Kleber Mendonça Filho: A projeção internacional de um cineasta
13 de Março de 2026
Foto Nicole Rodrigues/Divulgação
O agente secreto sedimentou o nome do cineasta Kleber Mendonça Filho no mercado internacional de cinema. Essa é a primeira vez que um filme pernambucano concorre ao Oscar, e, de pronto, em suas principais categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e a inédita Melhor Elenco.
Com isso, O agente secreto coloca Pernambuco, o Recife e o Brasil no epicentro do debate cultural global. Wagner Moura, por exemplo, em sua entrevista ao programa Jimmy Kimmel Live!, no dia 4 de março, foi questionado, pelo apresentador, sobre o boneco gigante de Olinda em sua homenagem – lembrando que Kleber Mendonça Filho também “tornou-se” um deles.
Tudo o que é relativo ao filme vem mobilizando a atenção e o engajamento do público, a exemplo da camiseta da Pitombeira vestida por Wagner Moura em uma das cenas. Bastou isso para a vestimenta transformar-se em um sucesso de vendas, seja no site do bloco, de marcas alternativas ou nos camelôs. O agente secreto também estimulou diversos turistas a visitarem o Recife para conhecer as locações do filme, em passeios agendados.
O burburinho em torno do longa-metragem movimenta as páginas da imprensa nacional e internacional, reacendendo o orgulho de ser pernambucano e brasileiro – sentimento comparável, talvez, a um excelente desempenho da Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo.
O sucesso do filme não foi gerado apenas em seu tempo de produção, mas em décadas de cinefilia, seja como espectador, crítico ou realizador, de Kleber Mendonça Filho. Para compreender a magnitude do que O agente secreto representa hoje, é preciso retroceder às raízes de seu autor no Recife e entender que sua formação não começou atrás das câmeras, mas diante das telas e nas páginas da imprensa.
Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Kleber atuou por 13 anos como crítico de cinema, escrevendo no seu site Cinemascópio e para veículos como o Jornal do Commercio, a Folha de S.Paulo, e Continente. Esse exercício de análise, de desconstrução da imagem e de compreensão do ritmo narrativo moldou o futuro cineasta.
O período como observador culminou, em 2008, com o documentário Crítico. A obra reúne depoimentos de diversos realizadores e colegas de profissão sobre a importância da crítica cinematográfica. No mesmo ano, criou o Festival Janela Internacional de Cinema, com uma programação especial a cada ano, exibindo clássicos, filmes restaurados e lançamentos do cinema de arte, nos cinemas São Luiz e da Fundação Joaquim Nabuco.
Isso foi um aprofundamento do trabalho como programador do Cinema da Fundação (Fundaj). Em 2001, ministrou o curso "Olhar Crítico", de onde emergiram novos talentos do audiovisual pernambucano, que foram parceiros de Kleber em várias de suas produções, como Daniel Bandeira, Pedro Sotero e Juliano Dornelles – este último, parceiro de direção em Bacurau (2019).
Seus curtas-metragens, produzidos ao longo de 15 anos, desde 1992, com Homem de projeção (sobre o projecionista Seu Alexandre, que virou personagem em O agente secreto), foram o laboratório para os longas-metragens de ficção, sendo o primeiro deles O som ao redor (2012). Feito com um orçamento de R$ 1,8 milhão, o filme foi incluído na lista dos dez melhores do ano pelo The New York Times.
Em 2016, com Aquarius, estrelado por Sônia Braga, o diretor viveu um dos momentos definidores de sua imagem pública, pelo posicionamento político expresso publicamente em protesto contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff.
A crítica às estruturas de poder e às relações de classes sociais transparece também nas temáticas de seus filmes. Se em Aquarius a resistência era urbana, focada na preservação de um espaço físico e afetivo, em Bacurau (2019) tornou-se coletiva, distópica e visceral, garantindo ao Brasil o Prêmio do Júri em Cannes.
O agente secreto narra a jornada de um professor e pesquisador universitário (Wagner Moura) que viaja de São Paulo a Pernambuco para tentar escapar de uma ameaça de morte durante a ditadura militar. O plano do personagem é que, a partir do Recife, siga para o exterior com o filho. Antes, no entanto, precisa resgatar em um arquivo público documentos do passado de sua mãe.
A repercussão de O agente secreto já garantiu mais de 159 indicações a premiações, acumulando 85 prêmios (segundo o Internet Movie Database), desde sua estreia em Cannes, em maio de 2025, de onde saiu com os troféus de Melhor Diretor e Melhor Ator (para Wagner Moura). O filme sedimentou sua trajetória de aclamação com o anúncio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, no dia 22 de janeiro de 2026.
Com as quatro indicações ao Oscar 2026, O agente secreto supera Cidade de Deus e O beijo da Mulher-Aranha, visto que nenhum destes somou tantas indicações nas categorias principais.
Até fevereiro, o filme, que custou cerca de R$ 27 milhões, atraiu 2,4 milhões de espectadores aos cinemas, arrecadando R$ 50,9 milhões na bilheteria nacional. A parceria com a distribuidora Neon – a mesma do vencedor do Oscar 2025, Anora – consolidou a campanha internacional, levando o longa-metragem a vencer como Melhor Filme em Língua Estrangeira no Critics Choice Awards de 2026 e o Globo de Ouro de Melhor Filme Internacional em 2026.
Durante a campanha internacional de divulgação do filme, Kleber Mendonça Filho vem aproveitando para estabelecer contatos com cineastas, atores, produtores e distribuidores internacionais. No tradicional almoço oferecido aos indicados ao Oscar, ele conversou com artistas como Paul Thomas Anderson e estava no mesmo ambiente que Steven Spielberg, cujo Tubarão (1975), o primeiro dos blockbusters, é mencionado em O agente secreto.
O fascínio do diretor pelo cinema foi despertado pela mãe, a historiadora Joselice Jucá (1941-1995), que levava Kleber e seu irmão às salas recifenses, como o Cine Boa Vista, Art Palácio, Veneza e São Luiz (locação de O agente secreto), todos mencionados no documentário Retratos fantasmas (2023), no qual o diretor descortina a sua trajetória pessoal e profissional, suas influências e registra as transformações urbanas do Recife.
Joselice também transmitiu a Kleber a atenção para o povo. Por isso, em seus filmes, cidadãos comuns têm voz, como em O agente secreto. É o caso da artesã e costureira Tânia Maria, 78 anos. Figurante em Bacurau, ela ganhou o papel de Dona Sebastiana, personagem que acolhe refugiados, como Marcelo (Wagner Moura).
Hoje, são mais de 180 de premiações, que o diretor acumula ao longo de mais de 30 anos como realizador, com 11 produções – sete curtas e seis longas-metragens, incluindo os documentários Crítico (2008) e Retratos fantasmas (2023).
Com tudo isso, Kleber Mendonça Filho tornou-se o cineasta pernambucano de maior projeção internacional. Três de seus longas de ficção, Aquarius (2016), Bacurau (2019) e O agente secreto (2025), estrearam mundialmente no Festival de Cannes, concorrendo à Palma de Ouro. Quatro deles, O som ao redor (2012), Aquarius (2016), Retratos fantasmas (2023) e O agente secreto (2025), foram incluídos na lista dos dez melhores filmes do ano do New York Times.
Independentemente do resultado na noite de 15 de março de 2026, onde enfrentam concorrentes de peso como o norueguês Valor sentimental, na categoria Melhor Filme Internacional, e Uma batalha após a outra, Pecadores e Hamnet, na categoria Melhor Filme, as quatro indicações ao Oscar já são consideradas uma vitória para o cinema brasileiro e pernambucano.
DÉBORA NASCIMENTO, editora-assistente das revistas Continente e Pernambuco