“ein/ brévi/ ôtru/tenplú/ aqí”
Livro Falação dos mudos concentra cinco décadas do trabalho dos irmãos Aprígio e Frederico Fonseca, que se inspiraram em cartazes e letreiros populares para fazer arte
TEXTO Carol Botelho
29 de Dezembro de 2025
Acrílica sobre madeira (2016), 80x80cm
Foto Aprígio Fonseca e Helder Ferrer/Divulgação
Era uma oficina mecânica popular, um lugar geralmente sujo de óleo, com paleta de cores restrita aos tons do cinzento ao preto. Flanelas sujas, pneus e outras peças de automóvel espalhadas pelos cantos revelam o que já foram as características estéticas desses locais em tempos idos. Em 1973, os irmãos olindenses Ricardo Aprígio e Frederico Fonseca caminhavam pelas ruas de João Pessoa – moravam na capital paraibana na época – quando se depararam com o poético onde menos se esperava.
Talvez fosse aquela estreita parede o único lugar onde o branco ainda predominava naquele espaço diminuto, entulhado e encardido. De tão estreita a coluna, foi preciso deixar de lado o capricho vertical da ortografia normativa e preencher seis linhas, como versos, para escrever a seguinte frase: “Aqui/ tán/ bem/ amor/ tece/ dores”.
Foi a precariedade, a falta de espaço, que deu cabimento e esse maravilhoso desmantelo. “A frase fracionada verticalmente nos interessou enormemente, e passamos a registrar com desenhos os letreiros que encontrávamos escritos de maneira incorreta segundo a norma ortográfica culta, em João Pessoa, e depois em Olinda e no Recife. Não foi de imediato, mas foi essa frase, essa desordem gráfica que acionou, impulsionou todo o processo”, recorda Aprígio.
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