Música

Michael Jackson e Taylor Swift pedem bênção na Igreja da Madre de Deus

Temporada inédita do projeto Candlelight leva o repertório de estrelas internacionais ao Recife Antigo em arranjos clássicos, sob o olhar dos padroeiros da internet e da alegria

TEXTO Humberto Santos

26 de Agosto de 2026

Foto Fever/Divulgação

Nietzsche dizia que só conseguiria acreditar em um Deus que soubesse dançar. Se o filósofo alemão vivesse hoje no Recife, ele provavelmente passaria as próximas semanas intrigado com o que vai acontecer na Igreja da Madre de Deus. O Recife Antigo, sempre associado ao batuque dos maracatus e ao barulho dos bares, vai ver um movimento diferente dentro do templo do século XVII. O espaço recebe a nova temporada do Candlelight, mas a trilha sonora passa longe da liturgia tradicional: os sucessos de Taylor Swift e Michael Jackson ganham arranjos para quarteto de cordas. O detalhe é que, por trás das talhas douradas, os santos da casa guardam algumas coincidências curiosas com a cultura pop.

A identidade da própria igreja ajuda a entender essa aproximação. A Madre de Deus pertenceu aos Padres Oratorianos de São Filipe Néri, sacerdote florentino do século XVI que ficou conhecido na história católica como o "santo da alegria" e o padroeiro dos humoristas. Famoso por quebrar protocolos clericais com bom humor e irreverência, Filipe Néri dificilmente veria problemas na troca da solenidade tradicional por acordes mais festivos.

A ligação com a atualidade está em uma das capelas laterais, dedicada a São Carlo Acutis. O jovem italiano, recém-canonizado e considerado o padroeiro da internet, usava a rede para catalogar milagres antes de falecer aos 15 anos. No fim das contas, é um templo onde o patrono dos humoristas divide o espaço com o novo santo do universo digital.

SHOWS
A proposta do Candlelight funciona pelo contraste. Os arranjos tiram os sintetizadores e as batidas eletrônicas, deixando as canções apenas no violino e no violoncelo. Ouvir Billie Jean ou Blank Space diante de santos de pedra e paredes folheadas a ouro traz uma surpresa natural. Para o público, acostumado a ouvir essas faixas em shows ou no fone de ouvido, o desafio é ficar em silêncio. É uma exigência da própria acústica da igreja, que propaga qualquer ruído.

Os concertos na Madre de Deus fazem parte de um circuito organizado pela produtora Fever, plataforma global responsável pela marca Candlelight. No Recife, a programação foi dividida entre a Igreja e o Teatro RioMar. Enquanto a Madre de Deus recebe as músicas do repertório de Taylor Swift, Michael Jackson, Ed Sheeran e Coldplay, o palco do shopping center abriga as sessões dedicadas ao cinema, como as trilhas sonoras de Hans Zimmer e a saga de O senhor dos anéis.

Na Madre de Deus, a execução musical fica por conta de instrumentistas clássicos locais. Para quem costuma passar horas sob o rigor de partituras eruditas, traduzir o pop das rádios para violinos e violoncelos exige soluções diferentes. O quarteto precisa adaptar a pressão do arco e o uso do pizzicato para simular a dinâmica das batidas de estúdio, aproveitando o eco natural das paredes de pedra sem a necessidade de uma estrutura pesada de amplificação.

Longe da aparelhagem sonora típica dos grandes shows de arena, a experiência na Madre de Deus vai depender muito da acústica natural do prédio, um dos belos exemplos da arquitetura barroca. É este o teste que começa nas próximas semanas: ver se o pop das rádios consegue preencher e se sustentar dentro do silêncio de um templo antigo. Líder da equipe de produção e porta-voz do Candlelight no Brasil, Dênnys Araújo Santos conversou com a revista Continente sobre o projeto.

CONTINENTE O projeto Candlelight já passou por teatros modernos no Recife. O que motivou a decisão de trazer esta temporada para a Igreja da Madre de Deus?
CANDLELIGHT A escolha de espaços emblemáticos é uma parte muito importante da proposta do Candlelight. Buscamos locais que tenham uma identidade própria e que possam dialogar com a programação, ao mesmo tempo em que diversificamos os espaços pelos quais o projeto passa em cada cidade. A Igreja da Madre de Deus reúne muitas dessas características: além de sua relevância histórica e arquitetônica, é um espaço já reconhecido por receber celebrações e apresentações musicais, está localizada no centro do Recife, em uma região que respira cultura, e possui uma atmosfera muito especial. A arquitetura e os detalhes em madeira esculpida ajudam a criar um cenário que conversa naturalmente com a proposta intimista do Candlelight.

CONTINENTE Quais foram as principais exigências de preservação negociadas com os órgãos de patrimônio e arquidiocese para montar o espetáculo dentro de um templo colonial?
CANDLELIGHT Antes de levar o Candlelight a um espaço com essas características, realizamos um alinhamento com os responsáveis pelo local e uma visita técnica para entender suas particularidades, necessidades operacionais e os cuidados necessários para receber o evento. No caso da Igreja da Madre de Deus, toda a operação foi pensada respeitando as características e regras do espaço. Entre os principais cuidados, podemos destacar a própria cenografia do Candlelight que favorece esse tipo de ocupação: as velas utilizadas são de LED, sem chama, e a montagem é leve e adaptável, permitindo criar a atmosfera característica dos concertos com o mínimo de interferência no espaço.

CONTINENTE Como funciona a escolha dos músicos recifenses que executam essas partituras e qual o perfil de público que esperamos atrair para a igreja?
CANDLELIGHT Um dos pilares do Candlelight é trabalhar com talentos locais. Em cada cidade, buscamos músicos de excelência e construímos parcerias que, além de garantir a qualidade artística dos concertos, contribuem para valorizar e fomentar a própria cena musical local. Em relação ao público, o Candlelight tem como proposta tornar a música clássica mais acessível e aproximá-la de diferentes perfis de espectadores. Por isso, nossa programação transita entre grandes compositores clássicos — como Vivaldi e Beethoven — e releituras de artistas contemporâneos — como Coldplay, Taylor Swift e Michael Jackson.
Essa combinação também cria novas portas de entrada para o gênero. O Classical Pulse 2026, estudo global realizado pelo Candlelight com mais de 8 mil pessoas em dez países, mostrou que, no Brasil, 30% dos entrevistados demonstram maior interesse por concertos que reinterpretam ou mesclam gêneros musicais, enquanto 19% se interessam por apresentações realizadas em locais não convencionais, como museus, hotéis e espaços históricos.
No caso do Recife, conseguimos reunir justamente esses dois elementos: repertórios que fazem parte do universo musical de diferentes gerações e a oportunidade de vivenciá-los dentro de um espaço histórico como a Igreja da Madre de Deus. Queremos que alguém que talvez chegue atraído por um artista que já conhece também possa descobrir uma nova relação com a música clássica e, ao mesmo tempo, vivenciar o patrimônio cultural da própria cidade de uma maneira diferente.

SETLIST PREVISTO

Taylor Swift
Inclui sucessos como Love story, Blank space, Cardigan, Anti-hero, Cruel summer, All too well, You belong with me e Enchanted.

Michael Jackson
Traz clássicos como Billie Jean, Thriller, Beat it, Smooth criminal, Black or white, Man in the mirror e Don't stop 'til you get enough.

Coldplay vs. Ed Sheeran
Mescla faixas como Clocks, Fix You, Something just like this e Adventure of a lifetime, do Coldplay, com Shape of you, Bad habits, Thinking out loud e Perfect, de Ed Sheeran

AGENDA CANDLELIGHT NO RECIFE

Igreja da Madre de Deus
30 de agosto
Tributo a Taylor Swift (18h) | Ed Sheeran vs. Coldplay (20h)
27 de setembro
Tributo a Michael Jackson (18h) | Ed Sheeran vs. Coldplay (20h)
Preços: Ingressos a partir de R$ 49,00 (Ed Sheeran vs. Coldplay), R$ 68,50 (Michael Jackson) e R$ 72,50 (Taylor Swift).

Teatro RioMar Recife
21 de agosto
O Senhor dos Anéis (18h)
25 de setembro
O Melhor de Hans Zimmer (18h) | Coldplay & Imagine Dragons (20h)
Preços: Ingressos a partir de R$ 43,00 (Hans Zimmer) e R$ 50,50 (O senhor dos anéis). Vendas: aplicativo ou pelo site oficial da Fever.

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