Música

Os mashups hackearam a cultura pop

A arte de costurar faixas pré-existentes para criar uma terceira música invade a internet

TEXTO Humberto Santos

20 de Julho de 2026

Ilustração Imagem gerada por IA

É estranho. É bizarro. É engraçado. Mas é muito bom. E exige muita competência técnica e musical, além de criatividade. Os mashups estão aí para subverter a lógica com misturas exóticas que viraram febre na internet.

Imagine colocar o peso industrial do Nine Inch Nails para ditar o ritmo de "Shake it off", o hino açucarado de Taylor Swift. Ou forçar o Slipknot a dividir os vocais com o fenômeno adolescente Justin Bieber em "Psychosocial baby". Se essas combinações parecem uma heresia para alguns, nas redes sociais elas se tornam virais com milhões de visualizações.

Bem-vindo ao universo dos mashups (ou bastard pop), a arte de costurar faixas pré-existentes para criar uma terceira música totalmente inédita. O que começou como uma rebeldia de DJs undergrounds explodiu e hoje dita o ritmo de plataformas como o TikTok, Instagram Reels e YouTube.

A arqueologia do pop bastardo: como tudo começou
Embora o formato tenha explodido nos anos 2000, a certidão de nascimento do mashup moderno foi assinada em 1993, nos Estados Unidos, pelo coletivo experimental The Evolution Control Committee (ECC). Sob a liderança de Mark Gunderson, o grupo criou as chamadas "Whipped cream mixes". A engenharia era artesanal e analógica: eles pegaram os vocais isolados (a capella) do grupo de rap Public Enemy e os costuraram milimetricamente sobre as bases instrumentais de jazz e pop acústico da banda Herb Alpert & the Tijuana Brass.

O choque estético entre o rap agressivo e os trompetes felizes dos anos 1960 estabeleceu a regra de ouro que vigora até hoje: quanto mais distantes forem os mundos musicais, melhor será o resultado. Pouco tempo depois, em 2002, a dupla belga 2manydjs lançou o álbum As heard on Radio Soulwax Pt. 2, o primeiro disco de mashups a furar a bolha underground, vendendo meio milhão de cópias e oficializando o gênero no mercado internacional.

Os reis do algoritmo: quem são os grandes nomes?
Esqueça o amadorismo. A linha de frente do mashup atual é composta por produtores de altíssimo nível técnico que acumulam legiões de fãs dedicados e transformaram a colagem em uma nova vertente artística.

Bill McClintock (O Mestre do Heavy Metal vs. Soul/Pop): McClintock é reverenciado por fundir o impossível. Seus maiores sucessos juntam as guitarras do Iron Maiden ou Metallica com o suingue de Michael Jackson ou Aretha Franklin. O resultado é tão orgânico que parece que as bandas dividiram o mesmo estúdio. Em entrevista à revista InsideHook, revelou: "O que eu procuro são duas músicas que tenham vibrações totalmente opostas. A mágica está em unir o incompatível".

DJ Cummerbund em ação. Foto: Mike White/Deadly Designs/Divulgação

* DJ Cummerbund (O Terror dos Gêneros): Dono de uma identidade visual caótica, ele é especialista em criar choques culturais absurdos — como misturar o metal denso do Tool com o pop country de Shania Twain. Em entrevista ao portal IDJNOW, explicou: "Muito disso é improvisado e aleatório. Eu tenho uma espécie de condição neurológica misteriosa que me faz ouvir melodias diferentes sempre que sou estimulado por algum áudio. Isso se manifesta ao ouvir uma música tocando perfeitamente por cima da outra na minha cabeça antes mesmo de abrir o computador”.

* DJ Earworm (O Cirurgião do Top 40): Formado em teoria musical e ciência da computação, Jordan Roseman (nome por trás do projeto) é uma lenda viva do formato. Ele se tornou mundialmente famoso pela série anual "United State of Pop", onde consegue a proeza técnica de pegar as 25 músicas mais tocadas do ano nas rádios americanas e transformá-las em uma única faixa pop perfeitamente coesa e harmônica, arrastando milhões de plays a cada lançamento.

A arte de costurar músicas: por trás da engenharia de som
Não se engane: um mashup profissional não é apenas tocar duas músicas ao mesmo tempo. É um processo cirúrgico de engenharia reversa que exige ouvido absoluto e domínio de softwares avançados (DAWs) como Ableton Live ou Pro Tools.

A anatomia de um clássico exige três passos:

1. A extração por Inteligência Artificial (De-mixing): No passado, os DJs dependiam de raros vinis promocionais com as vozes isoladas (a capella). Hoje, ferramentas de IA utilizam redes neurais para dissecar qualquer arquivo MP3 comercial, separando perfeitamente vocal, bateria, baixo e guitarras em canais isolados em segundos.

2. A guerra do BPM (Time-stretching): Se o vocal de um clássico do rock está a 90 BPM e a base pop está a 125 BPM, o produtor precisa acelerar ou desacelerar os arquivos. O segredo está em algoritmos de Warping, que esticam o áudio digitalmente sem alterar a afinação da voz ou criar artefatos robóticos.

3. A correção tonal (Pitch-shifting): Para que a combinação funcione, vocal e base precisam estar na mesma escala harmônica. Se o Black Sabbath toca em dó menor e a Anitta canta em mi maior, o engenheiro transpõe o tom do vocal em alguns semitons usando softwares como o Melodyne, garantindo que nenhuma nota saia desafinada.

O suco do absurdo
O humor é o grande combustível do compartilhamento na internet. O choque entre o visual sombrio do heavy metal e a estética colorida do pop gera pérolas cômicas inacreditáveis.

Rammstein vs. Wild Cherry ("Play that funky music Rammstein"): Criado pelo DJ Cummerbund, coloca o funk dos anos 1970 como cama para a voz industrial de Till Lindemann em "Du hast". No meio do caminho, guitarras do Metallica e do Megadeth invadem a faixa.

Slipknot vs. The B-52's ("Psychosocial love shack"): O vocal gutural de Corey Taylor ganha roupagem de festa de praia dos anos 1980. Ver a banda mascarada "dançando" no ritmo de um pop retrô é surreal.

Wham! vs. Slayer ("Careless whisper in the abyss"): O saxofone romântico de George Michael envelopado por guitarras de thrash metal. É o ápice do contraste musical.

Por aqui também tem
No Brasil, a técnica ganhou as pistas com o deboche típico do país. Os produtores nacionais não têm medo de misturar o sagrado e o profano.

Chico Buarque vs. funk carioca: Produtores usam a introdução dramática de "Construção" como batida de funk. O contraste entre a alta literatura da MPB e a crueza do batidão é um fenômeno nas pistas universitárias.

Mamonas Assassinas vs. Red Hot Chili Peppers: Unir o escracho de Guarulhos com o funk rock californiano virou um clássico de DJs nacionais, mostrando que as linhas de baixo casam perfeitamente com a irreverência nacional.

Pabllo Vittar vs. Iron Maiden: Os agudos da cantora colocados sobre a cavalgada de guitarras de "The trooper", feito sob medida para confundir os metaleiros mais puristas.

Sotaque nordestino:
Do brega ao mangue passando pelo frevo, forró e trio elétrico. Quando Chico Science e Fred 04 cravaram uma antena no nosso mangue, talvez não esperassem captar essa fusão subversiva. Mas ela veio junto. De colisões absurdas envolvendo o Rei do Brega Reginaldo Rossi a experimentos de forró e axé, conheça alguns mashups e mexidões com música de nossa terra.

* Reginaldo Rossi vs. Bruno Mars ("Garçom no tabuleiro de Bruno Mars"): O vocal rasgado do Rei do Brega colocado sobre bases pop do americano Bruno Mars. Uma sofrência recifense que se tornou universal.

O Rei do Brega encontra a Bahia (Chiclete com Banana): Registro histórico de Bell Marques puxando as guitarras do axé com Reginaldo Rossi ao vivo no trio elétrico na Micarande. Essa união gerou remixes e bootlegs eternos nas pistas.

* A "Eletronização" da sofrência (O forró e o brega de pista): Mostra como as linhas de metais e a voz melancólica do brega e do forró servem de matéria-prima para DJs criarem batidas pesadas.

O tabu comercial: cadê o dinheiro?
Se esses criadores acumulam milhões de visualizações, por que essas faixas não estão no topo do Spotify lucrando rios de dinheiro?

A resposta jurídica é implacável: Direitos autorais. O mashup vive em uma eterna zona cinzenta de "uso transformador" (fair use). Como utiliza fonogramas protegidos, comercializar essas faixas oficialmente geraria processos imediatos. O mercado se monetiza pelo capital cultural: faixas gratuitas no SoundCloud e YouTube constroem audiência, convertida em shows lotados, financiamentos coletivos e contratações para festas e sets de DJ pelo mundo.

CANAIS OFICIAIS DOS DJs

Canal Oficial do DJ Earworm no YouTube
Canal Oficial do Produtor DJ Cummerbund
Canal Oficial de Bill McClintock

MASHUPS

O primeiro mashup da História - "Rebel Without a Pause (Whipped Cream Mix)" por ECC
Vídeo - Rammstein vs. Wild Cherry -"Play That Funky Music Rammstein"
Vídeo - Justin Bieber vs. Slipknot - "Psychosocial Baby"
Vídeo - Slipknot vs. The B-52's - "Slipshack / Love Shack Mashup"
Vídeo - Arruaceiro dos Mashups Nacionais (Cabra Guaraná):
O produtor pernambucano isolou as alfaias de "Maracatu Atômico" de Chico Science e juntou com o trap de Bad Bunny na faixa "Nuevayol".
Áudio - Bell Marques canta Leviana, de Reginaldo Rossi, na Micarande em Salvador

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