Música

"Tento ser um criador de mundos estranhos e belos"

Músico, cantor e compositor Armando Lôbo fala sobre "iLUDENS!", novo espetáculo intermídia que será apresentado no Cais do Sertão, no domingo (23), com entrada gratuita

TEXTO Marcelo Pereira

19 de Agosto de 2026

Fotos Talian Lessa/Divulgação

A sorte está lançada. O jogo vai começar, como cerimônia e ritual. Ouvidos, olhos e corpo atentos. O espírito tem que estar aberto às novas possibilidades sonoras, ao improviso e ao erro, e vêm processadas com imagens, gestos e palavras, filosofia, teatro e performance. Neste domingo (23), o músico, cantor e compositor Armando Lôbo Neto faz a avant-première do espetáculo iLUDENS!, no Cais do Sertão, às 19h, com entrada franca.

Dividido em duas partes, iLUDENS! - Música, Performance, Ritual contará com composições e performances musicais de Alípio Carvalho Neto, Armando Lôbo, Ewerton  Cândido, Fábio Janhan, Gueber Santos, Henrique Correia, Íkaro Lima, Rebeca Furtado, Rodrigo Prado. Participam do espetáculo Taciana Gomes (dança), Vanessa de Melo (cantora convidada),  Luciana Nadalutti (narração) e dos artistas visuais Isabela Stampanoni e Daniel Duarte.

Desde que surgiu na cena musical pernambucana, em meados dos anos 1990, como um dos líderes da banda Santa Boêmia, que corria em paralelo ao Movimento Mangue, o cantor e compositor Armando Lôbo Neto já transitava por uma seara de interpretação mais teatral, visceral e performática. Mal-rotuladamente, fazia MPB. Mas já dissonante daquela música popular brasileira que veio dos anos 1960-70, quando o termo foi cunhado e ganhou os mass media. E a dissonância estava nos arranjos, na busca de novos horizontes, timbres e ritmos para suas canções. Influências que poderiam ser ecos da vanguarda paulista ou dos sambas da velha guarda; vinham também da música erudita contemporânea. Tudo isto se acentuou quando Neto aprofundou seus estudos acadêmicos, alargou seu universo, culminando com o doutorado na Universidade de Edimburgo, na Escócia.

ENTREVISTA ARMANDO LÔBO NETO

CONTINENTE Como e quando surgiu a ideia do projeto? Houve um momento específico, uma imagem, um conceito ou uma inquietação que detonou o processo?
ARMANDO LÔBO Tenho me interessado pelo tema desde pelo menos 2010, quando entrei em contato com o livro Homo Ludens, do historiador e filósofo cultural holandês Johann Huizinga. Com a leitura desta obra, quase que de imediato comecei a conceber a pesquisa que culminou no iLUDENS!

CONTINENTE  O que você buscava investigar artisticamente quando começou a conceber o iLUDENS?
ARMANDO LÔBO Buscava entender as relações entre jogo e cultura, os aspectos formais e ritualísticos. Sempre fui muito ligado a manifestações lúdicas, então minha ideia foi a de expandir esse interesse até chegar a uma estética e poética lúdico-ritualística contundente.

CONTINENTE O iLUDENS nasceu primeiro como música, como conceito filosófico, como dramaturgia ou como pesquisa acadêmica?
ARMANDO LÔBO Como intuição cultural, depois como conceito filosófico. Sempre pensando bem mais na criação artística que em qualquer formalismo acadêmico. Sou um anti-acadêmico com Ph.D.

CONTINENTE De que maneira o iLUDENS deriva da sua pesquisa de doutorado em composição cênica?
ARMANDO LÔBO Na Universidade de Edimburgo (Reino Unido), sempre tive total liberdade para seguir o caminho que quisesse. Desde o primeiro dia, todos sabiam que meu maior objetivo era o artístico. Assim, meu doutorado foi um período de investigação criativa. Tive tempo e apoio para desenvolver as ideias e as abordagens conceituais. A escrita da tese foi bem rápida, pois já estava vivendo intelectualmente o assunto havia tempo.

CONTINENTE Quais autores, conceitos ou temas desenvolvidos na tese aparecem mais diretamente no espetáculo?
ARMANDO LÔBO Em verdade, os escritos que mais me influenciaram no processo foram dois de Ortega y Gasset, A Origem Desportiva do Estado e Interpretação Bélica da História; e há também um conceito que me marcou especialmente durante o processo, o de agon (conflito, competição), que está na origem do teatro e de toda a atividade que envolva disputa. Li muitas obras a respeito.

CONTINENTE Como foi o processo de transformar uma investigação filosófica e antropológica sobre jogo e ritual em uma obra cênico-musical?
ARMANDO LÔBO Como disse mais acima, foi o interesse em criar uma obra artística que me conduziu à pesquisa. O ritual e o jogo estão intimamente conectados. Por outro lado, nunca me satisfiz inteiramente com a música pura ou afastada de outras artes e sensibilidades. Fui me tornando naturalmente intermídia com o passar do tempo, e cada vez mais ligado ao teatro, que é grande expressão do agon.

CONTINENTE Quais compositores e pensadores, tradições e estéticas influenciam o Concerto e o Ritual?
ARMANDO LÔBO No lançamento de iLUDENS!, a parte denominada Concerto será com obras de colegas compositores, cada um com um universo estilístico diferente. Não impus nenhuma curadoria específica, pois o espetáculo é sobre o sentido dilatado do jogo, e fazer música já é um jogo em si. O Ritual, por outro lado, é uma obra inteiramente minha. As influências são múltiplas, desde o aboio sertanejo à música contemporânea de concerto, com uma pitada de eletrônica.

CONTINENTE De que forma o teatro, a ópera e a dramaturgia contemporânea entram na construção do Ritual?
ARMANDO LÔBO Ultimamente, quase não vou a shows musicais. Tenho mais interesse em teatro e formas híbridas de criação, tendo a música, no entanto, como elemento catalisador. Não me interessa a ópera tradicional, apenas aquelas que desbravem linguagens e surpreendam.

CONTINENTE Você volta a trabalhar com Alípio Carvalho Neto, depois da experiência na Santa Bôemia? Como foi o processo colaborativo?
ARMANDO LÔBO Somos complementares. Musicalmente, eu sou mais estruturador e narrador, Alípio é mais hipnótico. Ambos somos viscerais, cada um a seu modo. Temos também muitos interesses intelectuais em comum, literários, filosóficos, cinematográficos, etílicos etc.

CONTINENTE Como você enxerga o caráter híbrido do projeto, que mistura música nordestina, música de concerto e experimentação tecnológica?
ARMANDO LÔBO Estranha-me no século XXI ainda haver gente que combate o hibridismo e a "impureza” das formas artísticas. Aqui mesmo em Pernambuco há editais que procuram restringir o intercâmbio entre as artes. A ópera é herdeira da Tragédia, que já era uma forma híbrida. Ésquilo, por exemplo, foi autor, compositor, encenador. De certa forma, não me sinto como um artista contemporâneo, mas, como diria Xenakis, um clássico no século XXI. O clássico para mim não é um equilíbrio asséptico das formas, é uma potência de eterna atualização e violência criativa.

CONTINENTE De que maneira Villa-Lobos, Guerra-Peixe e Marlos Nobre influenciam essa proposta de fusão entre o popular e o erudito? Ou suas referências musicais são outras?
ARMANDO LÔBO Gosto dos três, mais de Villa, que já foi uma influência minha. Não penso mais em fusão entre popular e erudito, penso em proposta poética. Uma proposta pode demandar uma variedade de gêneros contrastantes. Tenho atitude dramatúrgica; a música para mim é uma personagem do jogo agonístico das artes. Interesso-me por toda música que me surpreenda. Se eu a desvendo rapidamente, começo a bocejar.

CONTINENTE Como elementos como aboio, ritmos, gestualidades e narrativas nordestinas são ressignificados no espetáculo?
ARMANDO LÔBO Empreendi recentemente uma pesquisa chamada Livro de Jacó (disponível gratuitamente em meu site armandolobo.com), sobre a expressão musical dos vaqueiros nordestinos. Isto vaza um pouco no espetáculo iLUDENS!, principalmente na segunda ação do Ritual. Não tenho mais um interesse tão especial pelas coisas brasileiras, tenho interesse pela música brasileira tanto quanto tenho pela música africana, a indiana, a indonésia etc. Agora, uma coisa é ter interesse e outra é o que você é. A "nordestinidade" em mim ou brota naturalmente ou eu a descarto.

CONTINENTE Você busca incorporar influências europeias do repertório erudito ou da música contemporânea neste seu trabalho?
ARMANDO LÔBO Eu tenho uma miríade de influências díspares e, ao mesmo tempo, nenhuma delas toma conta da integridade de minha produção criativa. Buscar o inclassificável é uma atitude de rebelião contra o mundo segmentado pelo algoritmo. A música contemporânea de concerto, de cariz europeu é uma das minhas maiores influências, mas não me classificaria como “músico erudito”. Tento ser um criador de mundos estranhos e belos.

CONTINENTE O espetáculo é divido em duas partes: Concerto e Ritual? O que cada ato representa conceitualmente?
ARMANDO LÔBO Concerto é o ato mais estritamente musical do espetáculo. Ritual é uma experiência estética sobra a passagem do mito à razão por meio do jogo.  O Ritual começa na caverna de Platão e termina com uma referência à Dialética do Iluminismo, de Theodor Adorno. O espetáculo tem diversas camadas, e não é preciso conhecimento dos assuntos tratados para aproveitar a experiência. Faço arte para os sentidos, com uma retaguarda intelectual provocativa, quase sádica.

CONTINENTE O iLUDENS! tem uma teatralidade construída em cima do mito da caverna, do aboiador sertanejo e a releitura de Ulisses. Como conectar temas tão diversos?
ARMANDO LÔBO A conexão é pelo voo imaginativo com asas intelectuais. Estou desenvolvendo o conceito de "máquina lúdica”, uma esponja que tudo absorve, uma espécie de antropofagia ritualística. A primeira ação do ritual representa a criação da música em uma caverna por um Adão-feminino, que coreografa uma música que começa eletroacústica e termina stravinskiana, uma espécie de "Sagração do Paleolítico". Na segunda ação surge Mestre Coriolano, o vaqueiro neolítico shakespeariano que aboia para a virtude da coragem. A terceira ação inclui uma coleção de comentários de vários filósofos acerca do jogo como elemento cultural fundamental. A ação final mostra a indignação lírica de uma sereia em relação à passagem do mito à razão, representada por Ulisses. Após a ação final ainda há uma poslúdio que simboliza o retorno à caverna, dessa vez pela decadência da razão.

CONTINENTE O que o público pode esperar num espetáculo como o iLUDENS! E a que tipo de público ele se destina, uma vez que a música contemporânea circula de um modo mais restrito?
ARMANDO LÔBO O Concerto (primeira parte) é uma apresentação musical instrumental com obras dos participantes. O Ritual (a segunda parte) não é um espetáculo de música, é uma ação intermídia, de artes combinadas, uma performance estendida que agradará a pessoas de todas as artes e ao público comum. Aliás, desde que dei uma guinada em direção ao teatro tenho colocado muita gente em eventos.

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