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Nas ondas do Futebol e da Imaginação

Em série que aborda a junção entre literatura e futebol, Sérgio de Castro Pinto, poeta e professor da UFPB, autor do poema "Didi", fala sobre poesia e o esporte mais popular do país

TEXTO Mario Helio

12 de Junho de 2026

Didi (Waldir Pereira) atuou como meio-campista da Seleção Brasileira de Futebol entre 1952 e 1962

Didi (Waldir Pereira) atuou como meio-campista da Seleção Brasileira de Futebol entre 1952 e 1962

Museu da Pelada/Alma Preta/ Reprodução

Neste sábado, dia 13 de junho, data da estreia da Seleção Brasileira de futebol na Copa do Mundo de 2026, a Continente dá início à publicação de uma série especial. De textos e peças audiovisuais em torno desse que é o mais popular esporte no país. A cada nova partida do Brasil, serão publicados novos conteúdos.

Inauguramos a série com o poema “Didi”, do poeta Sérgio de Castro Pinto, autor de livros como Domicílio em trânsito (Civilização Brasileira, 1983) e de uma antologia inteira em torno do assunto: A flor do gol (Escrituras, 2014). Para situar o tema na vida e na obra desse grande autor contemporâneo, temos uma pequena entrevista com ele, que lê-se a seguir. 

CONTINENTE Camões se refere a um saber de experiências feito. Com esta frase na mente, penso que há os que escreveram sobre o futebol não apenas por gostar do jogo, mas por conhecê-lo também na prática. Foi o caso de João Cabral, de Pasolini, de Camus e Sérgio de Castro Pinto. Qual a sua experiência concreta com o futebol? Em que posição jogou?
SÉRGIO DE CASTRO PINTO Eu joguei na seleção do Pio X, colégio marista aqui de João Pessoa, cujo diretor, Irmão Paulo Berckmans, cumpria a função de um verdadeiro olheiro, inclusive se deslocando aos bairros para observar, entre os peladeiros, os que poderia chamar para treinar na seleção do Pio X. Os aprovados faziam jus a uma bolsa de estudo. O Pio X, então, era praticamente imbatível, pois o seu plantel contava, até mesmo, com profissionais do Botafogo. Eu jogava de meia-direita, cuja função, à época – o futebol mudou muito! – era ficar junto ao centroavante, para, juntamente com ele, marcar gols.

CONTINENTE Quando leio os seus poemas sobre alguns dos maiores jogadores de futebol, me ocorre pensar nos poetas gregos da Antiguidade que fizeram odes aos atletas. Pode contextualizar os seus poemas sobre Didi, Leônidas, Garrincha, Vavá e Jairzinho?
SÉRGIO DE CASTRO PINTO Dos citados, eu apenas vi jogar, pessoalmente, ou presencialmente, como se diz hoje, Garrincha. Os demais me chegaram pelas ondas do rádio, pela narração de Oduvaldo Cozi, Waldir Amaral e Jorge Curi, principalmente. Aliás, tenho um poema, oferecidos ao meu amigo e cronista Phelipe Caldas, em que remonto a essa época. O título do poema é “ouvindo imagens”, pois não havia televisão e nos postávamos ao pé dos rádios Philips ou Pilot para ouvirmos a narração dos jogos. Eis o poema:

no rádio, as vozes
era válvulas
de escape
do imaginário.

eram vagens
de imagens
que eu
debulhava
uma a uma,
grão a grão:

sintonizava
o dial
do rádio
nas ondas da imaginação.

CONTINENTE Na sua opinião, há, na atualidade, jogadores de futebol que mereçam um poema tanto quanto esses antigos craques?
SÉRGIO DE CASTRO PINTO Atualmente, os jogadores não merecem poemas porque não têm poesia. Garrincha, para mim, com o seu jeito “gauche”, foi um personagem em busca de um autor. Didi também tinha o seu lado troncho, torto, a "folha seca" que o diga. E quanto a Jairzinho e Vavá, o primeiro era um Furacão e o segundo um Leão, ambos rimando e rompendo a defesa adversária. Já Leônidas, segundo dizem, inventou a “bicicleta”, o suficiente para ser lembrado até hoje.

DIDI
(Sérgio de Castro Pinto) 

À memória de Elzo Franca, amigo e primo.

didi bate a falta com efeito.
o goleiro adversário é puro espanto:
vê a bola de couro
me-ta-mor-fo-se-ar-se
em uma folha seca
do mais triste outono.

a torcida faz a festa.
e a bola não é mais a bola,
a redonda, o balão, a esfera,
não é mais folha seca,
mas a semente, o goivo,
a flor do gol explodindo em primavera.

 

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