Música

Rock in Rio: a música é um detalhe

O gigantismo do festival carioca o afasta do rock e da música em geral, mas reflete o gosto contemporâneo e a forma de consumir cultura, cujo modelo chegou ao extremo do comercialismo tecnológico

TEXTO Marcelo Abreu

10 de Setembro de 2026

Foto Divulgação

A 11ª edição brasileira do Rock in Rio assumiu dimensões tão grandes em termos de estrutura que deixa muita gente atordoada. Nos últimos anos alguns críticos já vinham apelidando o festival de “parque temático” ou “praça de alimentação”, mas isso é muito pouco para definir o delírio comercial-tecnológico travestido de festival musical instalado no antigo Parque Olímpico construído na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro.

A Barra, por si só, já representa um crescimento e uma pujança econômica nos últimos trinta anos que desafia a compreensão num país sempre em crise, como o Brasil. O crescimento do bairro só permite comparações com algumas cidades da China ou países do Golfo Pérsico, como os Emirados Árabes Unidos. O Rock in Rio, no seu modelo atual, não poderia estar mais bem localizado.

É bom deixar claro que nunca houve propriamente pureza de intenções em shows de rock. Mesmo festivais como Monterey Pop, em 1967, e Woodstock, em 1969, ápices do despojamento hippie, foram idealizados para ganhar dinheiro. No caso de Woodstock, símbolo do movimento da contracultura (saudado até como uma volta ao Jardim do Éden na composição “Woodstock”, de Joni Mitchell, famosa nas vozes do quarteto Crosby, Stills, Nash & Young), foi organizado por dois jovens empreendedores (Joel Rosenman e John Roberts) que se associaram a dois hippies com tino para negócios (Artie Kornfeld e Michael Lang). O festival deu prejuízo, as cercas foram derrubadas e poucos pagaram entrada. Mas havia o filme que deu lucro em médio e longo prazo e divulgou a mitologia em torno do evento para o mundo todo. Vinte e cinco anos depois, em 1994, num mundo já bem mais controlado e vigiado, o mesmo Woodstock sofreu da mesma desorganização (este repórter que escreve entrou sem mostrar ingresso porque, novamente, as cercas tinham sido derrubadas).

Quando o Rock in Rio surgiu em 1985 já despertou críticas sobre seu comercialismo. Um disco lançado antes do festival, por exemplo, era motivo de chacota. A escolha dos participantes, já na época considerada muito eclética para o gosto dos roqueiros, também recebia críticas. Mas comparado com o que o festival se tornou a partir da quarta edição (em 2011), aquele parecia um encontro de camponeses numa fazenda deserta (a Barra era, então, quase deserta mesmo, com exceção da estrutura para convenções chamada de Rio Centro, do antigo autódromo e da orla).

Esta edição de 2026 levou o modelo implementado em 2011 ao extremo do comercialismo tecnológico. O festival fez acordo com 400 empresas diferentes, licenciando produtos para usarem sua marca: bancos, operadoras de celular, empresas de IA, salgadinhos, chocolates, o que se possa imaginar. Talvez nem a Copa do Mundo recente tenha atraído tanta publicidade. A cidade do Rio foi inundada de anúncios estampados nos cartazes luminosos e outdoors, nas ruas e na televisão. A associação com o grupo Globo fez da mídia uma verdadeira porta-voz oficial do festival.

Os 350 mil metros quadrados de área ocupada na Barra reforçaram a imagem de parque temático do consumismo misturado com praça de alimentação, onde muitos vão para brincar de tirolesa, receber brindes dos patrocinadores e, claro, tirar muitas selfies para dizer “eu fui”. A música? Bem, essa é quase um detalhe. O que vale para os organizadores é a tal “experiência”, o supremo clichê do mundo do comércio de serviços.

Mesmo detalhe, a música se espalha por seis palcos para atender a todos os gostos (e todos os gastos): do brega ao funk, da MPB ao techno, com um espacinho até para o rock and roll. Para agradar ao público, não tinha como ser diferente. O ecletismo faz parte dos tempos atuais. Hoje em dia chega a parecer uma brincadeira intolerante a forma como, no passado, estilos musicais eram defendidos e brigavam, uns contra os outros: bossa nova x bolero, samba x jovem guarda, rock x discoteca.

Roda Gigante no Rock in Rio. Foto: SMGrafias/Divulgação

A praticidade (para alguns, boçalidade) tecnológica dominou o festival. O mundo do aplicativo se fez presente em todos os passos, na compra do ingresso, no ingresso propriamente dito. No transporte especial, desta vez com direito a uma primeira classe que custa pelo menos R$ 220,00, no transporte em BRTs para os menos abonados. Até para comprar comida, somente se aceita cartões como pagamento. Quem tiver somente dinheiro vivo tem de colocar carga em um cartão especial, num determinado ponto do Parque Olímpico, para poder comprar uma cerveja, por exemplo. No festival não circula dinheiro vivo. Parece até o sonho comunista do cambojano Pol Pot e seu Khmer Rouge. Suprema ironia. Não circula espécie, bem-entendido, mas as cifras virtuais financeiras envolvidas em todo o festival estão na casa dos bilhões de reais.

A mistura de luzes, os gigantescos pontos de vendas de lembrancinhas, a variedade de alimentação, os brinquedos como roda gigante e trirolesa, o camarote Vip com celebridades badalando como numa festa (a música é sempre um detalhe) lembra uma Las Vegas tropical encravada num ambiente delirante de nouveaux riches. Com direito a voos rasantes de aviões, drones sincronizados, shows pirotécnicos entre uma banda e outra. A transmissão pelos canais do grupo Globo não dá nem de longe a dimensão da grandiosidade do local. Tem de ver para crer.

Como não podia deixar de ser, o Rock in Rio adotou todo o modismo discursivo contemporâneo. Aquela mistura de boas intenções, cinismo e picaretagem que o mundo publicitário nos ensinou a tolerar na televisão, todos os dias. Proteção da natureza, alimentação dos desfavorecidos, carbono zero, etc. Uma verdadeira aula de cinismo onde causas nobres servem para ganhar muito dinheiro. Tudo “por um mundo melhor”.

Show de Péricles no Palco Sunset, na segunda-feira (7). Foto: Divulgação

O Palco Sunset, o segundo em importância, cresceu tanto que mais parece o antigo Palco Mundo, o principal. O Mundo, por sua vez, é agora um gigante de 31 metros de altura por 107 metros de largura, todo revestido de paneis LED. Impressiona, mas a visão para o público não é boa. Quanto mais a tecnologia evolui, mais parece que crescem de tamanho as torres que abrigam mesas de som e luz, colocadas nos locais nobres do gramado, o que impede bastante a visão dos que estão atrás.

ESTÁTUA O festival de 1985, o primeiro Rock in Rio, faz parte da mitologia perpetrada pela família Medina. Há fotos daquele tempo espalhadas numa espécie de cidade cenográfica montada no Parque Olímpico. Há uma estátua do empresário Roberto Medina, idealizador do Rock in Rio, encostado em um automóvel Passat da época. Claro que virou ponto de selfies. Os que passam no local tiram fotos com a estátua.

QUEEN Na cidade cenográfica tem também uma igrejinha intitulada “Capela Love of my life”, numa lembrança da música do Queen, considerada um dos grandes momentos do primeiro festival.

CAMISETAS Com a melhora dos banheiros em relação a edições passadas e a sofisticação geral, o festival assume um tom mais asséptico. Nos arredores, ficou ausente o tradicional e saudável comércio de camisetas de rock por vendedores ambulantes.

GUILHERME ARANTES Uma das lacunas do festival durante todos esses anos era Guilherme Arantes, que somente este ano subiu ao palco do Rock in Rio, mesmo assim com uma participação especial dentro do show do Roupa Nova. Cantou somente três músicas, entre elas “Lindo balão azul”, composição fez sucesso com a Turma do Balão Mágico. Arantes havia feito críticas pesadas ao festival, no passado, mas acabou aceitando o convite este ano.

FUNK Na madrugada da terça-feira (8), depois de ouvir Elton John encerrar o show com a delicada “Your song”, parte das milhares de pessoas se retiraram do festival passando em frente ao stand gigantesco de um banco patrocinador onde Fernanda Abreu fazia uma homenagem ao que denominou como “clássicos do funk carioca”, cantado o refrão “calcinha Exocet” da música “Kátia Flávia, godiva do Irajá”, de Fausto Fawcett.

MAD MAX Passar perto do Palco Favela e ouvir os grupos de trap e funk esbravejando sobre drogas, polícia, armas e violência lembra, no meio daquelas luzes feéricas, um pouco o universo dos filmes de Mad Max.

QUERMESE PÓS-TUDO Aquelas luzes todas piscando com os stands cada vez mais produzidos lembram uma festa de rua para homenagear a padroeira no interior. Só que nas quermesses há uma sensação orgânica com a barraca da mulher que vira macaco e os joguinhos de atirar no pato com espingarda de ar. No Rock Rio é um delírio megalomaníaco autorreferente e pós-moderno, quase também pós-música.

NO CARNAVAL É uma história boa demais para não ser (mal)contada. Aproveitando a grande atração do Rock in Rio deste ano, o próprio site oficial de Elton John relembrou, há poucos dias, a passagem do cantor pelo carnaval do Rio, em 1978. Foi noticiado, na época, que o cantor se hospedou num hotel, pediu para ouvir discos brasileiros e não badalou muito. Agora, divulgaram dois fatos curiosos: primeiro, uma foto de Fafá de Belém abraçando Elton na praia. Depois, uma foto de Elton chegando, vestido de marinheiro, num baile no Copacabana Palace. Segundo a versão, o cantor foi barrado sob o pretexto de que não era um ambiente para marinheiros. Mesmo explicando que estava apenas fantasiado, não deixaram entrar. Difícil acreditar que o cantor de maior sucesso em sua época fosse barrado em um baile de carnaval. Mas a história ficou boa e até hoje é recontada.

MARCELO ABREU, jornalista e autor de livros de viagens

veja também

Afropunk chega ao Recife, mas o punk ficou pelo caminho

MAJU estreia espetáculo cênico-musical "Por um fio"

Bruno Hrabovsky traz "Rock ao Piano - Especial Queen" ao Recife