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Música para ouvir e ver

Documentários lançados recentemente contam a história de artistas e bandas consagrados, como Paul McCartney, Led Zeppelin, Red Hot Chili Peppers, Paulinho da Costa e Cazuza

TEXTO Débora Nascimento

23 de Abril de 2026

Documentário da Netflix conta a história do guitarrista Hillel Slovak, membro-fundador do Red Hot Chili Peppers

Documentário da Netflix conta a história do guitarrista Hillel Slovak, membro-fundador do Red Hot Chili Peppers

Foto Divulgação

Para conhecer bem um músico não basta apenas acompanhar com afinco a sua discografia. Muitos detalhes de suas histórias, origens, influências, formação, parcerias, composições e de seus discos podem ser revelados a partir de documentários musicais, proporcionando novos sentidos para suas obras. Frequentemente, surgem mais filmes e séries documentais que narram e ilustram a chegada e a evolução de artistas, sejam elas trajetórias pessoais ou de bandas.

A seguir, veja cinco opções de produções lançadas recentemente e que contam a emocionante história por trás da formação do Red Hot Chili Peppers; os acontecimentos que levaram Jimmy Page a formar o Led Zeppelin; a lembrança da vida de Cazuza a partir de seus amigos e da mãe; a vida de Paul McCartney após os Beatles e a trajetória vitoriosa do percussionista mais requisitado do mundo, o brasileiro Paulinho da Costa, que vai ganhar estrela na calçada da fama em maio.

The Rise of the Red Hot Chili Peppers: Our Brother, Hillel
Netflix, 2026
Dir.: Ben Feldman 

The rise of the Red Hot Chili Peppers: Our brother, Hillel (Netflix, 2026) não é exatamente um documentário sobre a banda californiana. Trata-se de um filme sobre Hillel Slovak. O talentoso guitarrista, nascido em Israel e radicado em Los Angeles, foi quem teve o insight de convocar dois jovens alucinados de seu colégio, Anthony Kiedis e Flea, para se juntarem a ele em uma banda de rock.

Ao longo de 1h35, o documentário resgata a trajetória do músico que faleceu precocemente em 1988, aos 26 anos, mas não sem antes deixar como legado ao mundo uma das maiores bandas norte-americanas. E, desta forma, o filme conduzido pelo ator e diretor Ben Feldman (Mad Men) também conta a história de como foi formado o RHCP.

Foi ideia de Slovak, por exemplo, colocar Flea, então um apaixonado por jazz e trompetista amador, para tocar baixo, instrumento que ele aprendeu em duas semanas, antes de pisar pela primeira vez em um palco, tornando-se um virtuoso. Slovak ainda aceitou a sugestão de pôr no microfone um habitué dos inferninhos de Los Angeles, descobrindo, assim, um dos vocalistas mais intensos do rock: Anthony Kiedis.

Uma dica: antes de assistir ao documentário, pegue uma caixa de lenços. O filme não é piegas. Mas poucas vezes você vai ver tanta sinceridade e emoção no depoimento de artistas consagrados sobre seu passado. A morte de Slovak abriu espaço para a chegada de um tímido fã seu, um guitarrista de apenas 18 anos, que mudaria o curso da história da banda e seria um dos maiores guitar heroes: John Frusciante.

Man on the run
(Prime Video, 2026)
Dir.: Morgan Neville

Se, para a maior parte dos seres humanos, a dúvida primordial é se existe vida após a morte, para quatro britânicos, em 1970, o grande mistério era saber se existiria vida após terem integrado a maior banda de rock de todos os tempos. Após o término dos Beatles, sub judice, um de seus principais compositores, Paul McCartney, tomou um rumo inusitado: embrenhou-se no mato de sua fazenda na Escócia e passou a viver como um camponês, um simples pai de família, sem empregados, com a barba e o cabelo crescendo segundo a vontade de Deus.

Mas a vocação sempre fala mais alto: Paul passou a criar as músicas iniciais da sua carreira solo, sentindo o peso do trabalho anterior, mas com liberdade para ousar, como as faixas do (hoje cultuado) RAM (1971), disco criado em meio a galinhas e tratado com desdém pela imprensa. E logo sentiu a vontade de montar uma nova banda, o Wings, sendo o guitarrista Denny Laine seu membro permanente. 

O documentário mostra Paul, um ex-beatle, tocando humildemente de surpresa em universidades, viajando de ônibus e, aos poucos, voltando a alcançar novamente o sucesso, sendo o topo dele o álbum Band on the run (1973). Essa história é contada a partir de imagens de arquivo pessoal e das preciosas fotos clicadas pela esposa e parceira Linda, e segue até 1981, com o fim do Wings.


"The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa"
Netflix, 2026
Dir.: Oscar Rodrigues Alves

Houve uma época no Brasil em que os músicos que tocavam percussão eram chamados de ritmistas. A nomenclatura poderia denotar uma limitação no raio de atuação desses artistas, vinculando-os apenas aos ritmos, que costumam classificar os gêneros musicais. Porém, com o passar do tempo, o entendimento foi mudando e esses músicos passaram a ser chamados de percussionistas. Isso demonstrou que eles não estavam na música apenas para acompanhar o ritmo, mas para dar um “molho” nas gravações e nos shows, participando ativamente dos arranjos.

E, na era de ouro da venda dos LPs, a partir do final dos anos 1970 e na década de 1980, quem ouvia música acompanhando os créditos dos discos, via um nome recorrente: Paulinho da Costa. Integrante da banda de Sérgio Mendes, o percussionista carioca viajou aos Estados Unidos pela primeira vez em 1972 e de lá nunca mais voltou. Com talento, simplicidade e simpatia, chamou a atenção de muitos artistas, como Quincy Jones, de quem se tornou amigo. 

A partir daí, foi convidado para participar de gravações que se tornaram sucesso na voz de diversos nomes, como Michael Jackson, Madonna, Lionel Richie, Prince, Elton John e Ella Fitzgerald. Ao todo, o músico brasileiro gravou com 972 artistas e participou de mais de 6 mil gravações. 

O documentário traz depoimentos do tímido carioca, que fez uma visita ao Brasil, com paradas na Bahia e no Rio de Janeiro, onde reencontra o lugar onde morava e conta sua origem pobre e como conheceu a esposa com quem construiu uma família e encontrou a felicidade. É para terminar com um sorriso no rosto, tão transbordante quanto o de Paulinho da Costa. Em maio, o percussionista será o primeiro artista nascido no Brasil a ter seu nome na calçada da fama de Hollywood.

Cazuza, Além da Música
(Globoplay, 2025)
Dir.: Patrícia Guimarães

Cazuza é uma daquelas saudades cultivadas no imaginário coletivo nacional. Seu legado como cantor, compositor de hits e hinos do BRock, boêmio da paisagem carioca, ainda é forte na história da música brasileira, 35 anos após sua morte. A série documental Cazuza, Além da Música remonta a trajetória do artista a partir de depoimentos de amigos, ex-namorados, colegas do Barão Vermelho e a mãe Lucinha Araújo. Há uma riqueza de material imagético, vídeos caseiros, videoclipes, imagens de shows e fotos pessoais.

Um dos destaques do documentário é a abordagem do desagradável fato que marcou os últimos dias de Cazuza, já debilitado em decorrência da Aids: a famigerada reportagem da Veja, publicada em 26 de abril de 1989. A jornalista Ângela Cruz, que assinou a matéria junto ao editor da revista, Alessandro Porro (falecido em 2003), revelou que quem, na realidade, editou o texto, acrescentando vários trechos ofensivos foi o jornalista Mário Sérgio Conti, então editor de cultura da Veja e hoje jornalista da Globo News. 

A repórter acrescentou que Conti ainda teve o desplante de ficar ao lado de Lucinha Araújo no velório do filho, em julho de 1990. No entanto, foi Alessandro Porro quem fugiu para a Itália e escapou, por pouco, de ter levado um tiro do pai de Cazuza, João Araújo, que, munido de um revólver, passou três dias na frente da casa do editor.

Becoming Led Zeppelin
(Prime Video, 2025)
Dir.: Bernard MacMahon

Becoming Led Zeppelin é o primeiro documentário biográfico autorizado pela mítica banda inglesa. Contribuiu para essa aprovação o fato de a produção ser dirigida por Bernard MacMahon, mesmo autor de American Epic, documentário musical de 2017 sobre as raízes das gravações da música norte-americana. Os remanescentes do Led Zeppelin, Jimmy Page, Robert Plant e John Paul Jones, também se sentiram à vontade para falar, como o título sugere, sobre o período anterior à formação do grupo e o início da carreira do quarteto fantástico britânico. Isso significa deixar de fora todas as polêmicas, inclusive as que incluíam o super baterista John Bonham, falecido em 1980 – morte que provocou o fim da banda. 

O documentário mostra como Jimmy Page, um jovem veterano músico de estúdio, que trabalhava com artistas como Shirley Bassey, arquitetou a criação do conjunto, arregimentou os músicos, compôs as músicas em parceria com os outros integrantes, produziu o Led Zeppelin (I), e o entregou pronto a qualquer gravadora que quisesse. A sortuda foi a Atlantic. Com muitos depoimentos focados no aspecto musical, raras imagens de arquivo e encerrando no primeiro álbum, o documentário desperta um desejo de continuidade. No entanto, é praticamente impossível que haja uma continuação. Pelo menos, enquanto os ex-integrantes estiverem vivos.


DÉBORA NASCIMENTO, editora-assistente das revistas Continente e Pernambuco



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