Maracatu pernambucano em terras canadenses
Formado por Simon Poitras, o Maracatu Montreal é um grupo que mistura a identidade montrealense com a rica cultura pernambucana
TEXTO Laura Machado
21 de Janeiro de 2026
Foto Divulgação/Maracatu Montreal
O Canadá é um país conhecido pelos invernos rigorosos, hóquei no gelo e o maple extraído das árvores de bordo. Mesmo assim, há quem encontre espaço para mergulhar em uma cultura totalmente diferente. O músico Simon Poitras, nascido e criado na província de Quebec, a escolheu a cultura brasileira, mais especificamente, a pernambucana.
O primeiro contato de Simon com a música brasileira começou através de aulas de percussão latina no Cegep (instituição de ensino superior comum em Quebec) e logo depois, escutando um CD, descobriu o maracatu. Por coincidência – ou destino, quem sabe? – a artista e batuqueira do Maracatu Porto Rico, Drica Souza, estava no Canadá, com a intenção de criar um grupo de maracatu e Simon se animou com a possibilidade.
No fim das contas, o projeto de Drica não concretizou, mas Simon seguiu firme em seu gosto pelo maracatu. Ele chegou a visitar a cidade do Recife diversas vezes para aprender mais sobre a música, a dança e a ancestralidade presente na manifestação cultural. Dali em diante, o maracatu não sairia mais de sua rotina. Em 2025, ele criou o grupo Maracatu Montreal.
“O maracatu tem uma ligação forte com o sagrado e foi isso que me pegou: as tradições, a ancestralidade. Porque além da música, o maracatu é comunidade, é ancestralidade, e é a arte em geral. Tem pessoas que criam as fantasias, que dançam, que cantam, que tocam a percussão. Então, para mim, o maracatu é uma coisa completa”, contou Simon. De 2011 para 2026, o artista já visitou o Recife onze vezes e tocou no Maracatu Cambina Estrela, Maracatu Porto Rico e Maracatu Encanto da Alegria.
Pregando a receptividade e diversidade, qualquer pessoa que deseja se aventurar na dança e música do maracatu é bem vindo no Maracatu Montreal. De acordo com Simon, apesar de a maioria dos membros serem brasileiros, também existem integrantes canadenses e imigrantes de outros países.
Para Nicole Cintra, recifense que saiu do Brasil, há mais de dez anos, fazer parte do Maracatu Montreal é uma forma de relembrar as memórias do Carnaval no país natal, ao mesmo tempo em que cria novas lembranças positivas no país que escolheu se estabelecer.
“Assim que as alfaias começaram a tocar, me emocionei e, nas minhas lembranças, voltei ao meu Carnaval do Recife”, recorda Nicole, sobre a primeira vez que se deparou com uma apresentação de maracatu no Canadá. Logo depois, ela procurou mais informações, se inscreveu em ateliês voltados à arte. Quando o Maracatu Montreal se formou, ela imediatamente começou a participar. “Morando em Montreal e longe do meu carnaval, hoje eu posso sentir a emoção de ter comigo essa tradição, de aprender a tocar a alfaia, de cantar e dançar. Nossa cultura é muito rica e contagiante”, explica.
O maracatu surgiu em Pernambuco durante o período colonial, como uma manifestação de resistência da população trazida da África e escravizada pelos portugueses. Remetendo à coroação de reis e rainhas do Congo, elementos culturais e religiosos dessa tradição passaram por diversas transformações. Mesmo com o fim da escrivadão, o maracatu encontrou oposição das classes dominantes patriarcais. Somente no século passado passou a ser praticado nas festividades de Carnaval do Recife.

Simon explica que desde o princípio, buscou respeitar a ancestralidade presente no maracatu. Para isso, ele mantém amizade e contato direto com as nações que conheceu Recife, como o Maracatu Nação Encanto da Alegria. “Quando eu quis criar esse maracatu, eu contatei o Anderson [presidente do Maracatu Encanto da Alegria] e vim ao Recife para conversar. A gente até jogou búzios para pedir permissão aos orixás. Eu faço questão de ter essa permissão e de não desvincular o maracatu da parte sagrada dele. É um processo e cada vez que eu venho, a gente joga os búzios para ver o que precisamos fazer, converso com os mestres, e recebo muitos conselhos”, conta o músico.
Anderson Santos explicou à revista Continente que sua amizade com Simon iniciou, exatamente, quando o músico começou sua jornada de pesquisas e estudos sobre a cultura do maracatu em Recife: “Fomos criando esse vínculo de amizade e hoje Simon é um filho da casa, um filho da Nação Encanto da Alegria e filho do terreiro”.
A relação com o artista canadense é uma via dupla de troca de conhecimentos e ideias. No Recife, Simon participa de ensaios, toca percussão, ajuda na confecção das roupas e vive de perto a experiência de um maracatu tipicamente recifense. Neste ano, esteve na cidade durante o mês de janeiro e apesar de não poder ficar para o Carnaval, fez parte da preparação para a grande festa.
Em meio ao intercâmbio, Anderson contou que um dos desejos para este ano é o de levar participantes da Nação Encanto da Alegria até Montreal, para que a troca seja feita com ainda mais pessoas.
“A gente se sente muito bem representado quando esses grupos surgem em outros lugares, em outros países, mas com o cuidado e o respeito que Simon vem tendo com a ancestralidade. Ele não quer se apoderar do nosso maracatu, tem essa preocupação de fazer lá, mas seguindo orientações do maracatu tradicional daqui de Pernambuco”, evidencia Anderson.
O Maracatu Montreal faz apresentações em eventos da cidade, sempre avisando aos seguidores através da página no Instagram e no Facebook do grupo. Além disso, os planos de Simon são de expandir a atuação social do grupo, visto que o maracatu é uma manifestação que desde o princípio traz a coletividade para o centro da conversa.
No Natal do ano passado, os participantes se juntaram para fazer enfeites e compartilhar o dinheiro das vendas com as nações de maracatu de Pernambuco Os planos são de que a proposta se expanda cada vez mais.
“No Maracatu Nação Encanto da Alegria, por exemplo, ninguém paga para participar. Não paga pela roupa, pelo instrumento… Não paga nada. Então a gente faz questão de poder apoiar financeiramente, porque o mundo funciona assim. Vendemos enfeites de Natal para juntar dinheiro, arrecadamos fundos e queremos levar pessoas do Recife ao Canadá, para que eles façam oficinas, ateliês e palestras. Isso faz parte da nossa visão”, conclui Simon.