Chichi e Banane adotam a literatura de cordel na França
O poeta e o músico acabaram de lançar o segundo volume de seus álbuns Littérature de ficelle, associados à publicação de folhetos ilustrados. Uma nova demonstração das relações culturais entre o Nordeste e a Occitânia
TEXTO Eric Delhaye
05 de Janeiro de 2026
Chichi é um poeta que usa uma língua popular, mistura de francês e occitan; Banane é músico, multi-instrumentista, especialista em banjo
Foto Luca Defendini/Divulgação
A cidade de La Ciotat fica na costa do Mediterrâneo, no sul da França. Pitoresca e animada, ela carrega, no entanto, as cicatrizes do fechamento de seus estaleiros em 1988, uma crise que forçou milhares de trabalhadores a ficarem desempregados. Hoje, o local destina-se à manutenção de iates de luxo. E, assim como em Marselha, a metrópole vizinha, a gentrificação e o turismo de massa impulsionaram a economia, ao mesmo tempo em que fragilizaram o tecido social e diluíram a identidade local. Essa história e muitas outras são contadas por Chichi e Banane enquanto bebem cervejas no terraço do Bar O'Central, com vista para o porto.
Chichi (apelido de Sébastien Ballester) é um poeta que usa uma língua popular, mistura de francês e occitan, falado no terço sul do país. Banane (Alexandre Auria) é músico, multi-instrumentista, especialista em banjo. Quando se apresentam, no palco ou na rua, penduram atrás de si folhetos nos quais estão impressos seus textos, com um desenho na capa, no estilo dos cordelistas do Nordeste. Seus dois álbuns, lançados em 2022 e 2025, são até mesmo intitulados Littérature de ficelle (volumes 1 e 2), a tradução francesa para “literatura de cordel”. Chichi e Banane até se autodenominam ficellistes (“cordelistas”), embora nunca tenham pisado no Brasil.

Para entender isso, é preciso saber que a dupla Chichi et Banane é apenas a expressão mais recente das pontes construídas entre o Nordeste, de um lado e, do outro, a Occitânia, uma região cultural e linguística que abrange grande parte do sul da França. Podemos até mesmo voltar à Idade Média, já que alguns temas da literatura de cordel, que surgiu no século XIX, tomam de empréstimo aos romances franceses de cavalaria, enquanto os repentistas, poetas de improviso, são primos distantes dos trovadores occitanos.
Séculos depois, essa linhagem foi explorada pelos Fabulous Trobadors.Fundada em Toulouse no final da década de 1980, essa dupla fez seu nome ao combinar o folclore regional com a embolada nordestina. Em seu rastro, um movimento nasceu com o surgimento simultâneo de vários grupos que revitalizaram a tradição occitana integrando influências exógenas, principalmente brasileiras.
Em Nice, o coletivo Nux Vomica lançou um álbum intitulado Nissa-Pernambuco. Numa pequena cidade no departamento de Tarn, La Talvera gravou ForrOccitània com o cantor e compositor pernambucano Silvério Pessoa. Em Marselha, o muito famoso Massilia Sound System é principalmente influenciado pelo reggae jamaicano, mas também pelo brega funk de Recife em seu último álbum, Sale caractère. E há mais por vir: em Nocturnàlia, lançado no início de maio, o jovem trio Raffut canta o poeta occitano Max Rouquette ao ritmo da ciranda.
Chichi et Banane continuam esse relacionamento. Sobre a formação da dupla, há 10 anos, diz Chichi, que também é professor de enologia: “Ele tinha seu banjo e eu tinha minha boca”. Juntos, eles inventaram um novo folclore baseado no blues, no jazz antigo e no reggae, às vezes ao ritmo de um pandeiro ou de uma cuíca. E foram os primeiros a adotar a literatura de cordel, ideia que veio de Tatou, o diretor artístico. Cofundador do Massilia Sound System, ele descobriu os repentistas e a literatura de cordel durante uma turnê do grupo no Brasil em 2001. “Queríamos publicar uma coletânea de nossos textos, como as partituras das operetas de Marselha vendidas nos mercados na década de 1930”, diz Banane. “Foi Tatou quem nos contou sobre esses folhetos pendurados em cordas com prendedores no Brasil. Esta tradição de rua ressoou em nós.”

Assim como no cordel, Chichi usa uma linguagem floreada, cuja tradução em português é bastante difícil, composta de expressões populares e trocadilhos, misturando francês e occitano, às vezes italiano ou árabe, além de palavras que só são usadas em algumas famílias ou em bares de La Ciotat. “É a crioulização”, diz Banane, reivindicando “uma identidade local aberta para o mundo”, seguindo os passos do pensador occitano Félix-Marcel Castan, que escreveu: “Você não é o produto de um solo, você é o produto da ação que você faz nele”.
Chichi escreve “como se fala” sobre a vida cotidiana, por exemplo, quando descreve a atmosfera dos bares: “É lá que os poetas bêbados declamam seus versos complicados, onde os sotaques fluem, onde são formados, deformados, e que eles exclamam com suas palavras altas” (na canção “Os bares”). Mas ele também comenta sobre as questões sociais e políticas de La Ciotat, locais, mas possivelmente universais.
Seus textos são impressos em folhetos, que têm o dobro do tamanho de seus equivalentes nordestinos O autor das ilustrações da capa é o artista Blu-S-Attard, também guitarrista do Massilia Sound System. “No Recife, vimos esses folhetos vendidos nos mercados e achamos ótimos”, ele disse. Embora use lápis e paleta gráfica em vez de xilogravura, a expressão em preto e branco lembra a dos cordelistas: “Trouxe alguns folhetos para França e me inspirei nesses desenhos ingênuos e caricatos que ilustram a história”.
É assim que os folhetos de Chichi e Banane podem ser comprados em uma livraria no porto de La Ciotat, Le Poivre d'Âne, bem como durante os concertos da dupla, pendurados entre duas hastes de cobre em um carrinho. A presença, nesse contexto, dessas pequenas publicações surpreende os conhecedores desse patrimônio nordestino. Mas o público francês geralmente ignora totalmente a existência da literatura de cordel, assim como Chichi e Banane nunca tinham ouvido falar dela antes de adotá-la. Grandes fãs da música brasileira, especialmente de Chico Buarque, eles agora sonham com uma viagem transatlântica: “Ir às terras do cordel seria uma maneira de prestar-lhe homenagem”.
Serviço:
Chichi et Banane, Littérature de ficelle 2 (Manivette Records / Kuroneko)
Eric Delhaye é jornalista especializado em música, com colaborações para publicações como Télérama, Le Monde Diplomatique e Libération