Juliana Linhares transforma processo de exaustão em sonho
Compositora e cantora firma-se como expoente da canção brasileira com Até cansar o cansaço, álbum que nasce do encontro da multiartista potiguar com o neurocientista Sidarta Ribeiro
TEXTO Yuri Euzébio
31 de Agosto de 2026
Foto Elisa Mendes/Divulgação
Cinco anos depois de Nordeste Ficção (2021), sua elogiada estreia em carreira solo, Juliana Linhares retorna capturando o zeitgeist com seu novo álbum Até cansar o cansaço (2026). A obra nasce do encontro da multiartista potiguar com o neurocientista Sidarta Ribeiro e propõe uma transmutação da exaustão da sociedade atual em ações e movimentos oníricos.
Na casa dela, com uma bandeirinha escrita Sueña forte do artista visual curitibano Franciso Mallman pendurada na parede, Juliana escuta as perguntas com calma, reflete sobre o que vai falar e, muito naturalmente como em uma conversa de botequim entre amigos, explica suas ideias e o que pretende com suas obras. Foi assim durante todo o papo que ela, com uma delicadeza e firmeza complementares, foi se aprofundando sobre o processo de produção do seu segundo álbum.
“Esse disco é diferente do Nordeste Ficção, que é um projeto que tem um apontamento historiográfico mais específico. Até cansar o cansaço é um disco que tem mais a ver com um processo pessoal, intuitivo. Foi construído numa travessia que tem mais a ver com a presença, com os atravessamentos do corpo, com a ansiedade, com o sono, com o sonho, com a falta de sonho e sono também”, explica a cantora e atriz.
De acordo com Juliana, Até cansar o cansaço é um mergulho mais íntimo em si mesma. “Esse é um disco sobre um momento da vida que eu acho que eu faço parte junto com a humanidade. E isso me atravessou completamente. Então, esse tema foi vindo do corpo mesmo, da necessidade do que estava saindo de mim. E aí ele é atravessado. O cansaço é atravessado pela ideia do sonho.”
Existe um fenômeno cultural na indústria musical que descreve a enorme pressão sobre artistas e bandas para manter a qualidade, a aclamação e o sucesso após uma estreia bem-sucedida. Se existe mesmo o tal do teste do segundo álbum, Juliana Linhares parece não se importar, seguindo na mesma toada do primeiro e dobra a aposta.
A cantora explica que a ideia do álbum nasceu a partir de uma residência que vez com a Cia Brasileira de Teatro a convite do diretor Márcio Abreu em conjunto com o neurocientista Sidarta Ribeiro. A partir da convivência com Sidarta, ela passou a entender melhor seu pensamento. “Comecei a ler mais Sidarta, eu já conhecia, mas nunca tinha me aprofundado tanto e a obra dele propõe a construção de futuros possíveis e ativa a força criativa como forma de reencantamento do mundo, em um espécie de sonho coletivo”.
“O trabalho de Sidarta com o Instituto do cérebro, o estudo do cérebro e do sonho no Rio Grande do Norte foi muito importante pro disco. É uma referência assim, quando eu fui trabalhar com a companhia brasileira e trocar mais com o Sidarta, veio essa coisa do sonho como possibilidade de transformação de futuro num lugar mais fisiológico mesmo”, afirmou Juliana. Sidarta Ribeiro é um dos fundadores do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Segundo Juliana, durante o curso, Sidarta explica as profundidades do sono e a necessidade de dormir melhor. Ele fala muito sobre essa hiperconexão dentro da cabeça da gente, sobre as conexões que o cérebro faz com o uso de substâncias ou em situações diversas. “Eu falei 'bom, a curva do cansaço é o sonho, mas é esse sonho que tem a ver com o dormir, com o descansar'. Então, eu fiquei com essas duas pontas, sabe? Para fazer o disco, assim, essas referências que é o cansaço, o extremo cansaço da sociedade, mas também a possibilidade do sonho com mais qualidade dentro do que Sidarta apresenta, como ferramenta, tecnologia ancestral mesmo de conexão”.
As onze faixas do novo álbum reúnem composições autorais inéditas e releituras de clássicos de Elino Julião, Belchior e Manduka. As participações, parcerias e encontros do disco ampliam o diálogo entre gerações e tradições em feats com Ney Matogrosso, Agnes Nunes e Anastácia. O trabalho conta com Elísio Freitas, na produção musical, e com Marcus Preto, na concepção artística do álbum, que tem a assinatura de Juliana no conceito artístico geral do projeto.
Para a artista, o processo de escolha dos convidados também representou um sonho. “Foram escolhas bem intuitivas. Por exemplo, a Anastácia é uma pessoa que eu tenho uma certa proximidade, eu convivo com ela e com a neta dela. E a gente faz forró, e eu já queria uma referência como ela dentro do disco. A voz dela é muito importante para a gente, como mulher nordestina”, falou
“Ney era um sonho de muitos anos. Eu fui me aproximando, fui aos shows dele, conversei com a produção assim, com carinho e ele foi maravilhoso. Meu pai é muito fã do Ney e, dentro de uma estrutura familiar muito heteronormativa, de um lugar muito tradicionalista, nordestino, de onde a gente vem, ter Ney como ídolo do meu pai era muito importante para mim, em um lugar de luz e liberdade”.
“A Agnes, eu me aproximei dela nos últimos tempos e me apaixonei, acho ela um ouro, um brilho. É importante ter a ponte da novidade, da juventude, essa menina tão jovem que tem 24 anos e ela é uma luz”, explicou.
Entre o manifesto e a delicadeza, o novo trabalho de Juliana Linhares consolida seu lugar como uma artista que reflete sobre as questões contemporâneas por meio de sua arte. Consciente do lugar em que ocupa como mulher e artista nordestina, a cantora faz da canção um espaço de pensamento, invenção e presença para refletir sobre o mundo exausto, mas ainda disposto a dançar, a partir dos ritmos e signos de suas origens.
Esse segundo disco é também reflexo do período atribulado de vida da artista, que recentemente entrou em cartaz no teatro com uma remontagem da já clássica As Centenárias, de Newton Moreno, ao lado de Laila Garin e dirigida por Luís Carlos Vasconcelos. “Eu estava na estrada com o Nordeste Ficção, e preparando a peça, então fui ficando cansada do cansaço, do trabalho e tentando encontrar brechas possíveis para a criação. Isso foi uma dor. Eu falava, caramba, eu não tenho tempo pra mim. Como é que eu consigo criar? E sem espaço interno, eu fui tentando entender isso, foi virando uma angústia. E, aí, das pessoas que foram me acolhendo, das amizades foram nascendo canções”.
Ciente da atual posição que ocupa no cancioneiro nacional, e o chamariz que traz consigo, Juliana busca valorizar um repertório autoral e tipicamente brasileiro. “Eu busco esse lugar. Eu quero ser representante da nossa música, porque eu acho que o forró é uma das coisas mais chiques e mais incríveis que a gente tem. O repertório é fantástico, de Dominguinhos a Anastácia. Tem tanta coisa dentro do universo do forró formadora. Eu busco a produção musical que bote o forró num lugar sempre inovador, sabe? Eu acho isso muito instigante. Eu gosto desse lugar”, confessou.
Perguntada sobre o que liga o Nordeste Ficção com o Até cansar o cansaço, Juliana reflete e é taxativa na resposta: “Eu acho que tem uma compreensão, uma maturidade nesses cinco anos desse lugar do pé no Nordeste, do interesse em fortalecer o campo desse imaginário amplo nordestino. Esse álbum continua desconstruindo estereótipos, trazendo a música nordestina, levando, fazendo pontes. Estar no Nordeste e conseguir ampliar, levar, conduzir, trazer compositores para dentro, ser muito nordestina no sentido do forró, mas trazer o Manduka, ser muito rock e ao mesmo tempo forró.”
Para Juliana, o forró tem o mesmo nível de erudição que qualquer outra música, embora acredite que essa ideia ainda não esteja consolidada no imaginário coletivo. “Eu fui à casa de Anastácia, a galera tocando zabumba e triângulo com elegância. É um negócio muito bonito, é diferente, sabe? Não é todo mundo que toca um triângulo daquele jeito. Então, a gente precisa respeitar essas pessoas, essa música. Eu gosto da canção, acho que é isso o que me move. Eu gosto de boas canções”.
Em junho, a cantora apresentou-se acompanhada da Banda Sinfônica do Recife no Sítio Trindade, em Casa Amarela, em um compilado entre sucessos da cantora e clássicos do forró. O concerto contou com a participação especial de Anastácia, em uma celebração entre as diferentes gerações do ritmo. É o forró sinfônico.
“Eu quero ocupar as praças, a rua, porque a coisa democrática que a rua traz e as pontes possíveis desses espaços de som gratuito são os meus interesses em relação à canção no Brasil hoje, fazer essas pontes, atravessar as pessoas, entender que uma pessoa funkeira que não estava ali para ver esse show. Ela vai se interessar porque a música chega. Então, eu quero estar nos lugares, fazer a canção chegar e ser assim como uma missionária da canção, sabe? Me coloco à disposição disso, meu corpo, minha voz”, concluiu com a serenidade de quem sabe o que quer e o que está fazendo.
YURI EUZÉBIO, jornalista