Música

Raimundo Carrero: a música antes da literatura

Escritor pernambucano tocou saxofone nas bandas Os Tártaros e Lovings Black Ties, que tocavam em bailes no período da Jovem Guarda

TEXTO José Teles

16 de Junho de 2026

Raimundo Carrero, o primeiro à esquerda, com Os Tártaros

Raimundo Carrero, o primeiro à esquerda, com Os Tártaros

Foto Divulgação

Há 60 anos, a Jovem Guarda (programa de TV que virou sinônimo de iê-iê-iê) estava chegando ao auge. No Recife, havia vários grupos do gênero, um deles chamava-se Os Tártaros, fundado em maio de 1965 por José Araujo, Digilson, Walter e Fred, os integrantes iniciais. Logo se tornaram um dos mais requisitados do estado. Em 1967, foram convidados para gravar o sonhado compacto na Rozenblit, gravadora e fábrica de discos recifense, localizada em Afogados, na Estrada dos Remédios.

“A gente tinha um saxofonista meio fraquinho, aí um amigo, não me lembro mais quem (olha quanto tempo) disse que conhecia um rapaz de Salgueiro, que tocava as músicas muito bem. Foi através desse amigo que conhecemos Raimundo Carrero”, conta Walter Alves, o guitarrista de Os Tártaros. Mal saído da adolescência, Carrero veio para o Recife a fim de estudar e trabalhar. Tocar num conjunto de rock não era exatamente o ofício que os pais imaginavam que ele fosse exercer.

Bom papo, comunicativo, Raimundo Carrero entrosou-se com os integrantes do conjunto, logo era um a mais no conjunto, e passou a participar de bailinhos pela Região Metropolitana e pelo estado de Pernambuco. Iam da matinê “Sorvete dançante", ao primeiro happening do Recife, acontecido num porão do solar de Gilberto Lundgren, com exposição de pintores da nova geração Tiago Amorim e Adão Pinheiro, e a jovem guarda dos poetas recifenses, além de estudantes ingleses e americanos. A decoração a caráter teve vampiros como tema. Algum tempo depois, abriam para Roberto Carlos na sede do Sport.

Raimundo Carrero, com o sax, na banda Lovings Black Ties
Foto: Divulgação

Os Tártaros foram um dos poucos conjuntos da jovem guarda recifense a gravar na Rozenblit. No inicio de 1967, “colocaram na cera”, como se dizia antigamente, duas canções, "Tu és para mim o que eu sempre quis" (versão de "Everybody loves a clown", do Gary Lewis and the Playboys), e autoral "Sou feliz com você. “Mas Carrero não ficou por muito tempo. Era um cara muito profissional, inteligente, deixou o grupo pra cuidar da vida. A gente se afastou, ele se tornou um escritor conhecido. Nos víamos raramente”, continua Walter Alves.

O que o guitarrista mais se lembra do tempo de Raimundo Carrero em Os Tártaros foi quando ele convenceu o conjunto a ir a Salgueiro, sua cidade natal, a 330 km do Recife: “Viajamos numa Kombi. Ficamos todos hospedados na casa da família de Carrero, tocamos lá. Ruim foi a volta. O motorista bebeu demais, e eu fui o motorista, tinha 18 anos. A estrada ainda não era asfaltada. Naquele tempo, asfalto só a partir de Caruaru.

Mas aquela não foi a única vez que os salgueirenses viram Raimundo Carrero animar bailinhos. Antes de vir para a capital, ainda adolescente, ele foi o sax tenor do conjunto Lovings Black Ties, cuja acordeonista era uma menina de 15 anos que, anos mais tarde, cairia no forró e se tornou conhecida como Terezinha do Acordeom.

JOSÉ TELES, crítico de música, pesquisador e escritor.

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