Música

Vinícius Tavares reelabora a cultura popular entre aboios, beats e cinema

Artista de Toritama, no Agreste Setentrional, estreia com Zé do Cão - Cap. 01 nas plataformas digitais nesta sexta-feira (1º)

TEXTO Guto Moraes

29 de Abril de 2026

Vinícius Tavares, cantor, compositor e produtor de Toritama

Vinícius Tavares, cantor, compositor e produtor de Toritama

Foto Virgínia Guimarães/Divulgação

Vinícius Tavares, 29, tem o hábito de falar na terceira pessoa. “A gente não tá fazendo nada do zero. Só tá criando novas roupagens pra dizer mensagens muito antigas e, também, atuais”, justifica, ante a proposta de adaptar sua entrevista para a primeira pessoa. Nesta sexta-feira (1º), o multiartista compartilha com o mundo seu EP de estreia, Zé do Cão - Cap. 01, lançado pelo selo Facção de Arte. A obra nasce em Toritama, o menor município em área territorial de Pernambuco, com cerca de 25,7 km2, localizado a 170 km do Recife, e uma das maiores indústrias de confecção têxtil do Brasil.

Ao longo de sete faixas, com duração de 20 minutos, o artista agrestino se veste de uma infinidade de retalhos e tecidos que compõem a sua pesquisa musical e artística. Autoral e independente, a obra foi produzida em um home studio, entre 2024 e 2026, a começar pela faixa “Bota idéia Zé”, que, no formato atual, encerra o EP. “Foi uma das músicas que nortearam a produção. Ela tem elementos muito industriais, fala de poesia e traz elementos do cinema nacional. Adotei uma confecção semelhante às demais, pois extraí muitos samples do cinema, além de todas as outras referências musicais.”

A faixa escolhida para abrir Zé do Cão - Cap. 01 é “Deus é brasileiro e o Cão também” — uma espécie de anunciação. “No Agreste é só beleza/ Meu Sertão é multicor/ Desvende os óio dos assum preto/ Pra-mode assim enxergar melhor”, diz a estrofe inicial, em repente. O rap e o aboio também se costuram à produção, que reúne, ainda, samples do filósofo, poeta e guia ético dessa obra, Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo (em memória), e do musical A Noite do Espantalho (Sérgio Ricardo, 1974), obra do Cinema Novo gravada na vizinha agrestina Nova Jerusalém.

Trata-se de um álbum sonoro com forte apelo imagético, que remonta a tradições nordestinas já reconhecidas, a exemplo da cantoria de viola e do coco. Mas há aqui também convergências improváveis, como na faixa 2, a futurística “Cavalo do Cão”. A Rádio Guimarães, projeto experimental da artista Virgínia Guimarães, anuncia a produção, que transita entre a embolada, o eletrococo e o vogue. São produções com as quais o artista espera alcançar DJs, casas noturnas e pistas eletrônicas. “Por que temos que escutar sempre músicas eletrônicas estrangeiras? É uma música que pode ser tocada no mundo inteiro e todo mundo vai se divertir.”

Além do vocal e das composições, Vinícius Tavares assina toda a gravação e a pré-mixagem do EP. A mixagem final e a masterização ficaram por conta do artista Rimas INC, no Recife. Zé do Cão - Cap. 01 soma também samples do filme 2001 - Uma Odisséia no Espaço (Stanley Kubrick, 1968), do poeta Pinto do Monteiro e as participações da repentista e rapper sertaneja Jéssica Caitano, que adiciona suas linhas à faixa “Vai cair Corisco”; de Virgínia Guimarães, em “Vende-se coisa bonita”; e da cantora Nathália Tenório, em “Bota idéia Zé”.

VOGUE DO AGRESTE
No último dia 22 de abril, o artista liberou o single e videoclipe para “Música de bailinho”, faixa onde Vinícius Tavares desloca a embolada sem que ela perca o pulso oral, mas ganhe grave, síncope e pista. Sobre bases de dancehall, os versos correm ligeiros, como se o improviso percussivo encontrasse o paredão. A atmosfera evoca as performances de vogue das cenas de ballroom, mas o chão permanece agrestino. É Brasil: no chacoalhar do caxixi, na pisada do tamanco do coco, na corporeidade que mistura tradição e performatividade. “Escolhemos ela para abrir os caminhos do EP. É a faixa mais pop do disco”, justifica Vinícius.

Se a composição evoca a euforia e o desejo da noite, o clipe contou com um set diurno e bastante solar. “Os visuais vão subverter isso. Zé do Cão é bem dual. Ele vai brincar muito com as expectativas”, afere o artista. No clipe, a bandeira do Brasil e a Toyota Bandeirante, ícone recorrente no cotidiano agrestino, não aparecem como ornamento, mas como inscrição geográfica da narrativa. Já o chapéu que veste o palhaço sério — capa do EP inspirada no Mateu do reisado do congo — funciona como síntese visual do projeto: tradição popular convertida em signo pop. Ao refletir feixes de luz, o adereço remete ao globo espelhado das pistas e transforma o folguedo em terreiro futurista.

DO CINEMA NOVO AO REISADO DO CONGO
O cinema atesta sua influência desde o título deste lançamento. Aqui, Vinícius Tavares ressuscita e estrela Zé do Cão, personagem do psicodélico drama musical A Noite do Espantalho. “O álbum já existia e estava quase em finalização”, lembra Vinícius. “Começo a produzi-lo falando sobre um Zé qualquer, esse nome tão popular no Nordeste. Um Zé escrevendo suas ideias e almejando cantar para o mundo”, explica. Foi quando uma amiga lhe enviou o filme de 1974, do músico Sérgio Ricardo, conhecido por quebrar um violão no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em 1967.

Na obra, gravada em Nova Jerusalém, Zé do Cão aparece em cima de uma moto prata, vestido de maribondo. “Fico entusiasmado com a subversão de Zé do Cão. Ele é um Zé botando ideia. Porém só existe um Zé do Cão, entende?”, relembra. No entanto, Vinícius vai além de emular o personagem. Se, no filme, o personagem é um jagunço, na produção do artista de Toritama ele é um palhaço sério, seu Mateu do Reisado do Congo, outro personagem com o qual Tavares dialoga e cuja existência atravessa desde a sua inserção na manifestação cultural, em 2022.

É assim que ele se apresenta ao público desde a capa deste Cap. 01. “O Mateu, esse palhaço do reisado, é a figura que faz o contato com o mundo. A figura que puxa o cortejo. Nada mais justo que trazer essa característica simbólica de abrir o mundo para uma nova estética”, explica Vinícius. “O palhaço é muito subversivo e a capa o traz sério. De alguma maneira, é continuar essa subversão. O palhaço é, talvez, uma das profissões mais marginalizadas que existem — e sempre foi assim. Os bobos, os doidos, os palhaços. Agora ele vem travestido de Zé do Cão. Imagina: que palhaço é esse?”.

O projeto foi realizado com incentivo do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura), do Governo do Estado de Pernambuco, através da Secretaria de Cultura e da Fundarpe.

SERVIÇO
Lançamento do EP “Zé do Cão - Cap. 01”, de Vinícius Tavares
Disponível nas principais plataformas de streaming (Spotify, Deezer, Apple Music e YouTube Music)

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