Música

Recife Frevo Festival celebra tradição, mulheres e novos arranjos

Segunda edição do evento gratuito acontece nos dias 12 e 14 de março, no Teatro do Parque e no Paço do Frevo, homenageando o maestro Edson Rodrigues e reunindo orquestras e intérpretes

09 de Março de 2026

Foto Felipe Souto/Divulgação

O Recife Frevo Festival chega à sua segunda edição no dia 12 de março (quinta-feira), data em que Recife e Olinda comemoram aniversário. As apresentações artísticas acontecem no Teatro do Parque, a partir das 19h. Já no dia 14 (sábado), o festival promove sua etapa formativa no Paço do Frevo.

Os ingressos para os shows são gratuitos e poderão ser retirados na bilheteria do teatro, a partir das 18h. Os portões abrem às 17h e, desde a entrada do público, o frevo já toma conta do espaço, com seleção musical preparada especialmente para receber a plateia.

O festival mantém um eixo curatorial que vem se transformando em sua maior marca: promover o frevo com excelência de execução. Frevo para ouvir e, principalmente, para conhecer compositores, intérpretes e compreender o gênero como linguagem e experiência estética. O Recife Frevo pede escuta atenta e propõe uma mostra para que orquestras, maestros e artistas de diferentes gerações apresentem trabalhos desenvolvidos ao longo do ano, ainda que o Carnaval seja sua maior vitrine. O festival pretende ser, também, essa vitrine: um espaço de aprendizado sobre e com o frevo.

PROGRAMAÇÃO
Nesta segunda edição, duas orquestras estão em evidência. A primeira é a Orquestra do maestro Edson Rodrigues, homenageado de 2026 do Recife Frevo Festival. Um dos maiores mestres vivos do frevo pernambucano, Edson construiu uma trajetória que atravessa o Carnaval, a formação musical, a história do frevo e também do jazz no Recife. Como compositor, arranjador e regente, consolidou um legado seminal, assinando arranjos e coproduções que se tornaram referência no Carnaval e na música instrumental da cidade.

A Orquestra de Bolso (ODB) é uma revelação que nasceu no Carnaval de Olinda e ganhou o Brasil. Surgida em 2015, nas dependências do Grêmio Musical Henrique Dias, uma das maiores escolas de frevo de Pernambuco, a ODB tem formação compacta, com um representante por naipe. Além de clássicos, executa composições próprias de seus integrantes e de compositores menos conhecidos do frevo-canção e de rua. Para além dos palcos carnavalescos, atua durante todo o ano, circulando pelo Brasil, realizando oficinas e ações formativas, reafirmando o frevo como expressão cultural viva e em movimento.

No palco, a ODB, que tem à frente o cantor e saxofonista Ricardo Pessoa, convida artistas fundamentais para a história do frevo que está sendo feito hoje no estado. Para a apresentação, o primeiro convidado será Jota Michiles, representante da geração clássica do ritmo, Patrimônio Vivo de Pernambuco e um dos maiores nomes do frevo-canção. Autor de clássicos como Bom Demais e Me Segura Senão Eu Caio, soma mais de seis décadas dedicadas à música brasileira, reafirmando o frevo como tradição e permanência.

A ODB também será base sonora para os frevos rurais de Nailson Vieira, trombonista, poeta, cantor e compositor que, desde o berço, se alimenta da cultura da Mata Norte, sobretudo do maracatu rural. Em suas criações mais recentes, dialoga com o frevo de sotaque rural, unindo tradição e contemporaneidade em obras como Canto Espanto (2024).

Outra convidada é Laís Senna, cantora, compositora e atriz da nova geração pernambucana. Vencedora do Prêmio da Música Pernambucana 2025, ela mantém o frevo como presença constante em sua trajetória, renovando o gênero com timbre marcante e forte expressão cênica. Isadora Melo também sobe ao palco ao lado da ODB e apresenta o projeto experimental e digital Um Frevo por Dia, desenvolvido com Rafael Marques, será a primeira vez que a iniciativa, criada no ambiente virtual, ganha formato de espetáculo.

A proposta do festival é justamente mesclar a execução mais tradicional do frevo, por meio das orquestras, com projetos de caráter experimental. Além de Um Frevo por Dia, o público confere o Duo Frevo, em que flauta e piano revelam o gênero em linguagem camerística e refinada. Idealizado por César Michiles, que nesta edição se apresenta ao lado do pianista Romero Medeiros, o projeto transforma a energia das ruas em uma experiência de escuta sensível, ampliando os horizontes musicais do frevo.

A dança também ocupa espaço nesta edição. Alunos da Companhia de Dança da Escola Municipal de Frevo Maestro Fernando Borges apresentam performances em execuções de frevo de rua. O festival recebe ainda intervenções artísticas da dançarina, pesquisadora e passista Inaê Silva.

No encerramento, o público será convidado a interagir com uma das propostas mais ousadas da noite. Na parte externa do teatro, conhecerá o projeto multimídia Enigma do Frevo, do DJ Dolores. Será a primeira apresentação neste formato, que mescla aparelhagem, som orgânico de metais e a dança do frevo, fruto de uma pesquisa do frevo como linguagem urbana e contemporânea, criando uma experiência sensorial que tensiona tradição e experimentação. 

RENOVAÇÃO
Realizadora do Recife Frevo Festival, a jornalista Michelle de Assumpção conta que sempre sentiu a ausência de um festival dedicado exclusivamente ao frevo na cidade que é origem e respira esse patrimônio, celebrado intensamente no Carnaval. “Um espaço de encontro, de escuta atenta, de experimentação, de debate. Um território onde o frevo possa existir para além da sazonalidade”, afirma.

Filha do compositor Jota Michiles, Michelle cresceu em uma casa de frevo, ouvindo histórias, acompanhando ensaios e festivais de outrora. Entendendo que o frevo não é apenas música ou dança: é ofício, resistência e memória. “Minha família sempre foi guardiã dessa tradição, e eu fui formada nesse ambiente de respeito profundo aos mestres, às orquestras, às escolas e às ruas que forjaram essa linguagem. Mas, ao mesmo tempo, fui me maravilhando com as novas possibilidades: jovens músicos tensionando arranjos, mulheres ocupando espaços de protagonismo, o frevo dialogando com o audiovisual, com o digital, com outras sonoridades.”

O festival nasce justamente desse encontro entre herança e inquietação. “Se queremos falar de salvaguarda, precisamos falar também de renovação. Proteger o frevo não é congelá-lo; é criar condições para que ele continue vivo, pulsante, atravessando gerações e se adaptando aos novos tempos. O Recife Frevo Festival é, para mim, uma forma de honrar quem veio antes e, ao mesmo tempo, abrir caminho para quem está chegando, garantindo que o frevo siga sendo tradição, e também futuro”, afirma.

ETAPA PEDAGÓGICA
Assim como em 2025, o Recife Frevo Festival promove uma etapa pedagógica, no dia 14 de março, no Paço do Frevo, com entrada aberta ao público. A programação inclui a Roda de Diálogo “O Frevo é Delas: Tradição, Mercado e Inovação em Movimento”, reunindo mulheres que atuam na música, na dança e na circulação do gênero para discutir ancestralidade, mercado, renovação estética e os desafios de manter o frevo ativo para além da sazonalidade.

Antes da roda, o público assiste à performance Olindina, de Rebeca Gondim, desdobramento da pesquisa Relicárias, que resgata a história de mulheres negras do início do século XX perseguidas por dançar frevo nas ruas do Recife. A obra recria poeticamente essas trajetórias a partir de vestígios históricos, transformando a cena em gesto de memória, resistência e reparação simbólica.

A cobertura, conteúdos sobre os artistas e homenageado desta edição, maestro Edson Rodrigues, podem ser acompanhadas pelo Instagram do evento: @recifefrevofestival

SERVIÇO
Recife Frevo Festival
12 de março (quinta-feira)
Onde: Teatro do Parque, a partir das 19h
obs: Abertura dos portões às 17h e ingressos gratuitos na bilheteria a partir das 18h
ATRAÇÕES:
Maestro Edson Rodrigues e Banda
Orquestra de Bolso
Jota Michiles
Nailson Vieira
Isadora Melo
Laís Senna
Projeto Duo Frevo
Projeto Um Frevo por Dia
Projeto Enigma do Frevo, com DJ Dolores e Aparelhagem
Performances da dança com Inaê Silva e Cia. de Dança da Escola de Frevo Maestro Fernando Borges

14 de março (sábado)
Onde: Paço do Frevo 
16h30 – Performance “Olindina” com Rebeca Gondim
17h – Roda de Diálogo: “O frevo é delas: Tradição, mercado e inovação em movimento”, com as participações de Isadora Melo, Laís Senna, Inaê Silva e Anne Costa, com medição de Michelle de Assumpção

 

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