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Davanira, um personagem inesquecível na história do Carnaval

Comercial criado para as Casas José Araújo completa 35 anos em 2027

TEXTO Cleide Alves

28 de Setembro de 2026

Veruska Luna, a eterna Davanira, é formada em Direito e trabalha como advogada

Veruska Luna, a eterna Davanira, é formada em Direito e trabalha como advogada

Fotos Leopoldo Conrado Nunes/Cepe

Experimente escrever o nome Davanira na barra de endereços do seu computador, faça uma busca e veja o desfecho. Para a nossa pesquisa, dos 73 resultados mais relevantes exibidos, 61 apresentaram a personagem criada pelo publicitário Carol Fernandes para um comercial de Carnaval das Casas José Araújo. O vídeo da menina que dançava na varanda e causava frisson num grupo de rapazes fantasiados de mulher, no Carnaval de Olinda, foi lançado em fevereiro de 1992. Lá se foram 34 anos, a propaganda continua viva na memória das pessoas e permanece arrancando sorrisos, até de quem não viveu a época.

Davanira é um nome que vem acompanhado de complemento: é ela! E foi ela quem apareceu na redação das revistas Continente e Pernambuco, logo depois da publicação de um texto do ilustrador e cronista Miguel Falcão relatando suas aventuras com uma jiboia de estimação chamada Davanira. A garota sapeca que estendia roupas na varanda no comercial de Carol Fernandes (1936-2016) é hoje uma advogada de 48 anos, com atuação inicial no direito trabalhista, mas agora dedicada à área civil. E está cursando a faculdade de psicologia, para aplicar os conhecimentos no trabalho e auxiliar na emissão de laudos.

“Eu considero Carol Fernandes genial, ele merece todas as homenagens e, na minha opinião, faleceu sem ser reconhecido como deveria”, afirma a advogada Veruska Luna, que habita o imaginário popular na figura de Davanira. Veruska é mãe de um adolescente de 14 anos e segue a doutrina espírita da família. Desde criança, ela brincava Carnaval em Olinda, onde morou até os 5 anos, e participava das campanhas de caridade realizada pela avó, com distribuição de cestas básicas, sopa e enxovais para as gestantes. “Todos da família se envolviam e contribuíam para as cestas”, recorda Veruska Luna.

No centro espírita em que trabalha, a lembrança da avó está sempre presente no projeto Colmeia de assistência social, voltado para mulheres grávidas. “Elas aprendem crochê e bordado para ter uma atividade e recebem um kit de enxoval, é uma herança e uma homenagem à minha avó”, declara Veruska Luna. A personagem da propaganda publicitária, diz ela, não interferiu no rumo da sua vida. Nem a fama subiu à cabeça. “Impactou positivamente, mas Veruska é outra pessoa, ela não é Davanira”, ressalta a advogada que ainda é freguesa das Casas José Araújo. “Eu compro tecidos lá desde a época do comercial.”

Sem a maquiagem que transformou uma menina de 13 anos numa jovem com ares de 25, Veruska não era reconhecida na rua, nem mesmo no ano do lançamento do vídeo. “Foram quilos de pó no rosto, eu aparentava ter uns 25 anos no comercial”, comenta. A cena foi gravada numa casa no Sítio Histórico de Olinda, junto do Mercado da Ribeira. “Minha mãe me acompanhou o tempo inteiro, lembro que a casa estava cheia de imagens de santos, o proprietário era colecionador, e eu abri e fechei aquela janela bilhões de vezes.” Depois da gravação, ela não teve mais contato com nenhum dos participantes.

“Eu não tinha noção da sensação causada por Davanira, meu mundinho se resumia à casa da minha família e à escola, um colégio de educação muito rígida”, observa. Na avaliação da advogada, Davanira deixou de ser um símbolo sexual, de desejo, e virou memória afetiva. “Até hoje, ninguém substitui Davanira, assim como ninguém esquece Gabriela e Tieta, é impressionante para uma época em que não havia internet e no mundo atual, com tudo tão passageiro”, destaca Veruska. Ela se vestiu de pierrô para um comercial de supermercado e fez outras propagandas. Nenhuma marcante como Davanira.

Há pouco tempo, o vídeo de Davanira foi repostado em redes sociais e chegou a mais de 700 mil visualizações, diz Veruska. De acordo com ela, 98% dos comentários remetiam à memória afetiva: gente que viu o comercial, gente que ouviu falar do comercial por meio dos pais. “Tinha uns 2% de críticas, por causa da minha idade, o grande debate era saber onde estava a minha mãe, que permitiu isso”, afirma. “O fetiche não era para uma menor de 13 anos, não havia essa conotação de que estavam olhando para uma menina de 13 anos”, responde a advogada, ao comentar a polêmica nas redes sociais.

Ela acrescenta que não se deixa abalar por opiniões, boas ou destrutivas. “Sou do signo de áries, tenho a fortaleza das arianas”, ressalta. “Prefiro ver a alegria causada por Davanira”, diz Veruska. E cita uma garota que ela viu na janela de uma casa, na Ilha de Itamaracá (Grande Recife), imitando a personagem do comercial, os animais denominados de Davanira (gata, cadela, jiboia), e pessoas que olham para ela e falam: você me lembra alguém. “Uma vez, eu indaguei se era Davanira e disse que ainda sou ela, aí perguntaram se eu não pensava em fazer um revival. Não precisa, ela se eternizou”, responde.

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