Jomard Muniz de Britto morre aos 89 anos
Uma das figuras mais inquietas e inventivas da cultura nordestina e um dos principais realizadores do Ciclo do Super-8 do Recife, o filósofo, poeta, cineasta e agitador cultural tinha Mal de Parkinson
12 de Outubro de 2026
Jomard Muniz de Britto foi um dos principais realizadores do Ciclo do Super-8 do Recife
Foto Helia Scheppa/Acervo Continente
O poeta, cineasta, professor, performer, filósofo, crítico e agitador cultural Jomard Muniz de Britto faleceu às 3h30 desta segunda-feira (12), aos 89 anos, em decorrência de complicações do Mal de Parkinson. O velório ocorre no Cemitério de Santo Amaro e o sepultamento está marcado para as 16h. Ele deixa uma obra marcada pela experimentação, pelo inconformismo e pela disposição de desafiar os cânones da cultura brasileira.
Jomard se considerava "um artista marginal" e passou a vida desconfiando das verdades definitivas. Não se acomodou às escolas de pensamento, não se curvou à autoridade dos mestres nem aceitou que a cultura pernambucana permanecesse prisioneira de suas tradições. Preferiu a dúvida à reverência, a ironia à solenidade, a provocação ao silêncio. Sua trajetória atravessou a filosofia, a educação, a poesia e o cinema, sempre com a inquietação de quem acreditava que pensar também era uma maneira de desobedecer.
Nascido na Rua Imperial, no bairro de São José, filho de Maria Celeste Amorim e José Muniz de Britto, formou-se em Filosofia pela antiga Universidade do Recife (hoje UFPE) e cedo se envolveu com projetos de educação popular, integrando a equipe inicial de Paulo Freire nas experiências de alfabetização de adultos. Foi uma das figuras mais inquietas e inventivas da cultura nordestina e um dos principais realizadores do Ciclo do Super-8 do Recife, ao lado de Fernando Spencer, Geneton Moraes Neto, Amin Stepple e Paulo Cunha.
A revista Continente publicou um perfil de Jomard Muniz de Britto, escrito por Aristides Oliveira, repassando os principais momentos de sua trajetória. O texto pode ser acessado neste link.
A estreia literária de Jomard ocorreu em março de 1964, com Contradições do Homem Brasileiro, lançado de modo performático na Rua da Aurora — gesto que já anunciava seu temperamento iconoclasta. O livro, lido em primeira mão por Paulo Freire, seria retirado das prateleiras após o golpe militar de 1964, e Jomard acabaria preso no Forte das Cinco Pontas e aposentado compulsoriamente aos 27 anos. Ainda assim, seguiu produzindo ensaios e livros que se tornariam referência para a crítica cultural brasileira, como Do Modernismo à Bossa Nova, Vanguarda e retaguarda da cultura brasileira, Bordel brasilírico bordel: Antropologia ficcional de nós mesmos, Terceira Aquarela do Brasil, Atentados poéticos, Outros Orfeus e Encontros.
Nos anos 1960 e 1970, Jomard tornou-se um dos primeiros defensores públicos da Tropicália no Nordeste. Em 1968, assinou com Aristides Guimarães e Celso Marconi o manifesto “Porque somos e não somos tropicalistas”, considerado o primeiro texto programático do movimento. Sua atuação intelectual aproximou Caetano Veloso, Glauber Rocha e artistas da Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco, tensionando a cultura oficial do estado — especialmente o tradicionalismo associado a Gilberto Freyre e, mais tarde, ao Movimento Armorial de Ariano Suassuna.
A partir de 1974, Jomard encontrou no Super-8 uma arma estética e política. Transformou o formato doméstico em laboratório de experimentação, tornando-se um dos pioneiros do cinema Super-8 no Recife. Dirigiu mais de três dezenas de filmes e vídeos, muitos deles verdadeiros “atentados poéticos” audiovisuais. Entre os mais conhecidos estão Palhaço degolado (1976), Discurso classe média (1977), Alto nível baixo (1977), Inventário de um feudalismo cultural (1978), Jogos labiais libidinais (1979) e Noturno em Ré(cife) Maior (1981). Suas obras misturam crítica social, humor ácido, performance, improviso e uma estética marginal que dialoga com o cinema de invenção brasileiro.

Foto: Divulgação
Além da produção artística, Jomard foi professor da UFPB e da UFPE, dirigiu o Departamento de Extensão Cultural da UFPE e a Fundação de Cultura da Cidade do Recife, e recebeu os títulos de cidadão pessoense e natalense. Sua trajetória foi marcada por uma postura “antiprovincial”, como ele próprio dizia, sempre híbrida, errante e aberta ao risco.
Provocador, ele além de produzir e atuar seus filmes, Jomard também percorria espaços culturais para exibir e debater seus filmes. Em O palhaço degolado, ele vocifera contra o patriarcalismo do sociólogo Gilberto Freyre e sobre o projeto estético Armorial de Ariano Suassuna, numa crítica ao pensamento oficial vigente, ao mesmo tempo também que disparava contra as vanguardas nacionais e internacionais. Freyre voltaria a ser alvo de Jomard em Inventário de um feudalismo cultural, que ele fez com o grupo teatral Vivencial Diversiones, citando trechos de Sobrados e mocambos e também do dramaturgo e contista Hermilo Borba Filho.
A sexualidade foi uma das preocupações da obra jomardiana, no curtas Infernolento, inspirado na tragédia grega Prometeu acorrentado, considerado o primeiro filme erótico de Pernambuco, com os atores fazendo exercícios corporais ao ar livre próximo à igreja. Babalorixá Mário Miranda, Maria Aparecida no Carnaval é definido como um ensaio de androginia. Já Noturno em Ré(cife) traz o ator e diretor Antonio Cadengue como um vampiro bissexual.
No filme-poema A flor do lácio é vadia, de Geneton Moraes Neto, sobre o colonialismo cultural, Jomard Muniz de Britto atuou como ator, fazendo uma performance diante das ruínas do Forte Orange, em Itamaracá e Funeral de uma década em brancas nuvens, na qual compara a repressão militar e o vazio cultural da década de 1970 comprando-a com a efervescência dos anos 1960.
Seu trabalho com o super-8 foi importante para uma geração que utilizou câmeras de pequeno formato como instrumento de contestação estética e política.Uma obra que continua sendo redescoberta. Em 2017, a jornalista Fabiana Moraes e o historiador Aristides Oliveira publicaram Jomard Muniz de Britto: Professor em transe, biografia que recupera sua trajetória. Em novembro de 2025, o 16º Janela Internacional de Cinema do Recife exibiu filmes do realizador que passaram por processos de digitalização e preservação. Foi uma oportunidade de apresentar sua produção experimental a novas gerações.
REPERCUSSÃO
Amiga de Jomard Muniz de Brito, a atriz e cineasta Luci Alcântara dirigiu o documentário JMB, o Famigerado, que ganhou dois prêmios no Cine PE: Festival do Audiovisual de 2011: o Prêmio Especial do Júri Oficial e o Prêmio do Júri Popular. Em seu perfil do Instagram, ela se despedu do amigo por meio século:
"Meu mestre cênico, meu ídolo literário, meu SUJEIToBJETO fílmico!Jomard, meu amor, nossa peleja em nosso filme JMB, O FAMIGERADO, é meu atentado de bricolagem audiovisual, filmado confortável e desconfortavelmente por essa sua bisneta Lucética. Um beijo de sua imperiosa cineasta vampira, Luci Alcântara."
O crítico de cinema e professor Paulo Cunha foi um dos primeiros a comentar a morte de Jomard Muniz de Britto, em sua conta no Instagram
“Foi um dos maiores amigos que tive. Brilhante pensador e criador. O Brasil perde um dos seus maiores intelectuais. Vai fazer uma falta enorme. Grande parte da alegria de Pernambuco adormece. Que sua memória seja sempre reavivada. Adeus, meu querido”.
O também crítico de cinema e cineasta Alexandre Figueirôa postou em sua conta na mesma rede social uma citação de autoria de JMB, extraída do livro Terceira aquarela do Brasil (1982), em sua memória (citada textualmente):
“brasil não é o meu país: é meu abismo. o terreiro de minhas, nossas contradicções. é meu câncer coletivo e a força luminosa da escuridão. é nosso discurso interrompido, sufocado e arrebentador. o brasil não é o meu país: é meu veneno. é a miséria que nenhum milagre ocultou. não é a esperança discreta mas concreta e escandalosa de que tudo (ainda) pode acontecer para melhor. é a dificuldade de conscientização diante de tantos séculos de escravismo colonial. o brasil não o meu país: é meu anti-discurso. são ideias e traumas dentro e fora do lugar. são corpos em tempo de fome, mesmo assim luzindo de paixão. o brasil não é o meu país: é nossa esquizofrenia. o brasil não é o meu país: é um videotape de horror.”
O jornalista Márcio Bastos relembrou como conheceu Jomard, ainda garoto, durante o lançamento de Atentados poéticos. “Eu devia ter uns 11 anos quando meu avô me levou para o lançamento do livro. Eu lembro da fila enorme, das pessoas interessantes. Lembro de chegar na nossa hora de receber a dedicatória e ficar diante daquele homem alto que tirou um tempo para perguntar o que aquela criança, eu, achava de poesia. Eu não achava nada. Mas ele se importou, conversou comigo”, relembrou em post no Instagram. “Eu revisitava aquele livro várias vezes na biblioteca do meu avô, talvez menos pelo conteúdo (eu não entendia nada de poesia, afinal), mas pela curiosidade que já começava na capa, com uma colagem de imagens, entre elas de um homem nu. Eu estava entrando nos abismos da Pernambucália e nem sabia”.
Quando se tornou jornalista, Marcio viu Jomard se tornar “uma figura cada vez mais importante” em sua vida, principalmente quando passou a pesquisar sobre o ator Roberto França, Pernalonga, para um perfil biográfico, e a história do Vivencial Diversiones, para o livro Lantejoulas no mangue, lançado no sábado, véspera da morte de Jomard. “Não tem como pensar a cultura pernambucana, nordestina e brasileira sem Jomard. Na literatura, no cinema, na filosofia, seu pensamento disruptivo, inclusivo, radical, nos ajuda a buscar novas formas de estar no mundo. Por isso ele foi um caso de paixão mútua dele com o Vivencial”, escreveu Marcio, ressaltando que Jomard teve uma “importância total” para o grupo teatral. “Não dá para pensar o Vivencial sem Jomard, não só pelas contribuições diretas, como os filmes ou as dramaturgias, mas pela liberdade que Jomard sempre propôs e que o grupo soube incorporar em todo o seu fazer. É impossível não ficar arrasado com a partida de Jomard, mas é preciso celebrar seu gosto pela vida, pelas pessoas e pela cultura brasileira, essa que é misturada, malcriada, inquieta, insubmissa e que brilha apesar de tudo”.
O professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de Pernambuco Anco Marcio Tenório Vieira também escreveu um depoimento emocionado: "Um dos meus pilares intelectuais. O conheci em 26 de novembro de 1982, quando do lançamento do seu livro Terceira Aquarela do Brasil, na Livraria síntese, na Rua do Riachuelo, no Recife. Eu era um moleque de 17 anos, cursando ainda o científico. Espantou-me as performances promovidas naquela noite. Naquela noite, todo um mundo se abria para mim. Desde então, nos tornamos amigos. Uma amizade sempre impregnada de uma permanente admiração. Jomard foi a mente mais inquieta que conheci, mais livre, mais transgressora, uma verdadeira metralhadora giratória. Desconstruindo permanentemente mitos, verdades estabelecidas, mediocridades que se escondem atrás de títulos acadêmicos, honrarias oficiais e cargos públicos, Jomard foi a nossa verdadeira antena da raça. Recife é resultado de muitos imaginários, e Jomard, sem dúvida, é um dos seus mais potentes criadores. Afinal, existe um Recife de Gilberto Freyre, de Joaquim Cardozo, de Manuel Bandeira, de João Cabral de Melo neto, de Alberto Cunha Melo, de Josué de Castro, de Mauro Mota, de Hilton Lacerda, de João Câmara, mas existe um Recife criado por Jomard, tecido por Jomard, um Recife em que "A GRANDE SOLIDÃO NÃO É MAIOR DO QUE A mínima". Viva Jomard! Sempre, sempre Jomard: aqui, agora e SEMPRE!"
O presidente da Fundação de Cultura do Recife Marcelo Canuto lamentou a morte do artista: "Hoje dou adeus ao amigo Jomard Muniz de Britto, uma das figuras mais inquietas e marcantes do pensamento vanguardista pernambucano. Jomard fez da transgressão uma forma de pensamento e da experimentação uma maneira de intervir na cultura brasileira. Sua trajetória foi marcada pela irreverência, pela crítica e pela liberdade criativa. Somos privilegiados por termos convivido com uma figura da dimensão de Jomard, que transitou por diferentes linguagens artísticas e contribuiu para renovar o debate cultural em Pernambuco. Nem a repressão nem a censura silenciaram sua capacidade de questionar as estruturas de poder e os modelos consagrados de pensamento e criação. Mesmo ao ocupar cargos públicos, como a presidência da Fundação de Cultura do Recife, manteve-se como pensador, artista e ativista presente e atuante na cena cultural. Que sua irreverência e coragem continuem inspirando uma cidade e um estado que respiram cultura, desafiam convenções e enfrentam as contradições da vida com arte e poesia."