Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Cobertura

Paisagem da janela

Trazendo a atriz Grace Passô como protagonista, o filme 'Temporada', exibido na primeira noite do Janela, apresenta um panorama de particularidades e complexidades dos afetos cotidianos no país

TEXTO Alan Campos

08 de Novembro de 2018

Juliana (Grace Passô) se muda para a periferia de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte

Juliana (Grace Passô) se muda para a periferia de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte

Foto Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online | nov 2018]

A narrativa de
Temporada (dir. André Novais Oliveira, 2018) – vencedor do prêmio de melhor filme na edição deste ano do Festival de Brasília e exibido no encerramento da primeira noite do XI Janela Internacional de Cinema do Recife – não é difícil de ser descrita. Juliana (Grace Passô) se muda de Itaúna para a periferia de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, onde inicia um novo emprego no controle de endemias da região, esperando que seu marido se junte a ela o quanto antes. Sua rotina consiste em ir de casa em casa, na sua nova comunidade, a fim de encontrar focos do mosquito da dengue nos quintais. Russão (Russo Apr) e Hélio (Hélio Ricardo), os colegas de trabalho da protagonista, oferecem auxílio para ela entender seu ofício e acabam se tornando duas figuras centrais no convívio de Juliana em seu novo espaço.

Em determinado momento, no intuito de investigar uma possível poça de água parada, Juliana tem que subir uma escada para a laje de um morador; porém ela hesita. O dono da casa oferece ajuda, ela aceita e lentamente coloca seus pés nos degraus. Já em cima, Juliana tem acesso à vista alargada de sua comunidade, e a conversa logo se torna sobre as pessoas avistadas. “Olha lá, é o meu cunhado”, diz o morador enquanto a câmera de André Novais segue cenas das pessoas que habitam a comunidade. Neste momento, desenvolve-se uma distância e uma proximidade. A distância se dá no plano em que a narrativa de Juliana adquire uma forma gasosa, universal, que paira sobre sujeitos desconhecidos como uma extensão das emoções incorporadas na protagonista. Assim como quando estamos contemplando a paisagem da janela do avião em processo de pouso e vemos pessoas como pontos distantes e carros como blocos geométricos em movimento; diversos particulares em forma de um quadro que, à primeira vista, parece estático. Vidas que existem, vidas que seguem adiante, vidas em movimento.

Entretanto, uma aproximação nasce justamente do reconhecimento da banalidade com que a história de Juliana, bem como a dos outros personagens, desenvolve-se nesse espaço comunitário. Essas histórias não existem para chegar a algum lugar, o recorte estético não prioriza um clímax, ele se atém a compreender um tempo particular (a mudança para uma nova cidade) e uma geografia (as relações estabelecidas em um espaço).

Em sintonia com vários cineastas contemporâneos (Tsai Ming-Liang, Béla Tarr, Lucrecia Martel), André Novais mais apresenta do que diz. As cenas são moldadas em seu tempo particular de existência: Juliana conversa com Russão, Juliana cogita cortar o cabelo, Juliana vai a uma festa. Portanto, não há excessos de artifícios cinematográficos – a trilha sonora é econômica –, ou muita movimentação de câmera, tendo em vista que o pacto cinematográfico aqui estabelecido envolve filmar as cenas de maneira simples, com o mínimo de intervenção possível, de modo que o espectador possa se perder nas relações afetivas que se apresentam diante dele.



Não há um esforço do filme em nos fornecer índices explícitos sobre as emoções internas da protagonista, mas é nessa ambiguidade ou incapacidade em reduzir seus personagens a uma inflexibilidade emocional que o filme se aproxima de sua plateia. Como sua protagonista, o filme prioriza uma sensação constante de seguir adiante, o caráter emotivo da cena em que Juliana se abre com sua prima sobre seu casamento fadado ao fim logo se dissipa para o novo foco emocional da cena seguinte. Se dissipa, mas não desaparece, pois há um reconhecimento de que a gama de afetos anda junta, de mãos dadas e sem se soltar. Temporada é um filme que fala da tristeza a partir de momentos alegres, da decepção a partir do ímpeto em se levantar, da dureza a partir da comunhão. Seu recorte de cenas distintas e plurais evoca uma montagem que constantemente mapeia seus personagens como possuindo um pouco de cada um. Por conta disso, uma cena em que Juliana sorri após conseguir fazer um carro funcionar se desloca de sua banalidade para algo especial, algo quantificado de afetos que o filme vinha, até então, desenvolvendo. O particular é carregado de outras histórias.

Essas histórias e personagens existem em todo o Brasil. Elas nos formam de maneira inconsciente, nos acompanhando em nossas relações de trabalho e com amigos – e não cessam de se atualizar.

ALAN CAMPOS é formado em Cinema pela UFPE e atualmente está concluindo seu mestrado em Comunicação pela mesma universidade. Já atuou como crítico em alguns sites e blogs e participou de algumas produções audiovisuais locais.

Publicidade

veja também

O XI Janela acabou, mas os afetos permanecem

Paisagens devastadas e devastadoras

Resistência como persistência

comentários