Reportagem

Prazer para os olhos e para o paladar

Restaurante de Lisboa homenageia o pintor Cícero Dias. Pratos da culinária brasileira harmonizam com a coleção do marchand e restaurateur Paulo Dalla Nora

29 de Dezembro de 2025

Foto Fábio Pelinson

O empresário Paulo Dalla Nora aponta orgulhoso para a tela com quase quatro metros de comprimento por dois de largura, pendurada não na parede do restaurante, mas no teto. O telúrico Céu de Atacama, do artista plástico Kilian Glasner, paira sobre as cabeças dos clientes, como se mesmo em Lisboa jantassem sob o firmamento do deserto chileno.

O Atacama, o mais árido dos desertos, cuja aridez poderia ter se refletido no percurso do economista pernambucano ao longo da exitosa carreira no ramo do mercado financeiro, mas o que se viu foi a monotonia cinzenta dos números e das cifras passar ao largo da colorida e vibrante paixão de Dalla Nora à arte de sua terra natal.

Afeto cristalizado no Cícero, o restaurante que Dalla Nora abriu em Lisboa, quando se mudou para a capital portuguesa, há cerca de três anos, batizado em homenagem a Cícero Dias, de quem Dalla Nora não esconde o fascínio, não só pela produção em óleo sobre tela do artista pernambucano, mas na difícil e perigosa arte de manter viva as cores da democracia.

O último verão lisboeta marcou a mudança de endereço do Cícero – trocou o afastado e pacífico Bairro Campo de Ourique, um enclave de expatriados franceses na capital portuguesa, pelo fervilhante e multicultural Chiado, onde agora é vizinho de restaurantes estrelados pelo Michelin, uma distinção que Dalla Nora não disfarça perseguir.

Mas, se os vizinhos do Chiado já ostentam a distinção estelar, estão a anos-luz de exibirem nas paredes a constelação de obras do agora restaurateur Dala Nora, ex-banqueiro com olhar de marchand, como se define, que começou a sua coleção em 1997, com o “primeiro Cícero Dias”, uma litogravura adquirida junto à amiga e jornalista Lêda Rivas.

Começava aí a coleção de telas, esculturas e painéis que hoje inclui nomes como os dos já citados Cícero Dias e Kilian Glasner, e de Lula Cardoso Ayres, Bruno Vilela, João Câmara, Sidnei Tendler, Samico, Paulo Bruscky, Ferreira, Cariri e Marianne Peretti, cuja magnífica porta de vidro dá as boas-vindas a quem entra no restaurante.

Com cerca de 60 peças, o acervo cruzou o oceano de navio na mudança para Lisboa e hoje se divide entre o apartamento do pernambucano e as paredes do Cícero.

Entre os artistas expostos na galeria do restaurante também está Picasso, de quem Cícero Dias foi amigo.  Dalla Nora enxerga para além do senso-comum e estabelece laços entre a atividade de um banqueiro e de um marchand. “Em ambas, é preciso desenvolver uma capacidade de leitura das pessoas”, desenvolve o “economista não praticante”, como agora costuma referir a si mesmo.

A paixão pela arte tem raízes familiares e remonta à influência materna, a arquiteta Glória Dalla Nora, ex-proprietária do estúdio de arquitetura Hera Sagitário, assina a marcante ambientação do Cícero.

“Ele sempre teve esse olhar para a vertente estética. Lembro de quando terminou o segundo grau e fez um teste de aptidão que apontou tanto o caminho pela arquitetura quanto pela economia”, recorda-se Glória Dalla Nora. E por que o filho não seguiu os passos da mãe? “Disse que ia ser economista para não ficar meio avoado como a mãe”, diz.

O olhar pela arte, porém, nunca se perdeu. “Ele é desses  que, quando bota o olho numa obra de arte, não desiste de tê-la”, continua Glória. Uma prova é a porta de vidro assinada por Mariana Ferreti que adornava o estúdio da mãe, até o filho “botar o olho” nela. Ocorreu o mesmo com o magnífico painel entalhado em madeira por Cariri.

Foi assim que o caminho de colecionador e marchand se cruzou com o do restaurateur, responsável pelo Cícero ser reconhecido em Lisboa não pela gastronomia que Paulo Dalla Nora classifica de franco-pernambucana, mas por ser um restaurante onde é possível, como se diz em Pernambuco, “comer com os olhos”.

“A clientela do Cícero é composta por brasileiros de passagem por Lisboa e turistas de várias partes do mundo. A maioria deles chega já sabendo que o restaurante tem essa característica de ser também uma galeria de arte”, explica Paulo Dalla Nora.

Uma junção nada mais do que natural. “Assim como as artes plásticas, a gastronomia também é uma expressão sensorial, dos sentimentos; no caso, não apenas visual presente na apresentação dos pratos, mas do olfato e do paladar”, reforça.

Isso explica a escolha de uma chef brasileira radicada em Paris, a mineira Alessandra Montagne, para assinar o menu do Cícero. Afinal, além dos recomendadíssimos Tempero e Nosso, na capital francesa, Alessandra comanda o novo restaurante do Louvre, a partir de fevereiro de 2026, sublinhando mais do que nunca a sinergia entre gastronomia e arte.

Detalhes que reforçam a vocação do Cícero de ser dois-em-um, restaurante e galeria, e sobretudo, a vocação de Dalla Nora. “O meu trabalho aqui no Cícero acaba por valorizar o ecossistema artístico de Pernambuco”, avalia, deixando claro que a ideia é expor, mas não comercializar as obras.

O que não impede de clientes mais desavisados fazerem ofertas pelos quadros e esculturas nas paredes do Cícero, como se estivessem numa casa de leilões. Numa das vezes, um turista norte-americano insistiu em levar um dos Cícero Dias expostos. Em vão. “Além de tudo, deu azar, pois era justamente o quadro com o qual comecei a coleção”, brinca Paulo Dalla Nora.

Da arte à política, de Camões a Lampião

Para além de um espaço de união sensorial entre a gastronomia e a arte, o Cícero tem sido um ponto de reflexão sobre os rumos da política brasileira em Lisboa, honrando assim uma outra importante face do artista que o batiza, Cícero Dias, que desempenhou um papel importante na resistência francesa durante a ocupação nazista.

Ainda em sua antiga sede lisboeta, as mesas do restaurante serviram regulares debates sobre a situação política brasileira e portuguesa, às voltas com as ameaças ao regime democrático. Foi no Cícero que o presidente Lula almoçou em sua passagem por Lisboa, ainda antes de tomar posse, em 2022. É lá também que costumam ir os políticos pernambucanos e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em trânsito por Portugal.

Paulo Dalla Nora não esconde que o motivo de sua mudança para Lisboa foi a desilusão e o descontentamento com os rumos da política brasileira nos tempos do presidente Jair Bolsonaro. Cumpriu assim um autoexílio, como fez Cícero Dias na primeira metade do século passado, ao partir para Paris refugiando-se da ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas.

Em Paris, Cícero Dias uniu o exercício da arte ao da luta democrática, ao lado do “compadre” Picasso. O ativismo político cobraria o seu preço durante a ocupação alemã na Segunda Guerra e Cícero Dias foi preso, em 1942, ao lado de Guimarães Rosa e outros intelectuais, na prisão de Baden-Baden, no Vale do Reno, sendo libertado um ano depois, após uma troca de prisioneiros por espiões nazistas detidos no Brasil.

Forçado a deixar a França, Cícero Dias passou a viver em Lisboa, na função de adido cultural da Embaixada Brasileira. Mesmo sob o olhar atento do regime de Salazar, conseguiu realizar atividades culturais, como saraus e exposições.

Ainda assim, Cícero Dias não conseguiu evitar que um dos quadros, um retrato do artista pernambucano pintado pelo amigo Picasso, tenha sido embargado pelo Secretariado de Propaganda Nacional salazarista, “por questões políticas”, como escreveu Cícero Dias numa carta ao amigo Gilberto Freyre.

Em Lisboa, Cícero Dias ilustrou a edição de 1944 de A Ilha dos Amores, de Luís de Camões e viveu seu maior feito político, quando lhe caiu nas mãos um poema enviado pelo amigo e poeta francês Paul Éluard, que Cícero pediu a outro poeta, Rolland Penthouse, para traduzi-lo ao inglês e ser lançado às tropas aliadas no front pelos aviões da RAF.

Com o fim da guerra, Cícero Dias voltou a Paris em 1945, sendo condecorado com a Ordem Nacional do Mérito, a mais alta honraria concedida pelo governo francês.

Uma trajetória que acabou por inspirar o lado mais “politicamente ativista” do conterrâneo Paulo Dalla Nora, que prepara uma homenagem pessoal ao ministro do STF Alexandre  de Moraes na próxima ida ao Cícero: uma imagem de Lampião de 30 cm trazida de Pernambuco pela mãe, assinada pelo artista plástico pernambucano Leonildo.

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