Música

Hoje é Dia da Bossa Nova, a mais internacional das músicas brasileiras

Data é uma homenagem ao cantor e compositor Tom Jobim, que nasceu no dia 25 de janeiro e ajudou a fazer a cabeça de muitos artistas mundo a fora

23 de Janeiro de 2026

Foto Arquivo Nacional/Domínio Público

Quando a bossa nova começou a circular pelo Rio de Janeiro no final dos anos 1950, poucos imaginavam que aquele modo de tocar samba, marcado por sutileza e economia de gestos, encontraria terreno fértil nos Estados Unidos. A bossa nova ainda vivia seus primeiros anos na época que se deu o concerto no Carnegie Hall, em Nova York, em 1962, marcando a entrada definitiva do gênero no circuito internacional. Pouco depois, The Girl from Ipanema — versão em inglês de Garota de Ipanema — ampliou ainda mais a presença da música brasileira no exterior. A gravação de Frank Sinatra com Tom Jobim consolidou o interesse norte-americano pelo estilo, que passou a integrar repertórios de artistas ligados ao jazz e ao pop. Em homenagem a Tom, que neste dia 25 de janeiro completaria 99 anos, hoje se comemora o Dia da Bossa Nova 

Em pouco tempo, músicos brasileiros passaram a cruzar fronteiras e estabelecer carreira no país. Alguns se tornaram figuras centrais na consolidação do gênero fora do Brasil, enquanto outros ampliaram suas trajetórias dialogando com o jazz, o pop e novas linguagens. Entre os pioneiros, Sérgio Mendes ocupa posição de destaque. Pianista e arranjador, ele se mudou para os Estados Unidos e formou o grupo Brasil ’66, que rapidamente ganhou espaço no mercado norte-americano. Suas versões de “Mas Que Nada” e outras composições brasileiras circularam em rádios, programas de TV e trilhas de cinema, tornando Mendes um dos principais responsáveis por apresentar o samba-jazz e a bossa nova a novos públicos. Sua atuação como maestro e produtor consolidou uma carreira duradoura no país.

A baiana Astrud Gilberto também desempenhou papel decisivo. Casada com João Gilberto, entre 1959 e 1964, seu grande incentivo, que ajudou a perder o medo do palco. Ela foi a primeira mulher a ganhar o Grammy de Música do Ano, por sua interpretação de “The Girl from Ipanema”, com Stan Getz, em 1964, que projetou sua voz para o mundo e abriu caminho para uma carreira solo construída nos Estados Unidos. Ao longo das décadas seguintes, ela gravou álbuns, colaborou com músicos de jazz e manteve presença constante no circuito internacional, tornando-se uma das vozes mais reconhecidas associadas ao gênero.

Antônio Carlos Jobim, embora tenha dividido sua vida entre Brasil e Estados Unidos, exerceu influência direta no cenário musical norte-americano. O álbum Getz/Gilberto, gravado ao lado de Stan Getz e João Gilberto, tornou-se referência e ampliou o alcance da bossa nova. A parceria com Frank Sinatra reforçou sua presença no país e consolidou sua imagem como compositor de alcance global.

João Gilberto, considerado o criador da batida que definiu a bossa nova, também viveu períodos nos Estados Unidos. Sua participação no concerto de 1962 no Carnegie Hall marcou um momento simbólico da entrada do gênero no mercado norte-americano. A partir dali, sua presença em gravações e apresentações contribuiu para estabelecer os fundamentos do estilo no exterior.

Nos anos 1960 e 1970, Marcos Valle viveu em Los Angeles, onde colaborou com artistas norte-americanos e ampliou sua atuação internacional. “Summer Samba (So Nice)” tornou-se uma de suas composições mais conhecidas fora do Brasil, reforçando sua ligação com o mercado estrangeiro. No mesmo período, o organista Walter Wanderley também se mudou para os Estados Unidos e alcançou grande repercussão com sua versão de “Summer Samba”, que se tornou um dos principais sucessos do samba-jazz no país.

A presença brasileira no cenário norte-americano se diversificou com artistas que transitaram entre gêneros. Flora Purim, por exemplo, mudou-se para os Estados Unidos e iniciou sua carreira internacional ligada à bossa nova, embora posteriormente tenha se destacado no jazz-fusion. Eumir Deodato, pianista, arranjador e produtor, estabeleceu-se no país e se tornou um dos nomes mais influentes do jazz-funk, mantendo vínculos com a estética brasileira em suas produções.

Miúcha também integrou esse movimento. A cantora viveu nos Estados Unidos e participou de gravações importantes, incluindo colaborações com João Gilberto e Stan Getz, contribuindo para a circulação da música brasileira no ambiente jazzístico norte-americano.

Outros músicos, mesmo sem fixar residência permanente nos Estados Unidos, tiveram papel relevante na expansão da bossa nova. Baden Powell, com seu violão característico, circulou entre Brasil e Europa, mas sua obra influenciou intérpretes e instrumentistas norte-americanos. Luiz Bonfá, por sua vez, esteve entre os primeiros a apresentar o violão brasileiro ao público dos Estados Unidos, participando de gravações e concertos que ajudaram a consolidar o interesse pelo gênero no início dos anos 1960.

PELO MUNDO

A trajetória desses artistas revela um movimento contínuo de trocas culturais. Ao se estabelecerem nos Estados Unidos, eles não apenas difundiram a bossa nova, mas também dialogaram com tradições musicais locais, contribuindo para novas sonoridades. Suas carreiras mostram como a música brasileira encontrou espaço em diferentes circuitos e como a bossa nova se tornou parte do repertório internacional, sustentada por vozes, arranjos e interpretações que atravessaram fronteiras.

A lista de intérpretes estrangeiros que se aproximaram da bossa nova é extensa. Nos Estados Unidos, além de Sinatra, nomes como Tony Bennett, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Barbra Streisand e Nat King Cole registraram composições de Jobim ou exploraram ritmos brasileiros. No Reino Unido, Dusty Springfield, Cliff Richard e George Michael incluíram temas influenciados pelo gênero em seus trabalhos. A circulação da bossa nova também alcançou a França, onde Serge Gainsbourg, Henri Salvador, Pauline Croze e Brigitte Bardot incorporaram elementos do estilo em gravações e arranjos.

Na Itália, Mina, Ornella Vanoni, Nicola Conte, Chiara Civello, Franco Cerri e até Ennio Morricone dialogaram com o repertório brasileiro. No Japão, Lisa Ono tornou-se uma das principais divulgadoras da bossa nova, ao lado de Tokiwa Kinoshita, Akiko Yano, Ryuichi Sakamoto e Taeko Ohnuki. A presença do gênero em diferentes países evidencia sua capacidade de adaptação e reinvenção, mantendo características essenciais enquanto se integra a outras tradições musicais.

A influência da bossa nova também se manifestou em grupos e projetos posteriores. Na França, o coletivo Nouvelle Vague utilizou o ritmo como base para releituras de músicas da New Wave. Nos Estados Unidos, o duo Thievery Corporation incorporou elementos brasileiros em produções eletrônicas, chegando a gravar faixas em português. Em Portugal, o Bossarenova Trio e a Portugal Bossa Nova Band mantêm repertórios dedicados ao gênero, enquanto na Alemanha o quarteto MANTECA mistura bossa nova, samba e latin jazz.

A relação entre a França e a bossa nova ganhou contornos particulares com Nino Ferrer, cuja canção La Rua Madureira evocou imagens do Rio de Janeiro e referências brasileiras. Ferrer incorporou a batida e as harmonias do estilo em sua obra, aproximando-se de uma estética que ficou conhecida como “French Bossa Nova”. Brigitte Bardot, por sua vez, gravou “Maria Ninguém”, de Carlos Lyra, além de composições próprias com influência brasileira, como “C’est une bossa nova” e "Je danse donc je suis”, além de outras com influências latinas e de samba, como “Invitango”, incluídas no álbum BB (1964), mostrando sua conexão com a música brasileira nos anos 60, com arranjos de Alain Goraguer.

A permanência do gênero também se observa em grupos contemporâneos como o Baila Nova, sediado na Califórnia. O conjunto trabalha com repertório clássico da bossa nova, combinando-o com elementos de jazz, pop e ritmos latinos. A vocalista Laura Vall conduz interpretações que dialogam com a tradição brasileira, ao mesmo tempo em que atualizam o estilo para novos públicos.

Apesar das críticas iniciais, a bossa nova consolidou-se como um dos principais legados da música brasileira. Sua trajetória, marcada por encontros informais, experimentações harmônicas e circulação internacional, demonstra a força de um movimento que nasceu de um gesto simples: a busca por um novo modo de tocar. Hoje, sua presença em diferentes países, vozes e arranjos confirma que aquele “jeito especial” de fazer música continua a atravessar gerações e fronteiras.

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