Música

Da garagem ao mundo, o ecletismo intacto da Eddie

Em seu 11º álbum, "Noturna", a banda olindense equilibra o peso do rock praieiro com a sutileza das baladas, da bossa nova e de novas sonoridades latinas

TEXTO Humberto Santos

04 de Agosto de 2026

Foto Ravmes

A banda Eddie completa 37 anos de estrada com o lançamento de Noturna, seu 11º álbum de estúdio, que chegou às plataformas no dia 2 de agosto. O grupo de Olinda ficou conhecido no final dos anos 1980 por criar o "Original Olinda Style", uma mistura que a crítica da época definia como "Nirvana com Carnaval" ou "pós-punk praieiro". No novo trabalho, o quarteto desacelera o andamento e expande as fronteiras musicais ao incorporar cumbia, salsa e bolero à sua tradicional base de frevo e rock, sem perder a crueza rústica de garagem.

Nascida em 1989, a Eddie cresceu em paralelo ao movimento Manguebeat, que revolucionou a cena musical de Pernambuco na década de 1990. Enquanto os contemporâneos no Recife fundiam o maracatu com o hip-hop e o rock, Fábio Trummer e seus parceiros escolheram o caminho da surf music, do rock alternativo, do reggae e dos ritmos carnavalescos das ladeiras de Olinda. Essa recusa em seguir fórmulas comerciais ou se prender a um único movimento manteve a banda em uma órbita totalmente independente por quase quatro décadas, servindo de referência e abrindo espaço em seus discos para cantoras e instrumentistas da cena local, como Karina Buhr, Isaar e Sofia Freire. Em Noturna, essa linhagem feminina continua com a voz de Julia Carvalho na balada "Outra solidão".

A história da banda se confunde com a própria ocupação cultural do sítio histórico de Olinda. Nos anos 1990, os ensaios abertos e as apresentações em casarões abandonados ajudaram a moldar um público que buscava uma alternativa ao circuito tradicional de rádio. A Eddie sempre manteve um pé na tradição oral dos blocos de rua e outro no experimentalismo dos estúdios caseiros, o que permitiu ao grupo sobreviver às transformações da indústria fonográfica sem abrir mão da autonomia de sua produção artística. Essa vivência comunitária e artística nas ladeiras gerou clássicos independentes ao longo dos anos e consolidou o grupo como um patrimônio vivo da música urbana pernambucana.

O novo álbum foi gravado inteiramente em Olinda e reúne o grupo com o produtor Buguinha Dub, retomando a parceria histórica do elogiado disco Carnaval no Inferno, lançado em 2008. Das 11 faixas do novo repertório, dez são autorais de Fábio Trummer, único remanescente da formação original da banda, que divide duas composições com Samuel Mota. O trabalho se destaca por ser o mais melódico da carreira do grupo até aqui, equilibrando experimentações técnicas rigorosas e memórias afetivas. A faixa instrumental "Titi e Tom Tom", por exemplo, nasceu de uma melodia simples que Trummer gravou no celular anos atrás para ninar os filhos na rede, agora recriada no estúdio com a rabeca e o bandolim de Zé Cafofinho.

A sonoridade de garagem ganha contornos de pesquisa técnica detalhada na cumbia "Vou chamar meu povo", gravada com um baixo Fender Telecaster 72 específico, para obter timbres mais rústicos e distantes do padrão da banda. Já a faixa-título abre o disco como um bolero psicodélico conduzido pelos sintetizadores e teclados de André Oliveira, criando um clima de cabaré soturno. Na sequência, a salsa "Tudo pode ser" resgata a essência festiva do grupo, usando o ritmo e a dança como uma resposta política e um antídoto aos problemas da realidade cotidiana. O ecletismo do álbum ainda passa pelo frevo e caboclinho acelerados em "Saudade da folia" e pelo reggae com pegada folk de "The end", que usa um realejo no lugar da gaita tradicional.

O encerramento do disco traz uma forte carga histórica com "Poema da paz", composição do percussionista Erasto Vasconcelos, irmão de Naná Vasconcelos e parceiro de longa data da banda, falecido em 2016. Erasto é o autor de "O baile de Betinha", maior sucesso da Eddie no Spotify, uma faixa que sintetiza a conexão da banda com a velha guarda da percussão pernambucana. Para esta nova gravação, a voz de arquivo do músico foi recuperada e fundida aos arranjos atuais da banda, funcionando como uma homenagem póstuma e um elo definitivo com o passado da cena de Olinda. O quarteto, completado por André Oliveira, Rob Meira e Kiko Meira, inicia a turnê nacional de Noturna neste mês de agosto, passando por São Paulo, Caruaru, Brasília, Belo Horizonte, Natal e Maceió, com o show de retorno a Pernambuco marcado para novembro no Teatro do Parque, no Recife.

CONTINENTE Como foi encaixar cumbia, salsa e bolero no "Original Olinda Style" sem perder a pegada rústica de garagem?
FÁBIO TRUMMER Tudo foi cuidadosamente planejado na pré-produção. Tínhamos o desejo de trazer novidades e notamos que nunca havíamos explorado ritmos latinos, o que nos pareceu uma ideia promissora. Eu já possuía uma base instrumental com uma sonoridade noturna que serviu como ponto de partida. Percebi que aquele era um caminho interessante e um desafio instigante. A partir disso, o processo fluiu naturalmente. Decidimos incorporar elementos da música latina como uma forma de experimentar um território novo, embora já familiar, visto que acompanho o gênero há muito tempo e temos amigos, como o André, que possuem experiência com essa vertente. Foi uma estratégia pensada para nos renovarmos. Em relação à nossa identidade rústica e com sonoridade de garagem, isso foi definido em uma conversa com o Buguinha, que assinou a produção comigo. Antes de iniciarmos as gravações, decidi que não queria esconder essa característica; pelo contrário, desejei reafirmá-la. Agora que retornamos à formação de quarteto — baixo, guitarra, bateria e teclado —, essa estética faz ainda mais sentido com a nossa presença de palco. Seguimos essa diretriz durante toda a produção. O Buguinha reforçava a importância de valorizarmos a nossa essência única, unindo a nossa bagagem musical com a vasta experiência dele. O objetivo era extrair o melhor do que já dominamos. Embora o processo pareça simples na fala, foi um desafio que exigiu dedicação, mas estamos muito satisfeitos.

CONTINENTE O que mudou na parceria com Buguinha Dub em relação ao trabalho de vocês no Carnaval no Inferno, de 2008?
FÁBIO TRUMMER Nossa parceria com o Buguinha teve início na gravação de nossas primeiras fitas demo, produzidas por ele em conjunto com Lúcio Maia. Além disso, Buguinha foi o primeiro baterista com quem toquei. Antes da formação da Nação Zumbi, eu costumava explorar sonoridades utilizando o sistema de som de rua — composto por cornetas — que pertencia ao pai dele. Nós o instalávamos na calçada dos Quatro Cantos, conectávamos os microfones e realizávamos nossas performances ali mesmo. Buguinha é um colaborador de longa data que compreende profundamente a nossa musicalidade. É um amigo próximo, com quem compartilhamos uma trajetória de vida inteira e que, sempre que possível, assume a operação do nosso sistema de PA. A principal mudança, hoje, é que estamos mais experientes e alinhados quanto ao resultado que buscamos. O trabalho de Buguinha está muito mais refinado do que na época de Carnaval no Inferno. Naquele momento, aquele álbum foi fundamental para consolidar a nossa identidade musical, sucedendo trabalhos distintos como Da Lama ao Caos e Afrociberdelia — e o Metropolitano, que inicialmente causou estranhamento no público. Buguinha foi uma das figuras presentes durante esse processo de afirmação de nossa estética. Retomar essa parceria hoje significa reafirmar nossa identidade com a bagagem e a maturidade que adquirimos ao longo dos anos, algo que foi devidamente planejado antes mesmo do início das novas gravações.

CONTINENTE Qual foi a importância do baixo Fender 72 e da pesquisa de timbres para criar o clima de Noturna?
FÁBIO TRUMMER O baixo de Rob possui uma sonoridade muito característica, marcada por frequências graves e um estilo de execução singular que reflete sua personalidade artística. Contudo, sendo este o nosso 11º álbum — e considerando que a formação atual gravou nove deles —, sentíamos a necessidade de nos distanciar de soluções sonoras que já havíamos explorado no passado. Nesse processo de busca por novas texturas e timbres, passamos a experimentar diferentes instrumentos para criar atmosferas distintas. Em relação ao baixo, nossa intenção não era reproduzir a sonoridade típica do reggae; buscávamos algo mais cru, que oferecesse um contraste e evitasse que o álbum soasse excessivamente limitado a esse gênero. Por isso, optamos por reduzir a intensidade das frequências graves neste trabalho. O Fender 72 em específico possui uma personalidade muito forte, que acaba por direcionar a estrutura da música. Geralmente, gravamos o baixo logo após a bateria — sendo o segundo elemento em arranjos que podem chegar a 36 canais — e ele ditou o caminho de muitas composições. É um instrumento excepcional; sua sensibilidade na digitação e a forma como ele "fala" conferem uma identidade única ao disco, remetendo à estética do som de garagem e ao estilo das bandas de guitarra daquela época. Foi uma experiência gratificante. O instrumento é tão inspirador que, ao vê-lo, senti o desejo imediato de me tornar baixista.

CONTINENTE Qual é o peso simbólico de resgatar a voz de arquivo do Erasto Vasconcelos para fechar este álbum?
FÁBIO TRUMMER Ter o Erasto novamente presente em nosso disco é como revivê-lo e ressuscitá-lo, o que digo com a propriedade de um grande amigo. Sua obra possui uma importância imensurável para a música, especialmente para a cena pernambucana que nos influenciou. É um trabalho fantástico que merece ser difundido. Quando concebemos esta canção, ele foi uma escolha natural, não apenas pela afinidade com o "Poema da paz", que reflete perfeitamente a sua sensibilidade, mas também por ser um contraponto necessário ao momento atual, marcado por tantas divergências e conflitos. A experiência de ouvi-lo cantar conosco foi profundamente emocionante. Ao conversar com sua irmã, pude notar que o sentimento era compartilhado. É extraordinário como a tecnologia nos permitiu esse reencontro. Utilizamos o registro de sua voz no "Jornal da Palmeira" e, por uma feliz coincidência, a tonalidade e o tempo da gravação original alinharam-se perfeitamente aos nossos, como se ele estivesse ali conosco. Nos momentos que antecedem nossas apresentações, quando nos reunimos para buscar sintonia e serenidade, sentimos sua presença. Ele foi um pioneiro e uma liderança sensível, capaz de criar momentos inesquecíveis. Ter o saudoso Erasto de volta, integrando nossa música, é fantástico; é uma oportunidade valiosa para apresentarmos sua obra sensacional às novas gerações.

Turnê nacional de Noturna
Primeiras Datas Confirmadas
13 e 14/08 — São Paulo (Sesc 14 Bis)
29/08 — Caruaru (Festival Pernambuco Meu País) 12/09 — Brasília (Festival Jurema Dança)
19/09 — Belo Horizonte (Autêntica) 12/11 — Natal
14/11 — Recife (Teatro do Parque) 26/11 — Maceió (Rex Bar)

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