Afropunk chega ao Recife, mas o punk ficou pelo caminho
Com Lia de Itamaracá, Ebony e Linn da Quebrada na Concha Acústica da UFPE, edição do sábado (12) mostra como o festival cresceu e mudou de rumo
TEXTO Humberto Santos
10 de Setembro de 2026
Foto Gabriel Renne/Divulgação
O Afropunk de hoje já não tem o punk de antigamente. No Recife, os artistas confirmados mostram essa mudança. O som é outro, o evento cresceu e o gênero que batizou o projeto acabou ficando de fora das atrações principais.
A trajetória dos músicos negros no rock pesado norte-americano começou décadas antes de o festival ganhar forma. O Death, formado em Detroit em 1973 pelos irmãos Bobby, Dennis e David Hackney, é um dos primeiros exemplos. No ano seguinte, o Pure Hell surgiu na Filadélfia, seguido pelo Bad Brains, em Washington, D.C., que trouxe a velocidade do hardcore e o ritmo do reggae para o circuito. Essas bandas provaram que o punk sempre teve protagonistas negros, embora o mercado tradicional frequentemente os ignorasse.
Essa realidade motivou o cineasta James Spooner no início dos anos 2000. Ele começou a documentar jovens negros na cena alternativa norte-americana e, em 2003, lançou o documentário Afro-Punk, que reúne entrevistas com mais de 80 pessoas. O filme acompanhava músicos e fãs negros em um ambiente majoritariamente branco.
Spooner começou a organizar shows no ano seguinte e, em 2005, criou com Matthew Morgan o AFROPUNK Festival, no Brooklyn. Naquela época, o rock e o hardcore faziam a base do evento, que nasceu como um manifesto político para garantir palcos e visibilidade próprios a esses artistas e ao seu público.
Mas a programação mudou conforme o festival cresceu. Grace Jones, Lauryn Hill e Lenny Kravitz estiveram nos palcos do AFROPUNK nos Estados Unidos, que também recebeu D’Angelo e Erykah Badu em diferentes edições. Em 2018, a noite do Brooklyn reuniu nomes como Tyler, The Creator, Janelle Monáe, Miguel, H.E.R., Daniel Caesar e a banda The Internet.
Spooner deixou a organização em 2008, após divergências sobre os rumos do projeto. Sem o criador original, o festival expandiu-se para outras cidades e países, incorporando moda, artes visuais e outras expressões da cultura negra ao redor do mundo.
Esse distanciamento das origens ganhou um novo capítulo em agosto de 2026. Após anos de disputa judicial para reaver os direitos de sua obra, Spooner relançou o documentário original de 2003 em versão remasterizada. O retorno da produção coincide com o lançamento de seu novo livro de memórias, It Starts with Anger, onde o diretor relata os bastidores da criação e critica a transformação do movimento contracultural em uma marca corporativa.
No Brasil, a estreia do festival aconteceu em Salvador, em 2022, reunindo Ludmilla, Emicida, Mart’nália, Margareth Menezes, Black Pantera, Liniker, Baco Exu do Blues e Karol Conká. No ano seguinte, a edição baiana recebeu Iza, BaianaSystem, Majur e Olodum. Em 2024, a norte-americana Erykah Badu e a britânica Lianne La Havas dividiram o palco com Jorge Aragão, Planet Hemp, Léo Santana, Duquesa e Ebony. Já em 2025, Jorja Smith liderou a grade ao lado de Liniker, Péricles e BK’.
O Recife guarda uma história paralela às origens do festival. Em 1988, no Alto José do Pinho, surgia a banda Devotos do Ódio, formada por Cannibal, Neilton e Celo Brown. A banda cresceu na cena punk da periferia recifense e buscou referências no hardcore norte-americano de grupos como o Bad Brains. Décadas antes de o Afropunk chegar ao país, a capital pernambucana já misturava de forma autêntica o rock de garagem, a realidade das ruas e a contestação negra.
A contradição é que o Devotos do Ódio não está na programação do Afropunk Recife. A ausência não tira o mérito do festival ou das atrações convidadas, mas o ruído é inevitável: a banda recifense que tem ligação direta com a história que deu origem ao evento ficou de fora justamente na edição que estreia em sua cidade.
Embora o nome continue o mesmo, a programação atual reflete a abertura para gêneros como o rap, R&B, funk e a música eletrônica. O festival que começou a partir de um documentário independente sobre a cena norte-americana chega ao Recife com outro formato.
O nome permaneceu. O punk ficou pelo caminho.
SERVIÇO
Afropunk - Experience Recife, com Lia de Itamaracá & Daúde, Ebony, Linn da Quebrada, Barbarize, DJ Boneka e Marley no Beat
Onde: Concha Acústica da UFPE — Av. Prof. Moraes Rego, 1235, Recife
Quando: Sábado (12), das 18h às 23h
Quanto: IDW Tickets
ATRAÇÕES DO AFROPUNK RECIFE
Lia de Itamaracá: Mestra da ciranda pernambucana, cantora e compositora reconhecida como patrimônio vivo do estado. Apresenta-se no festival ao lado de Daúde.
Daúde: Cantora e compositora baiana com trabalho focado na música brasileira e em referências africanas. Em 2025, lançou com Lia de Itamaracá o álbum Pelos olhos do mar.
Ebony: Cantora e compositora carioca atuante no rap brasileiro. Em 2026, lançou a versão deluxe do disco KM2.
Linn da Quebrada: Cantora, atriz e artista multimídia. Sua produção conecta funk, rap e música eletrônica, iniciada com o álbum Pajubá em 2017.
Barbarize: Projeto musical recifense integrado por Babi e YuriLumin, com bases no afrotrap, funk e afrobeat. O duo tem origem na Comunidade do Bode, no Pina, e lançou o álbum Manifexta em 2025.
Marley no Beat: Produtor musical e instrumentista ligado à cena urbana de Recife, conhecido pela produção de beats e pela faixa “CUBA Remix”, com Johnny Hooker e Pabllo Vittar.
DJ Boneka: DJ atuante em Pernambuco com repertório focado em vertentes da música negra e ritmos periféricos contemporâneos.
PLAYLIST — AFROPUNK: DAS ORIGENS AO RECIFE
Death – “Politicians in My Eyes” (Spotify) Pure Hell – “Noise Addiction” (Spotify) Bad Brains – “Pay to Cum” (Spotify)
Fishbone – “Party at Ground Zero” (Spotify) Living Colour – “Cult of Personality” (Spotify) 24-7 Spyz – “Stuntman” (Spotify)
Devotos – “Punk Rock” (Spotify)
Lia de Itamaracá & Daúde – “Florestania” (Spotify) Ebony – “Extraordinária” (Spotify)
Linn da Quebrada – “Enviadescer” (Spotify) Barbarize – “AQUITAQUENTE” (Spotify)
Marley no Beat, Johnny Hooker & Pabllo Vittar – “CUBA Remix” (Spotify)
Livro de James Spooner - It Starts with Anger (Site Oficial)
Campanha de Restauração e Relançamento do Filme Afro-Punk (2003)