Entre o "groove" e a ancestralidade do trio Soul de Brasileiro
Em um repertório que transita pelo soul, samba, jazz, MPB contemporânea e funk, álbum de estreia do grupo carioca condensa mais de uma década de pesquisa musical
TEXTO Humberto Santos
29 de Julho de 2026
Foto Toca Discos/Divulgação
Formado por Ge Vieira, José Junior e Negra Silva, o trio carioca Soul de Brasileiro lançou nesta quarta-feira (29), o seu primeiro álbum cheio, intitulado SOU. O trabalho, que sai pelo selo Toca Discos com distribuição da Universal Music, condensa uma trajetória de mais de uma década de pesquisa musical dos integrantes, culminando em um repertório que transita pelo soul, samba, jazz, MPB contemporânea e funk.
A formação do grupo tem origem na Vila Kennedy, periferia da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Os três músicos iniciaram a prática vocal ainda jovens, por meio do canto em igrejas locais, ambiente onde desenvolveram a técnica de arranjos e harmonizações que hoje centraliza a identidade do trio. Antes de formatarem o projeto atual, os cantores integraram o braço nacional do projeto internacional Playing For Change — dividindo registros com nomes como Gilberto Gil e Manu Chao —, além de colaborarem em um single com a poeta Elisa Lucinda e gravarem o EP Ciclo4i sob a direção musical de Sandra de Sá.
O processo de transição do repertório sacro para a música secular de pista moldou a dinâmica de composição do trio. No novo disco, as letras abordam o cotidiano urbano, as nuances das relações afetivas e as vivências nas periferias do Rio de Janeiro, buscando uma crônica social baseada na vivência direta dos integrantes. Esse amadurecimento temático reflete-se na construção das faixas autorais, que abrem mão de estruturas convencionais de rádio para priorizar pontes harmônicas complexas e dinâmicas de chamada e resposta entre as três vozes principais.
Durante as sessões de gravação no estúdio Toca do Bandido, os produtores optaram por registrar a maior parte da base instrumental de forma analógica e simultânea, com os músicos tocando juntos na mesma sala. A escolha técnica buscou emular a estética dos discos de soul e de matrizes afro-brasileiras das décadas de 1970 e 1980. O método de captação valorizou as texturas dos instrumentos de sopro e da percussão, servindo de sustentação para que o trio explorasse modulações vocais que alternam entre o canto coral clássico e o fraseado rítmico do R&B contemporâneo.
O alinhamento com os produtores Felipe Rodarte e Constança Scofield começou em 2023, quando o trio foi selecionado para o programa de aceleração Labsonica. Segundo a direção do selo, o repertório final foi estruturado a partir de três eixos temáticos: crônicas de afeto, afirmação de identidade e resgate de matrizes afrodiaspóricas. Na bagagem de influências estéticas, o trio alinha referências que vão de Cassiano e Tim Maia a Marvin Gaye e Erykah Badu.
O disco apresenta colaborações construídas a partir de afinidades estéticas dos músicos. A cantora Paula Lima divide os vocais na balada "Eu segui", enquanto o trombonista Josiel Konrad insere arranjos de sopro calcados na sonoridade dos anos 1970 na faixa "Aí tem coisa". O rap baiano é representado por Hiran, que assina uma inserção autoral na música "Glória". Junto com o álbum, o grupo disponibiliza o videoclipe de "Oxum Rabane", que sintetiza o foco do projeto na religiosidade de matriz africana. Após o lançamento, a agenda do trio prevê a estreia nos palcos de grandes festivais, com show confirmado no Espaço Favela do Rock in Rio, no dia 12 de setembro.
Serviço
* Álbum: SOU – Soul de Brasileiro
* Lançamento: 29 de julho de 2026
* Selo: Toca Discos / Universal Music