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Cobertura

Em meio à comunhão familiar

Festival abordou pluralidade das relações familiares em seu segundo dia de programação, a partir de filmes como ‘Assunto de família’, vencedor de Cannes, e ‘Tradução nervosa’

TEXTO Alan Campos

09 de Novembro de 2018

'Assunto de família' narra as vivências de uma família japonesa marginalizada

'Assunto de família' narra as vivências de uma família japonesa marginalizada

Foto Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online | nov 2018]

O segundo dia do
XI Janela Internacional de Cinema do Recife, na quinta (8/11), me parece ter sido rodeado por filmes que indiretamente despontam em torno de um questionamento acerca da palavra “família”. Entretanto, somente Assunto de família (dir. Hirokazu Koreeda, 2018) abraça de maneira explícita essa temática. O filme, vencedor da Palma de Ouro deste ano no Festival de Cannes, narra as vivências de uma família de personagens japoneses, de idades variadas, marginalizados e que praticam pequenos furtos para subsistirem.

Outros filmes do diretor são marcados pelo caráter contemplativo da passagem do tempo, tais como Andando (2008) e Depois da tempestade (2016). Em seu novo filme, o cineasta retira o enfoque dado anteriormente ao tempo lento, deixando as situações mais à mercê do dinamismo da câmera, e de como tais momentos contribuem para o filme chegar a seu clímax melancólico.

Tal mudança não existe sem surtir consequências em outros aspectos estéticos, pois ao negar o tempo enquanto gesto da imagem, como um alicerce da montagem, Koreeda prioriza uma relação amplamente restrita à causalidade entre cenas. O diretor desloca-se do interesse em anacronizar um único dia na vida de seus personagens e enxergar os fantasmas do passado que ali estão presentes (como em Andando e Depois da tempestade), para eleger uma estética calcada em como determinada cena se costura à anterior e à seguinte, tecendo um filme que indica seus fins logo em seu início. Intuímos que haverá um momento no qual a família será “pega” em seus furtos, assim como sabemos que o drama estabelecido entre Osamu (Lily Franky) e Shiba (Jyo Kairi), acerca da dificuldade deste último em chamar o primeiro de pai, retomará como força dramática ao fim do filme.

Não creio que, necessariamente, tal mudança estrutural deva ser significada como algo ruim, mas enquanto tudo parece existir marcado pelo alerta constante de que o final puxará o tapete do espectador, Assunto de família perde força. Ao mesmo tempo em que as chaves dramáticas ativadas ao longo da trama – exemplificadas ao final do último parágrafo –, ao serem resolvidas ao final da narrativa, esvaziaram-se das paixões que me cativaram no filme. O que me marcou foram os banhos comunitários, a ida à praia da família inteira, a avó mentindo para conseguir dinheiro de uma família abastada. Momentos que não reforçam uma dramaticidade, pois existem como irredutíveis a uma única reivindicação emocional; situações que escapam de um roteiro fadado ao fim excessivamente unilateral em relação aos seus personagens. O que é curioso, porque as cenas dos furtos – que compõem grande parte do filme – articulam-se de maneira inusitada. Quando tais atos ocorrem, a família não é julgada moralmente, pois estes momentos caminham entre o humor e a tensão de como eles irão se desenrolar. Portanto, existe uma dualidade nas cenas do filme: ao mesmo tempo em que elas evocam um final trágico prestes a cair sobre nossos protagonistas, há um espaço de libertação do roteiro. Um lugar próprio dos afetos da imagem. E foi aí que melhor me relacionei com o filme.

As situações exploram as particularidades de cada membro da família, suas relações entre si, com a vida e com o trabalho que levam. Penso que Koreeda teve um cuidado em construir nuances comportamentais bastante específicas para cada personagem, no intuito de fazer com que cada um represente uma força particular no núcleo familiar, formando um mosaico exuberante de ebulições empáticas.



É curioso como o tom documental desse núcleo familiar não cai – pelo menos não inicialmente – em sentimentos tristes acerca das condições financeiras escassas. Não lamentamos por eles, pois não há o que lamentar, há o que se sobressai; o “apesar de tudo” que gravita em torno de seus personagens. O sentimento de comunhão entre esses protagonistas é tanto, que tenho dificuldade em lembrar de outros que não sejam eles. Não destaco uma cena em particular, pois me parece que o filme anseia em equilibrar as cenas de furto com os momentos de lazer, costurando-os através do andamento nas relações familiares.

Próximo ao seu final, Assunto de família materializa a realidade que anunciava desde o início, através de perguntas rasas que confrontam perversamente seus protagonistas. Um julgamento moral questionando se tal modo de existência era correto (especialmente para as crianças) me parece fraco diante da experiência de comunhão que era, até então, estabelecida. Se torna estranho questionar tais personagens sob a ótica do maniqueísmo, especialmente quando, em determinada cena, eles contemplam fogos de artifício, longe dos cartões-postais do Japão, enquanto há um gesto de afirmação de que eles existem e que são, também, merecedores desses espaços.

Meu incômodo foi reforçado quando no mesmo dia, o Janela exibiu o curta Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados (dir. Aiano Bemfica, Camila Bastos, Cris Araújo e Pedro Maia de Brito, 2018) – como parte do programa Depois da Derrota – e o longa-metragem Tradução nervosa (dir. Shireen Seno, 2017). No primeiro, há a construção da experiência de ocupação como a criação de um espaço de comunhão entre pessoas que resistem e lutam por um Brasil mais igualitário, em que a câmera se torna tão próxima de seus personagens, que a imagem se “levanta” e “abaixa” da polícia. Cinema próximo aos nervos, cinema enquanto registro de uma nova relação entre pessoas e um espaço. Já no filme de Seno, existe uma construção de família a partir da ausência do pai da garota Yael (Jana Agoncillo). Ela se relaciona com o pai a partir de fitas cassetes, fazendo com que sua presença seja, constantemente, evocada pela precariedade do aparelho. Inquietantemente, o pai parece surgir na figura do tio dela, fazendo com que a relação da menina com o pai persista de maneira estranha.


Cena do longa Tradução nervosa. Foto: Divulgação

Em comparação à sessão de abertura da quarta-feira (8/11), Temporada (dir. André Novais, 2018), Assunto de família deixa a desejar, pois se o primeiro faz uso do cinema como instrumento que permite toda uma circulação afetiva entre sujeitos e comunidade, no segundo os afetos são questionados ao fim, tornam-se destituídos de sua potência enquanto agenciador de comunicação entre personagens marginalizados.

Não acho que houve um julgamento moral por parte do filme de Koreeda com seus personagens, até porque Osamu justifica ter iniciado as crianças ao furto como sendo “a única coisa que eu poderia ensiná-los”. No entanto, quando o filme se vale de um julgamento moral como artifício do roteiro apenas para lançar uma questão que já havia se posicionado de maneira firme, me pergunto qual a necessidade em se repetir (enfraquecer) por dezenas de minutos. Não pude polarizar entre o certo ou o errado as vivências da família de Koreeda, tendo em vista que a experiência desse Janela desponta para uma pluralidade de lugares, ampliando, em muito, noções estabelecidas do que significa ter e ser parte de uma família.

ALAN CAMPOS é formado em Cinema pela UFPE e atualmente está concluindo seu mestrado em Comunicação pela mesma universidade. Já atuou como crítico em alguns sites e blogs e participou de algumas produções audiovisuais locais.

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