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Bloomsday em Porto Alegre une Joyce e Guimarães Rosa

Instituto Ling realizou, no sábado (13), festa literária para discutir e celebrar os autores de "Ulysses" e "Grande Sertão: Veredas"

TEXTO Mario Helio

15 de Junho de 2026

Os professores Sergius Gonzaga, Donaldo Schüler, Kathrin Rosenfield e o jornalista Milton Ribeiro

Os professores Sergius Gonzaga, Donaldo Schüler, Kathrin Rosenfield e o jornalista Milton Ribeiro

Foto Mario Helio

Amanhã é o Bloomsday. Os iniciados na literatura irlandesa sabem o que significa. É o dia de Bloom, o personagem principal do romance Ulysses, de James Joyce. Precisamente o dia em que transcorre a história e que, não por coincidência, marca também a data do primeiro encontro do autor com sua mulher. Em Porto Alegre, a celebração ocorreu de modo antecipado, no sábado, dia 13. Comemorou e comparou dois escritores. O próprio Joyce, é claro, e João Guimarães Rosa, que tem neste ano diversas obras completando aniversário.

No Instituto Ling, em Porto Alegre, tivemos a Festa Literária Bloomsday: entre Dublin e o Sertão. Um banquete de música e literatura, com o grupo Orda e os professores Kathrin Rosenfield, Donaldo Schüler e Sergius Gonzaga, tendo como moderador o jornalista Milton Ribeiro, da livraria Bamboletras.

O moderador começou com uma indagação e, ao mesmo tempo, informando os dados iniciais das diferenças: “O que esses dois podem ter em comum? O universo de um é o Sertão, e o do outro é o universo urbano de Dublin. Então, esses paralelos, essa comparação entre os dois faz sentido?”

Donaldo Schüller tratou de afastar Guimarães Rosa de uma característica tão da cultura brasileira – a antropofagia –, formulada teoricamente por Oswald de Andrade. Mas a professora Kathrin Rosenfield, que publicou mais de um livro totalmente dedicado a interpretar e ‘traduzir’ Rosa, ponderou: “Guimarães Rosa era um artista muito mais discreto, mas ele é antropofágico também, no sentido dos modernismos, porque ele, de um lado, bebe da fonte da oralidade do sertão, integra todas aquelas cadências musicais da poesia popular; por outro lado, ele bebe de uma série de, como ele sempre diz, livros sagrados. O que são os livros sagrados de Rosa? São, na verdade, os mitos universais dos quais ele se alimenta. Ele absorve as estruturas míticas e faz, antropofagicamente, uma profunda análise das relações políticas e sociológicas brasileiras”.

Sergius Gonzaga aproximou Joyce e Guimarães Rosa pelo “exílio” e a poesia intrínseca nas narrativas dos dois. Donaldo Schüller comentou os neologismos de Finnegans Wake e do Grande Sertão. Sendo o irlandês muito mais cerebral, que o levou a manejar e manipular um idioma próprio, que combina diversas línguas, inclusive o português. “O português aparece no primeiro trovão da primeira página, trovar e trovão, há os dez trovões, que atravessam o romance, os abalos sísmicos”.

A professora Kathrin Rosenfield, novamente, pôs em evidência, um aspecto um tanto quanto diferente disso. Ela disse: “A linguagem que o Guimarães Rosa usa, às vezes a gente acha que são neologismos, muito difíceis, ou palavras que à primeira vista não fazem sentido. Mas a grande maioria é de recuperações de palavras que existiam e que estão ainda em uso no Sertão, mas foram esquecidas nos centros urbanos, onde a linguagem se homogeneizou e, de certa forma, ficou mais rala, mais cotidiana, mais desinteressante. Guimarães Rosa quer despertar o interesse pela riqueza das linguagens que existem dentro do Brasil. De certa forma, é uma prolongação do projeto do Euclides da Cunha, que escreveu Os Sertões, e alertou para riquezas de que os brasileiros estão inconscientes: da geografia e geologia do país.”

MARIO HELIO, editor das revistas Continente e Pernambuco

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