Múcio Callou atualiza a tragédia de Medeia em três movimentos
A condição feminina no patriarcado estrutural, num momento em que o feminicídio cresce e assusta, especialmente no Brasil serviu de inspiração para a nova obra do compositor
TEXTO José Teles
26 de Janeiro de 2026
Foto Divulgação
No final de dezembro de 2025, Medeia aterrissou nas plataformas de música para streaming. Uma curta peça semierudita, de 8 minutos, é assinada pelo pernambucano Múcio Callou, e inspirada na tragédia homônima de Eurípedes (480 a.C. – 406 a.C.), que ao longo dos séculos fascina diretores, atores, músicos e plateias. Coincidentemente, a Medeia, de Múcio Callou chega ao público 50 anos depois de Gota d'água, a adaptação da peça feita por Chico Buarque e Paulo Pontes com Bibi Ferreira no papel principal. Estranhamente poupada pela censura (que cortou algumas palavras de baixo calão) Gota d’água foi sucesso de público e crítica, e tornou a canção título um clássico da MPB.
A obra musical Medeia, de Múcio Callou, foi maturada durante quatro décadas. Começou a ser fermentada nos anos 1980, quando ele cursava graduação em música na UFPE. Numa aula de história do teatro do professor Milton Bacarelli, que tinha a tragédia de Eurípides como tema. Múcio Callou aceitou uma provocação do mestre, que o desafiou a criar uma composição para frases pinçadas do texto original de Medeia, qual seja: “Voltam os santos rios para as fontes / e com a justiça marcham para trás todas as coisas”. Ele fez uma música para coro, ensaiou a classe a cantá-la, e a regeu, com ele próprio acompanhando-se ao violão.
Embutida naquelas frases há margem para uma gama de leituras, interpretações. No recém-passado e atribulado ano de 2025, estão inseridos na cornucópia de tragédias do cotidiano o recrudescimento e a escalada da violência contra a mulher e a via-crúcis de correntes de emigrantes vítimas de falta de solidariedade e xenofobia, nos países ocidentais onde procuraram asilo. Ele mira a Grécia antiga para revisitar um tema que considera urgente: a condição feminina em uma sociedade estruturada pelo patriarcado.
Grosso modo, Eurípedes conta em Medeia a história da personagem-título, mulher traída pelo marido, Jasão, que cometeu uma tresloucada vingança, matando os filhos, com a intenção de causar dor e aflição ao pai. Mas a tragédia grega não se limita a narração de uma história para entreter o público, é uma imersão no comportamento do ser humano. Uma reflexão sobre uma mulher, banida de sua polis com os filhos, por conveniência, pelo marido, a fim de ele se casar com outra mulher.
Múcio Callou diz que lançou o foco na dor de Medeia antes de se decidir pelo ato trágico. “Quis dar voz às medeias do patriarcado atual, em consonância com o patriarcado grego”. A versão que escreveu é composta por três partes: "Anunciação", "Parresia" e 'Reverso'. Concentra-se no primeiro estásimo da tragédia de Eurípides, momento em que o coro escuta Medeia antes que a narrativa avance para seus atos mais brutais.
“Anunciação”, sem letra, tem como destaque a acentuação dos tímpanos, como a pedir atenção para o que se seguirá. “Parresia”, a segunda parte, um solo da mezzo soprano Hadassa Rossiter, escolhida para dar voz à fala franca e dolorosa da personagem, enfatizada pelo emprego das frases do texto de Eurípedes. Frases que criam sentido pela subjetividade de cada uma. As duas partes se completam pela terceira e última, o “Reverso”, escrita há anos, e rearranjada para esta Medeia sob a batuta de Múcio Callou. O coro e a voz solo se entrelaçam, num clima de música sacra, de melodias envolventes. Espera-se que o autor toque Medeia à frente de uma orquestra, com coral e voz solo.
Música e elenco
Medeia é um primor de concisão. O autor expressa várias reflexões num mínimo de tempo. Cada uma das três partes são curtas, parecendo ainda mais breves por soarem tão agradáveis. Mal-comparando, tem oito minutos a duração de Hey Jude, dos Beatles (1968).
Múcio trabalhou com artistas locais, pouco conhecidos para quem não é afeito à música de concerto. Se bem que Medeia está próxima ao popular sofisticado. “Anunciação”, a abertura, lembra as melodias e soluções harmônicas de Milton Nascimento, com Múcio Callou, Hadassa Rossiter e Dirney Pacifico, mais um coro misto de oito pessoas. “Parresia” é interpretada por Múcio Callou, Leo Guedes e Hadassa Rossiter. Já “Reverso” é introduzido por um cello, e desenvolve-se num clima de música sacra.
A escolha de trabalhar apenas o primeiro estásimo não foi casual. Para o compositor, os episódios de violência extrema cometidos pela personagem acabaram, ao longo dos séculos, obscurecendo a discussão central da tragédia. Ele cita o psicanalista Marcelo Veras para reforçar essa leitura: o coro, naquele momento inicial, escuta uma mulher traída, estrangeira e sem garantias — e reconhece a injustiça que antecede qualquer crime.
Com menos de dez minutos de duração, Medeia surpreende pela densidade. Callou rejeita a ideia de que a brevidade seja uma concessão ao ritmo acelerado da vida contemporânea, mas reconhece que obras mais curtas podem dialogar melhor com o público atual.
“Cada obra tem seu próprio tempo para se expressar. No caso de Medeia, não precisou se estender. É como ler um conto em vez de um romance: exige menos tempo, mas não menos atenção”, explica.
A peça nasceu de forma fragmentada. Primeiro veio Reverso, que acabou se tornando o desfecho. Depois surgiu Anunciação, a abertura. A sensação de incompletude levou Callou a escrever Parresia, o solo de Medeia, que amarra a narrativa musical.
Processo artesanal e colaborativo
A produção ocupou todo o ano de 2025. Callou reuniu um grupo de cantores experientes para formar o coro e contou com músicos como Léo Guedes (violoncelo) e Disney Pacífico (tímpanos). Ele próprio gravou o violão.
“Fizemos um ensaio e já partimos para o estúdio. Em algumas semanas concluímos gravação e mixagem. Foi um projeto particular, realizado com recursos próprios”, relata.
A escolha de Hadassa Rossiter para o solo central foi decisiva para o resultado final. Embora a peça tenha sido pensada para mezzo-soprano, Callou viu na cantora a expressividade necessária para a interpretação. O resultado é uma performance que combina técnica, dramaticidade e clareza emocional.
Apesar de circular como single nas plataformas digitais, Medeia não integra um álbum maior. O compositor revela que seu desejo é apresentar a obra ao vivo no Dia Internacional da Mulher, desde que haja financiamento para viabilizar o projeto.
Conhecido por transitar entre a música popular, a vanguarda e, mais recentemente, a música de concerto, Callou já havia dedicado suas suítes anteriores a temas ligados a Pernambuco — Suíte 1817, Suíte Capibaribe e a inédita Suíte Josué de Castro.
A Suíte Capibaribe, lançada em 2024, foi gravada, mas nunca executada ao vivo. Já a Suíte 1817, financiada por edital, teve apresentações, gravação e até CD físico. A Suíte Josué de Castro, primeira da trilogia a ser escrita, permanece inédita em estúdio, embora já tenha sido executada diversas vezes.
Ao ser questionado sobre outros compositores pernambucanos que sigam linha semelhante à sua — música de concerto orgânica, sem concessões — Callou reconhece que não está sozinho, mas observa que muitos projetos não se concretizam por falta de financiamento.
Desafio de Hadassa
A soprano lírica Hadassa Rossiter, 44 anos, reconhece que a escrita vocal de Medeia não foi pensada para seu tipo de voz, mas afirma que sua formação híbrida facilitou o processo. “A música foi feita para uma mezzo soprano, realmente, mas eu sou soprano lírico. Minha experiência com a mistura de técnicas de canto popular e bel canto me auxilia a trazer esse resultado sonoro”, explica.
A obra chegou até ela pelas mãos da produtora Sandra Arraes, que apresentou o contexto histórico, social e psicológico da personagem. A preparação exigia mais do que precisão técnica: pedia densidade emocional. “Era algo que deveria estar bem presente na interpretação. Sandra e Múcio já tinham uma expectativa muito clara da cena e não pouparam detalhes, o que foi muito instigante pra mim.”
Embora seja uma peça erudita, Medeia carrega elementos que evocam a música popular brasileira. A própria cantora reconhece ecos do Clube da Esquina. “O ambiente harmônico é denso, e a tessitura da linha melódica — exatamente nas mudanças de registro vocal — é propícia para a interpretação que eles queriam: indignação, protesto, um nó na garganta, um pedido de escuta, um grito… Para o intérprete, isso é ouro.”
A leitura da partitura foi imediata, e o encontro com o compositor no Conservatório ajudou a lapidar detalhes. A gravação, segundo ela, fluiu com naturalidade. “Fizemos uns três ou quatro takes, para que Múcio e Sandra escolhessem. Não digo que a música de Múcio é fácil, mas foi tranquilo fazer. Minha facilidade vem do gosto musical, do desenvolvimento auditivo, da experiência com esse tipo de repertório e de estúdio.”

Hadassa Rossiter é uma figura conhecida nos corredores do Conservatório Pernambucano de Música (CPM), onde leciona canto e desenvolve trabalhos de regência. Cantora desde os cinco anos, ela construiu uma trajetória marcada pela versatilidade: transita com naturalidade entre o erudito e o popular, grava jingles, participa de vocais em discos de artistas locais e atua como preparadora vocal em obras de referência, como a Grande Missa Nordestina, de Clóvis Pereira (1932–2024).
Apesar da longa experiência, sua discografia é discreta: o primeiro CD só veio em 2006, com pouca divulgação, e mais tarde seria disponibilizado nas plataformas digitais. Ao longo das últimas décadas, ela se dedicou sobretudo ao ensino e às múltiplas possibilidades que o canto oferece.
Hadassa e Múcio Callou se conhecem desde o período em que ambos atuavam no Conservatório, mas só passaram a trabalhar juntos durante a pandemia, em gravações caseiras. “Fiz com ele Esse Senhor e Recife musa, por exemplo. Tenho bastante afinidade com a música de Múcio. As melodias me trazem um quê de nostalgia. Como você falou, lembra Milton. Caminha nesse sentido do Clube da Esquina, de algumas harmonias dos anos 1970. Apesar de não se manter lá, ele traz coisas novas.”
A soprano, que há décadas se move entre universos musicais distintos, encontra em Medeia uma síntese de sua trajetória: técnica erudita, sensibilidade popular e entrega dramática.