Música

As inquietações transgressoras de Alípio Carvalho Neto

Com duas obras incluídas no espetáculo "iLUDENS!", o músico, poeta, tradutor e pensador pernambucano explora os limites da improvisação e da persuasão

TEXTO Marcelo Pereira

21 de Agosto de 2026

Foto Rachele Gigli/Divulgação

O músico, compositor, poeta, tradutor e performer pernambucano Alípio Carvalho Neto mantém uma atividade produtiva intensa. De volta ao Recife após alguns anos na Itália, ele participa do espetáculo iLUDENS!, um projeto conceitual de música contemporânea envolvendo recursos cênicos, teatrais e tecnológicos que dinamitam fronteiras entre gêneros artísticos, criado por Armando Lôbo Neto, que tem lançamento Cais do Sertão, no domingo (23), às 19h, com entrada gratuita.

Alípio apresentou duas composições inéditas, “Mutatum” e “Empédocles / Ἐμπεδοκλῆς”, que formam um ciclo tectônico-magmático. “As composições foram feitas pensando no caráter transdiciplinar do iLUDENS!, da pesquisa do Armando que faz parte de um antigo diálogo poético entre nós! São duas composições em contraponto temático”, explica Alípio.

Na maioria de seus projetos musicais, Alípio trabalha em parceria com outros músicos e artistas. Agora também é assim. "A partitura de 'Mutatum' nasce da minha colaboração com a artista Isabela Stampanoni (videoarte e "caldeirão hidrofono"). Introduzi alguns desenhos seus como motivos a serem interpretados e improvisados pelos músicos, além de que todo o material em notação musical também partiu de uma leitura minha de uma espécie de grafia rítmica que ela fez para um outro projeto. Eu trago a minha versão disto tudo associada à lendária morte do filósofo Empédocles na cratera do vulcão Etna que teria cuspido uma de suas sandálias. Isto também em sintonia com a pesquisa que faz a Isabela sobre vulcões e a sua ‘cartografia do ritmo’.

Em sua música e performances, Alípio explora as possibilidades do improviso, que vem do jazz, da música contemporânea erudita. Mas nada é feito gratuitamente. Há todo um envolvimento e desenvolvimento intelectual e musical até chegar ao resultado que é apresentado. “‘Mutatum’ é um palíndromo, significa ‘mudado’ / ‘trasformado’. O universo sonoro é explorado neste sentido também, o de uma circularidade temática que pode refletir o espírito telúrico das metamorfoses, como aquela de Ovídio, ou de uma ‘metaformose’ leminskiana, um transe geológico, não antropocêntrico apesar de representado pela humanidade da arte. O eixo da performance é deslocado para a ausência de protagonistas tradicionais, os gestos, os sons comandam”, conceitua o músico e compositor.

“Mutatum” e “Empédocles” são composições que se desenvolvem a partir de uma investigação teórica. Doutor História, Ciência e Técnicas da Música, pela Universidade de Roma 2 Tor Vergata, em paralelo à carreira literária e musical, Alípio Carvalho Neto prossegue com sua atividade acadêmica. No ano passado, apresentou no L’Institut de Recherche et Coordination Acoustique/Musique (Ircam), do Centro George Pompidou, em Paris, o texto “Persuasion et rhétorique dans l’Improvisation (Persuasão e retórica na improvisação)”, que será publicado em breve na França, pela Éditions Delatour, uma antologia com autores dedicados ao tema música e política. Ele participou do seminário ao lado do músico e pensador pernambucano Frederico Lyra e de François Nicolas (organizador).

A reflexão sobre improvisação musical parte de uma leitura intensa de La persuasione e la rettorica, obra singular do jovem filósofo italiano Carlo Michelstaedter, que se suicidou aos 23 anos. A hipótese central de Alípio é que “a improvisação é persuasão; a composição, retórica”. Para Alípio, improvisar significa habitar o território fértil da imperfeição, onde a música se manifesta como fluxo, risco e presença absoluta. A composição, por outro lado, representa o mundo codificado, social, organizado — aquilo que Michelstaedter chamava de “vida ordinária”, marcada pela philopsychia, o “amor vil da vida”, sempre projetado para o futuro e, portanto, sempre decepcionante.

Partitura de Alípio Carvalho Neto incorpora elementos da obra de Isabela Stampanoni

“O meu texto trata da relação entre improvisação como ‘persuasão’ e composição como ‘retórica’, numa dinâmica pouco evidente destes respectivos territórios musicais, tudo partindo da minha leitura do originalíssimo pensamento do pouco conhecido filósofo italiano Carlo Michelstaedter (1887-1910). Isso está em completa simbiose com o iLUDENS!, com as minhas colaborações com Armando após o Santa Boêmia”, afirma Alípio. “O iLUDENS! é um projeto de exploração transdiciplinar que desloca o eixo das convenções estéticas ditadas pela linearidade banal do mercado da arte e do consumismo desenfreado dos nossos tempos, e assim é a minha pesquisa, uma projeção voluntária de propostas para persuadir formas de conhecimento enquanto princípios emancipatórios entre vida e arte, natureza e cultura, abolindo as armadilhas limitadoras do simplesmente conceitual. Por isso também a minha colaboração com uma artista poliédrica como Isabela Stampanoni”, explica o músico e pensador.

TEORIA E PRÁTICA

Em seu texto “Persuasion et rhétorique dans l’Improvisation”, Alípio transpõe as ideias de Michelstaedter para a música. “O direito à vida não se paga com trabalho findo, mas com atividade infinita”, afirma o pensador italiano, na obra tomada emprestada. A persuasão é a vida plena no presente; a retórica, a ilusão da vida social e do prazer — o “dieu du plaisir”. A improvisação é, por sua vez, o risco de estar em posse do tempo presente, como na ginga da capoeira — uma consciência vital e precária do instante. A retórica, postula Alípio, é a conciliação com o sistema, com a vida codificada e capitalista. Seguindo este raciocínio, improvisar se constitui em um gesto filosófico radical, um “suicídio e renascimento a cada instante”, ecoando Novalis: “Der echte philosophische Akt ist Selbsttötung” (“O verdadeiro ato filosófico é o suicídio”, em tradução livre). É também “um ato de rebeldia e de autodomínio”.

Ao citar sua trajetória e obras, como Hutukara, Nicoletta Di Gaetano e Ad libitum, Alípio explora o conceito de imperfeição e o diálogo aberto entre composição e improvisação. Inspirado em pensadores como Andy Hamilton, Ajay Heble, David Borgo, Giancarlo Schiaffini e Joe Morris, que distinguem “composição com improvisação e improvisação sem composição, ele chega a Bruce Ellis Benson, para quem composição é, ao mesmo tempo, a improvisação sobre a música e improvisação sobre este discurso”.

Alípio adota, ainda, o conceito indígena Apùap, a “escuta do mundo”, a partir das ideias do antropólogo Rafael José de Menezes Bastos. Essa visão desloca o eixo da percepção do visual para o auditivo, propondo uma biopolítica da sensorialidade. A apùap, a persuasão (improvisação) e a retórica (composição) formam o triângulo de sua estética. A performance, por sua vez, é o instante em que artista e público se tornam uma unidade viva, uma “allégorie utopique d’humanité” ("uma alegoria utópica da humanidade").

Sertanejo de Floresta, no sertão pernambucano, Alípio voltou a residir no Recife, mas torna regularmente à Europa, Itália em particular, de acordo com a agenda de concertos e outras ações artísticas. Ele já realizou três viagens desde outubro do ano passado, quando retornou para ficar perto de seus pais, que viriam a morrer em meados deste ano. O motivou também “o tentador convite” feito por Armando para participar do iLUDENS!. “Há algum tempo que desejávamos afinar nossos afetos poéticos através de um projeto entusiasmante “, concluiu Alípio.

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