto de família (dir. Hirokazu Koreeda, 2018), no segundo dia. Ao conversar com uma amiga sobre Koreeda, ela me disse que a impressão deixada por seus filmes era a de que as histórias mais tristes se dissipavam com algum alento encontrado em suas narrativas. Depois de confirmar a premissa, percebo que se fez presente não só através de Koreeda, mas dos principais filmes da programação e da vivência do festival em si. Central do Brasil (dir. Walter Salles, 1998), que completa 20 anos, foi remasterizado e projetado numa lotada sessão de sábado (10/11) à noite – dessas cujas filas entornam o cinema –, com a presença do rapaz Vinícius de Oliveira, intérprete de Josué. Seu personagem descortina, junto a Dora (Fernanda Montenegro), um Brasil barroco, repleto de ambivalências: intrinsecamente desigual, mas com uma forte potência afetiva da qual a comunhão e complacência, também intrínsecas, suscitam.


O debate com Vinícius de Oliveira (dir.), ator que fez Josué em Central do Brasil
Imagem: Victor Jucá/Divulgação

Dizer que Central é um reflexo de sua época é amarrá-lo a um diagnóstico pontual de algo que não cessa de reverberar – algo que, como foi evidenciado naquela noite de sábado, segue mobilizando multidões por tratar de uma sensibilidade que ainda pode ser acessada. Algo que Koreeda assimilou em sua contextura. É possível encontrar essas ambivalências em produções contemporâneas como Inferninho (dir. Guto Parente e Pedro Diógenes, 2018), eleito Melhor Filme pelo júri oficial do Janela; bem como em Azougue Nazaré (dir. Tiago Melo, 2018), os já citados Temporada e Quantos eram pra tá?, além de Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados (dir. Aiano Bemfica, Camila Bastos, Cristiano Araújo, Pedro Maia de Brito, 2018) e Noirblue (dir. Ana Pi, 2018), eleito Melhor Curta-metragem nacional. E, olhando para outros tempos difíceis que antecederam todos esses, percebemos tais ambivalências também em Pixote – A lei do mais fraco (dir. Hector Babenco, 1981), que esteve na Mostra Clássicos.

Em Asas do desejo, quando o anjo Damiel abandona sua condição divina em busca dessas mesmas forças afetivas que interveem na existência humana, e as cortinas do São Luiz fecharam pela última vez, me pus a pensar sobre isso. O XI Janela mostrou-se atento, ao escolher minunciosamente filmes que pautam as mazelas que enfrentamos e ainda vamos enfrentar, mas o que remanesce são os afetos aos quais recorremos e que se mostraram o fio condutor destes cinco dias de festival. Nos reencontros, nas risadas partilhadas, nos espaços da cidade e cinemas de rua, nas almas torturadas de Berlim dividida pelo muro e nas que buscavam conforto na romaria de Bom Jesus do Norte. Por fim, na fala de Kleber, reiterando que é possível reivindicar, na arte, uma rede de apoio.

Até o XII Janela, continuaremos juntos.

Enquanto isso, leia nossa cobertura completa da edição 2018 AQUI.


Sessão de encerramento com o clássico Asas do desejo. Foto: Victor Jucá/Divulgação

MANU FALCÃO é estudante de Jornalismo da Unicap e estagiária da Continente. Amante inveterada de cinema, acompanha o festival recifense há anos, com afinco.

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